ISMAI debate Ética no Desporto

Espaço Universidade 12-06-2018 21:13
Por Pedro Guedes de Carvalho*

A recente final da Champions em Futebol constituirá, entre outros acontecimentos, um verdadeiro exemplo de fair-play no desporto e de boa estratégia de comunicação em desporto de massas. Não existem palavras para descrever tantas e tão belas atitudes por parte dos participantes no espetáculo: público, fans, jogadores, treinadores, dirigentes e (até) órgãos de comunicação.


Na semana anterior, os alunos de uma disciplina de Ética e Deontologia do Desporto que faz parte do curriculum da licenciatura de Gestão de Desporto no ISMAI, foram desafiados a participar num debate onde se apresentariam (apenas) argumentos, não fanáticos ou eivados de clubite pura, válidos para contribuírem para soluções para a grave conjuntura que se vivera com os trágicos ataques físicos e psicológicos a atletas, treinadores e restante staff de um conhecido clube nacional (SCP), bem assim como aos milhares de desportistas portugueses e internacionais.


Por se tratar de um evento de formação de futuros jovens que queremos ver ocupar futuros lugares de responsabilidade no panorama nacional, vamos destacar alguns desses argumentos, sabendo-se que uma das regras do debate era a de que cada interveniente se apresentaria em “defesa” dos pontos de vista de um dos grupos envolvidos, ainda que com esse não concordasse. Descrevem-se brevemente os argumentos apresentados em nome dos diferentes agentes desportivos envolvidos.


Questões em que os acontecimentos podem afetar os jogadores – estes são obviamente muito afetados pelas mensagens públicas, seja por insinuações negativas que se façam sobre as suas diversas personalidades, seja pelos elogios a alguns comportamentos. Essas mensagens, sendo públicas, têm óbvios impactos nos seus processos de negociação contratual, no seu rendimento psicológico e alteram os valores de passes em futuras vendas.


Questões vistas pelo ponto de vista dos clubes – negligenciar a segurança dos seus trabalhadores contribui para os desfocar completamente das tarefas e responsabilidades futuras e contribuem para desvalorizar os ativos uma vez que os seus salários dependem muito do mediatismo e da eficácia das suas performances.


As questões que se colocam aos organismos públicos como o IPDJ – são as de que precisam dar mais atenção, nas suas funções, a todos e não apenas aos 3 maiores clubes com poder financeiro e mediático no futebol; agindo assim, os poderes públicos contribuem para lhes dar uma sensação de poder acrescido, sentindo-se intocáveis no que quer que façam; isso explica a desigualdade no tratamento financeiro na repartição dos benefícios resultantes dos direitos de transmissão televisiva e cobertura jornalística em enorme contraste com o que se passa, por exemplo, no Reino Unido. A legislação e as normas que regem o desporto têm uma função social e devem ser aplicadas de forma adequada às várias situações. Nem todos usam armas e engenhos explosivos, mas já há muito tempo que diversos engenhos estão impedidos de entrar nos recintos de jogo e nada (ou muito pouco) tem acontecido para o penalizar.


Quanto à FPF é uma evidência que tem deixado prevaricar sem aplicar penas coerentes e exemplares; os regulamentos deveriam ser mais rigorosos e as penas condizentes com os vencimentos dos prevaricadores. A FPF não pode esquecer-se que tem um poder financeiro e mediático imenso no panorama desportivo nacional, com orçamentos que a fazem ser uma potência a respeitar. O mesmo se pode aplicar à Liga que, embora com menores orçamentos e mais dependentes dos clubes, desempenha um papel de charneira no desenvolvimento da modalidade, do espetáculo e da credibilidade dos resultados desportivos e financeiros.


Outros assuntos transversais (interferências entre entidades) foram também aflorados nomeadamente quanto aos Media que está a necessitar urgentemente de uma espécie de “lavagem cerebral” mostrando que não vale tudo no negócio e que os princípios económicos podem subsistir com uma cultura disruptiva que não corra sempre atarás da “desgraça”, da “agressão verbal e do teatro” ridículo da violência entre comentadores. No fundo trata-se de cuidar da imagem (também) internacional do Futebol campeão de Europa (trabalho que caberá à FPV). A ERC, entidade reguladora da comunicação, tem de ser mais ativa, criteriosamente regulada e sem direitos de imagem, por ex.


Ao Governo compete garantir segurança nacional e proteger adeptos, sendo que Clubes e FPF devem ser responsáveis pela segurança dos atletas. Os negócios em torno dos fans devem ser resolvidos e regulados dentro das claques, com regras de pertença e transparência de financiamento.


Os argumentos relativos aos árbitros e sua entidade representante – APAF – aconselham a que na formação dos árbitros estes deveriam ser aconselhados a mudar a atitude de relacionamento com os atletas; muitas das picardias são causadas pelo tratamento demasiadamente liberal e pseudo amistoso na linguagem que estimula não homogeneidade de comportamentos disciplinares; o VAR, em particular, apresenta um regulamento viciado por ligações de avaliação que permitem criar climas de ódio. Poderia ser uma função nova, com formação específica.


Quanto ao papel do Dirigente é absolutamente indispensável que se proceda a uma escolha e formação adequadas e certificadas, não por conveniência, mas por acreditação de verdadeiras competências demonstradas no seu currículo. Importa que esta orientação seja estratégica e obrigatória no âmbito dos quadros dos clubes de futuro.


Por fim, foram muito consensuais as recomendações sobre um muito maior recato nas relações ambíguas entre a Política e o Desporto. Também mereceu amplo consenso a necessidade de formação sobre as regras do jogo para todos os agentes envolvidos.


Cientes que não resolvemos o problema, sentimos que colaboramos para um maior clima de confiança no futuro. Novos agentes, precisam-se!


* Pedro Guedes de Carvalho, professor no ISMAI, com a participação dos alunos de Gestão do Desporto na aula de 21 de maio de 2018

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