The show is over (artigo José Augusto Santos, 12)

Espaço Universidade 06-06-2018 00:52
Por José Augusto Santos

“E passados 43 anos como professor eis-me na minha última aula” … não consegui falar mais, a voz embargou-se-me e os olhos ficaram rasos de água. Foi um momento difícil frente à minha última turma, sem conseguir falar e com as lágrimas a correr pela cara abaixo. Que raio de metamorfose se operou em mim que me transformou dum ranger sem medo e sem sentimentos num piegas chorão que não conseguiu aguentar a inexorável lei da vida que nos leva sempre a terminar tudo o que começamos? Porque, talvez como dizem alguns dos meus amigos, eu para lá de estar imbuído do mais forte sentido de missão como professor amei esta profissão como poucos.


Neste momento de balanço incontornável socorro-me da canção do Sinatra e proclamo bem alto: And now the end is near and so I face the final curtain…but more, much more than this I did my way.


Sim, fiz o meu caminho com muitos trajetos em dor e sofrimento interior. A minha intrepidez permitiu-me abandonar muitos dos atávicos comodismos que caracterizaram a minha geração. Lutei com algum valor e galhardia pelo meu lugar ao sol. Ser professor foi uma escolha difícil no ambiente de estabilidade económica e social que granjeei após a vida militar. Deixei um emprego bancário bem remunerado para entrar num limbo de indefinição característico dos meus anos de estudante. Escolhi ser um militante da vida em vez de um funcionário fossilizado em comodismos burgueses. Sempre fui um revolucionário, não de cartilha panfletária, mas na coragem existencial. Acredito que um homem vale o que a sua coragem permite.


Nunca critiquei os outros por serem como são; só que optei por viver de outra forma, na corda bamba, na conjugação entre incerteza e realização. Aí, onde o mar bate mais forte, poucos se mantêm de pé ou têm coragem para deixar a segurança do porto de abrigo. Se algum mérito me permito assumir foi a capacidade de me ouvir mais a mim que os meus comodismos. Houve alguém que disse que a dúvida é ansiogénica e a certeza ansiolítica. As dúvidas de futuro sempre foram os motores mais fortes da minha transformação interior. Aí só ganhei em ter optado pela incerteza assumindo, inquestionavelmente com coragem, as angústias subsequentes.


Como professor, penso que sempre soube optar pelo essencial. O essencial foi sempre o superior interesse dos alunos. De todos os slogans que o movimento revolucionário de Maio-68 criaram, o que mais me tocou foi: “Professores, vocês fazem-nos envelhecer”. Sempre porfiei no sentido de me constituir como motor de inovação e renovação desafiando os cânones de uma educação ex-cátedra que me marcou negativamente. Ajudei os meus alunos a crescer sem os envelhecer e com eles mantive até hoje a força da juventude. A sua inquietude e irreverência evitaram-me a esclerose intelectual e emocional que tende a embotar a alma daqueles que têm da vida um conceito fechado na tríade que os franceses denominam de “metro, boulot, dodot”. Sempre quis viver para lá da sobrevivência e num esforço de resposta a um mundo em constante transformação. 


Sempre me senti diretamente responsável perante os alunos; foram eles e não os ministros da tutela os meus verdadeiros patrões. Foram eles que me obrigaram a ir sempre mais longe e, com a humildade que deve caracterizar todo o professor, reconheço que também aprendi muito com eles.

Penso, com todos os defeitos que me caracterizam, que fui um bom professor. Entreguei-me à profissão de alma e coração, com forte sentido de missão e ciente da imensa responsabilidade que é transmitir aos mais novos a súmula dos nossos mais elevados valores e investimentos. Muitas vezes me senti demiurgo, ou seja, deus organizador no percurso caótico de crescimento dos meus alunos e atletas. Estar desperto às suas necessidades, sempre renovadas e renovadoras, foi competência que aprendei a desenvolver desde cedo.


Nunca quis agradar a todos; mantive sempre uma autenticidade relacional que redundou em profundas empatias e algumas antipatias. Mas nunca me tive de penitenciar por alguma falha de injustiça.


Sempre soube que não era especial ou insubstituível, por isso, fiz por merecer cada momento da minha vida. Nunca quis ser o principal, ninguém o é por muito que tente ser, embora sempre procurasse a excelência em recorrentes esforços de autoaperfeiçoamento.


Sempre soube ser grato a quem me deu uma migalha pois, por vezes, uma migalha é suficiente para nos matar a fome.


Constituí-me como ser simbionte com os meus alunos e com eles aprendi a superar os meus limites axiológicos. A sua extrema generosidade moldou-me no melhor de mim. Com eles aprendi:


- A ultrapassar o meu orgulho genésico e a pedir desculpa.

- A abandonar a minha atávica homofobia.

- A rejeitar o meu racismo inconsequente.

- A moderar o meu fundamentalismo antirreligioso.

- A reconhecer que nem sempre tenho razão.

- A ser tolerante para as falhas alheias.

- A ter consciência que cada ser humano tem o seu ritmo próprio que deve ser respeitado.

- A assumir a autocrítica como motor de transformação, como ato de higiene mental que nos livra dos pecados da autossuficiência. 


As acontecências da vida transformaram-me num lobo solitário. Fiz muitos trajetos sem âncoras ou apoios no mar encapelado das minhas insuficiências. Mas, tenho de reconhecer, que muitos dos mais ricos trajetos existenciais que tive oportunidade de viver tiveram a companhia dos outros. Os meus companheiros de caminho permitiram-me ser mais, permitiram-me os excessos de mim que me deram sentido à vida.


Fui um professor de educação física, fui um professor de desporto. Fui professor e treinador e em ambos elevei a imperativo categórico o treino. O treino recria o homem, cria em cada dia um homem novo. O treino visa a consecução de um corpo extragenético, mas com profundo comando dos genes matriciais. Só desenvolvo o que tenho em capital biológico ou de vontade. De igual forma, o treino, visa um homem-extra-vontade para lá dos limites da sua vontade habitual. Um homem extra-psíquico e extra-emocional por sobre os limites do seu psiquismo e da sua emoção.  Superior mobilização da vontade; consecução de um superior nível de conhecimento. O treino conduz o Homem ao excesso de si, fora dos limites da sua normalidade.


Foi esse desafio que assumi como professor e que penso, umas vezes melhor, outras pior, consegui humildemente realizar. Penso que fui motor de transformação e nesse desiderato mudei profundamente sem nunca perder a identidade.


A missão de todo o mestre é ser ultrapassado pelos alunos; eu fui-o muitas vezes e por isso sinto a grata satisfação de dever cumprido.


Estou grato à vida por ter consegui ser professor; se tenho alguma grandeza, ela consiste na imensa gratidão a todos os que me fizeram crescer.


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