Teilhard de Chardin: a Ciência, a Filosofia, a Teologia…(artigo de Manuel Sérgio, 244)

Espaço Universidade 04-06-2018 23:51
Por Manuel Sérgio

O Padre Teilhard de Chardin, que uma oligarquia da mediocridade conseguiu expulsar da vida universitária, na Europa (Teilhard de Chardin faleceu, no dia de Páscoa de 1955, em Nova Iorque) é um dos que, hoje, mais se destaca, entre os autores que me aproximam, com inesperada pujança crítica, do cristianismo. Nasceu, em 1 de Maio de 1881, em Puy-de-Dôme (França) e, aos 18 anos, já na Companhia de Jesus, decidiu especializar-se em Biologia e Paleontologia. Cumprido o serviço militar, durante a Primeira Grande Guerra, onde deu provas de extraordinária laboriosidade e coragem, defendeu a sua tese de doutoramento em Biologia, sendo nomeado, de imediato, professor de Biologia, no Instituto Católico de Paris. As suas aulas eram de tamanha erudição e de tão ampla visão prospetiva que alunos e meros ouvintes as ouviam com interesse, as discutiam com prazer e as analisavam com minúcia, o que irritou sobremaneira a esclerose dos integristas, o vácuo mental dos medíocres e a histeria dos invejosos. Enfim, foi tão barulhenta a chinfrineira que os seus “superiores”, alarmados com as notícias que o davam como um perigoso herético, o afastaram de Paris e o enviaram para a China. Doravante, passará a vida em expedições longínquas, intervaladas de rápidas visitas a Paris, que os seus “superiores” abreviavam sempre, com receio da difusão das suas ideias, que aliás já corriam, policopiadas, pelas mãos ávidas dos estudiosos, dos admiradores e dos antigos alunos. A Segunda Grande Guerra surpreendeu-o na China, onde ficou bloqueado até 1946, o ano em que os seus críticos começaram a “engolir” muitas das injúrias e dos despeitos, diante da monumentalidade dos aplausos que rodeavam Teilhard de Chardin, também distinguido, em 1947, com a promoção a Oficial da Legião de Honra. Mas, mesmo assim, os seus “superiores”, cega e teimosamente, obrigaram-no a recusar uma cátedra, no Colégio de França. E Teilhard de Chardin exilou-se nos USA…


                “Hoje, Teilhard de Chardin é uma grande figura do pensamento mundial. Do domínio do reservado ele passou ao domínio público e, mesmo, do grande público; de interdito ele passou a ser aceite, se não pela totalidade, ao menos pela maioria; de expressão estranha, a sua linguagem, através de algumas das suas expressões chave (planetização, socialização, personalização, centração, convergência, etc.) a sua linguagem tende a converter-se na linguagem de uma época. Existiu até um fenómeno sócio-cultural Teilhard a que nem os sociólogos, nem os historiadores das ideias e das mentalidades colectivas podem subtrair-se” (Manuel Antunes, Grandes Contemporâneos, Editorial Verbo, Lisboa, 1973, p. 93). Após, durante a sua vida física, ter sido varrido pela inclemência, desabrida e dura, da inveja e da incompreensão, ninguém, nos nossos dias, deixa de reconhecer a inteligência e o esforço de Teilhard de Chardin a encontrar sentido no destino do ser humano, por tantos entendido como absurdo. O Padre Teilhard, nascido de família religiosa e ordenado, por vocação, sacerdote católico, considerava-se, como cristão, “Filho de Deus” e, por natureza, “Filho da Terra”. Mas, para ele, a evolução é uma subida constante para o espírito. Há, de facto, momentos de descontinuidade, mas que não são obstáculos à continuidade do movimento ascensional. Desde a Litosfera (ou esfera mineral), passando pela Biosfera (ou esfera da vida) até à Noosfera (ou a esfera do psiquismo humano); desde o infinitamente pequeno (ou o domínio do Quântico), passando pelo infinitamente grande (ou o domínio da Relatividade) até ao infinitamente complexo, toda a sua obra pretende explicar a relação Matéria-Homem-Deus, a partir dos ditames da “lei de complexidade-consciência”.


 Esta lei assim pode resumir-se: quanto maior for a complexidade de um organismo, mais elevado será o grau de psiquismo que o anima e norteia, bem patente, no ser humano, no fenómeno da cefalização, ou cerebralização. Se não laboro em erro grave, Teilhard é um dos pioneiros (o primeiro deles?) a conceber uma génese do Homem e da Vida, através de dados científicos e da sua fé religiosa, no Filho de Deus, Jesus Cristo. Com efeito, a Noosfera, ao complexificar-se, supõe o espírito e anuncia Deus. Englobando, num só traço, em permanente cosmogénese, a matéria, a vida e o espírito, isto é, a quimiodiversidade, a biodiversidade e a humanidade, a evolução prossegue, porque se sabe irreversível, imortal, a caminho do Ponto Omega. No ímpeto matinal de todo o seu ser, o Homem tende irresistivelmente para o Ponto Omega, ou seja, para Deus. Com o advento da humanidade, o social toma o lugar do biológico e a sociodiversidade substitui a biodiversidade e a teoria de Teilhard finda com um ato de fé num Ser Transcendente, Deus. Portanto, neste paleontólogo, o ser humano é um ser natural, pode e deve ser  objeto de análise científica mas, nele, a matéria destila espírito, ou seja, em cada grão de matéria germina uma energia espiritual que o conduz ao termo Omega. Mas, se a evolução, em Teilhard, termina com um ato de fé, não deixa, nesse momento, de ser científica? Convém notar que, para Teilhard, a fé no Ponto Omega não sofre de irracionalidade porque é simplesmente transracional, do domínio da intuição, ou seja, para lá da razão, sem a dispensar ou negar. A matéria é una na cosmodiversidade; a vida é una na biodiversidade; a humanidade é una na sociodiversidade. E, por fim, todos seremos um, no Ponto Omega, como Corpo Místico de Cristo. Uma “fenomenologia” onde cabem perfeitamente a Razão e a Fé…


Ocorre-me, neste passo, a reflexão de Galileo (1564-1642): “A filosofia está escrita nesse grande livro que se encontra constantemente aberto diante dos olhos (refiro-me ao Universo), mas ela não pode ser apreendida se, primeiro, não apreendermos a sua língua e se ignoramos até os carateres em que se encontra escrita. Esta filosofia está escrita em língua matemática. Os seus carateres são os triângulos, os círculos e outras figuras geométricas, sem os quais é humanamente impossível apreender uma só palavra e sem os quais apenas se erra de forma vã, num obscuro labirinto”. Esta citação evidencia que, para Galileo, só a matemática nos pode oferecer uma descrição exata do real. Tanto ele, como afinal também Isaac Newton (1643-1727) não poderiam supor que um cientista, Ilya Prigogine, Prémio Nobel da Química, escrevesse, mais de três séculos depois: “O universo clássico, infinito pelas suas dimensões espaciais, não deixa de ser fechado, no sentido em que a evolução e a novidade estão dele excluídas e de que qualquer evolução deve idealmente ser reduzida ao modelo dos movimentos periódicos” (Entre o Tempo e a Eternidade, Gradiva, Lisboa, 1990, p. 206).


Antes de Ilya Prigogine, já Teilhard de Chardin tinha adiantado uma dialética da natureza, onde a vida é e não é matéria, porque é espírito, e é e não é espírito, porque é matéria. Figura poliédrica, não só pela diversidade de géneros que abrange, mas também pela variedade e natureza das implicações que envolve, Teilhard de Chardin tudo (desde a ciência à religião) nos oferece restaurado, redivivo, dizendo-nos que, com o surgimento da Noosfera, a evolução biológica cedeu o passo à evolução cultural, por outras palavras: tudo sobe para o espírito – que se organiza, em virtude da força da simpatia e do amor. Competição? Sim! Mas uma competição-diálogo, que não se compraz obstinadamente no ataque labrego e feroz que por aí se vê, no nosso futebol.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto      

  

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