A Olímpica Neovirgindade (artigo de Gustavo Pires, 87)

Espaço Universidade 03-06-2018 16:17
Por Gustavo Pires

Um País sedado com as disputas da bola foi surpreendido com os inacreditáveis acontecimentos do passado dia 15 de Maio quando um grupo de cerca de 50 adeptos (energúmenos) encapuzados invadiu a Academia do Sporting em Alcochete, tendo agredido jogadores e técnicos e provocado terror e destruição. De uma maneira geral, as mais altas individualidades do País, de acordo com a praxe, apressaram-se a manifestar um veemente repúdio para com aqueles atos de vandalismo criminoso, bem como a demostrar uma comovente solidariedade para com os jogadores e técnicos do clube. Ficou-lhes bem. E, como já é habitual, sempre que acontecem problemas no futebol, terminaram os discursos recordando o êxito que foi o Euro 2004 de futebol e o ofuscante título europeu conquistado em 2016 que, como se sabe, em matéria de propaganda política do regime, foram efemérides com impacto semelhante à acontecida em 11 de Março de 1945 quando Oliveira Salazar, no intervalo de um desafio de futebol Portugal x Espanha, mandou lançar, de uma avioneta, sobre o Estádio Nacional um panfleto intitulado “… o que nós queremos é futebol”. E, como “o que nós queremos é futebol”, o Sr. Primeiro-ministro, certamente inspirado na douta recomendação sugerida pelo presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP) no discurso que proferiu na Conferência sobre Violência no Desporto que aconteceu a 3 de Abril na Assembleia da República, apressou-se a anunciar o remédio para todos os males do desporto português através da constituição de uma Alta Autoridade para o Combate à Violência no Desporto. E, assim, veio à luz do dia mais uma máxima do tempo de Oliveira Salazar que nos diz que quando não se quer ou não se é capaz de resolver um problema cria-se uma comissão que, nestes tempos de pós-modernidade, passou a designar-se por “alta autoridade” que, aos ouvidos do basbaque, soa muito melhor.


O que de mais significativo resulta do vergonhoso caso acontecido na Academia de Alcochete é que a oligarquia político-desportiva nacional percebeu que é necessário que alguma coisa mude para que tudo possa continuar na mesma. Não é assim há dezenas de anos? Nestes termos, para se cumprir a máxima de Lampedusa, um bode expiatório vinha mesmo a calhar a fim de salvaguardar consciências, entreter as massas e penitenciar os pecados do futebol porque, o mundo das finanças que manda nos clubes percebeu que valores mais altos se começaram a levantar. E Bruno de Carvalho que, há muito, já se vinha a pôr a jeito, acabou por ficar ali mesmo à mão de semear. A partir de então, foi um “ver se t’ avias”. E, incrédulos, passámos a assistir a uma procissão de neovirgens que, até aos acontecimentos de Alcochete, nunca tinham visto nada, ouvido nada, denunciado nada, olimpicamente escandalizadas e sem a mínima vergonha a, publicamente, rasgarem as vestes da sua indignação relativamente a um dirigente que, à semelhança do que, tristemente, acontece aos treinadores de futebol, de um dia para o outro, passou de bestial a besta. Todavia, não têm sido poucos aqueles que, insistentemente e de há vários anos a esta parte, têm vindo a alertar para o facto de a Situação Desportiva nacional se encontrar numa perfeita lástima. A título de exemplo recordo só duas crónicas de Vítor Serpa publicadas no jornal que dirige: “A política desportiva do Governo é… bola” (2017-09-13) e “O desporto pelas ruas da amargura” (2017/09/16). Na realidade, não podia ser de outra maneira. Porque, a relação que a generalidade dos políticos, atualmente, tem com o desporto é do tipo infantojuvenil.


Entre as neovirgens que mais me emocionaram destaco aquela que, a 21 de Junho de 1975 (Sábado), como me recordaram Fonseca e Costa, José Carvalho e João Marreiros, à frente de um grupo de energúmenos maoistas, invadiu violentamente a pista de atletismo do Estádio Nacional impedindo o normal prosseguimento do Campeonato de Lisboa de Atletismo. Ao tempo, Moniz Pereira, numa crónica que intitulou de “Sábado Negro…” (cf. A Bola, 1975-06-23) lamentou profundamente aquele acontecimento. No dia seguinte, o campeonato teve de prosseguir na pista sintética do Estádio da Luz. Portanto, o hábito de, violentamente, invadir instalações desportivas já vem dos primórdios do 25 de Abril protagonizado por gente para quem a democracia não tinha, não tem e jamais terá qualquer significado. E os valores do desporto muito menos. Pelo que, hoje, é profundamente ridículo andarem por aí, de lágrimas nos olhos, a botar discurso contra a violência no desporto.


Não sejamos ingénuos. Os dirigentes desportivos não nasceram de geração espontânea. Eles, salvo as devidas exceções, são o produto acabado de um sistema a funcionar em “roda livre” que, numa lógica economicista, sem princípios e sem valores, tomou conta do desporto. Eles estão é preocupados com o “dress code” da cosmética política em prejuízo de quaisquer Políticas Públicas integradas e consistentes que, realmente, promovam o Nível Desportivo do País. Parafraseando Vinícius de Moraes, eles foram levados ao “alto da construção” pelos detentores do poder real e, numa carência profundamente atávica, não resistiram ao usufruto da satisfação de todas as mordomias que lhes eram oferecidas. Mas quando todas aquelas regalias lhes sobem à cabeça e entram em confronto com os deuses do dinheiro vivo que, realmente, mandam no desporto nacional, caem em desgraça e são condenados ao ostracismo porque o espetáculo tem de continuar. Hoje, Bruno de Carvalho, por pecados próprios, sabe bem o que isto significa.


A oligarquia que manda no desporto para além de ser a causa de tudo o que se está a passar é, também, a consequência de uma cultura desportiva em que a generalidade dos portugueses, das mais diversas classes sociais, vive completamente alienada pelo ambiente da clubite esquizofrénica que anima a generalidade dos espetáculos desportivos. A este propósito, José Miguel Júdice escrevia no “Eco.pt” (2018-05-2018): “Um grande político e ainda maior advogado (a quem chamaram “o príncipe da democracia”) não corou de vergonha quando disse em relação a uma situação de alegada corrupção, ‘se o dinheiro é para a Académica, não é crime’”. Ora, se deduzirmos quem foi o “príncipe da democracia” que proferiu tal sentença não nos podemos admirar pelo estado lastimoso a que o desporto chegou em Portugal. Quer se goste quer não, esta é a verdadeira realidade. Trata-se de uma cultura de permissividade e condescendência, espécie de “prisão psíquica” clubística que, profusamente, vemos nas televisões, nos jornais e na net. Ela foi, há mais de dez anos, bem exemplificada por Leonor Pinhão numa crónica publicada no jornal A Bola (2006-09-15). Contava a jornalista que, nos anos oitenta, viveu uma situação em que o chefe de redação do jornal (na melhor das intenções e à margem de qualquer interesse pessoal) recusou autorizar uma reportagem sobre um gravíssimo caso de corrupção com o exclusivo propósito de proteger a dignidade e o bom nome do futebol.


Esta cultura que passa por proteger o bom nome da “família do desporto”, tem aberto as portas a muitos “passarões” que, hoje, armados em neovirgens, em alternativa a uma forte educação desportiva e consequente cultura desportiva, desejam colocar o desporto a “ferro e fogo” com mais leis, mais controlo, mais polícias, mais acusações, mais tribunais, mais julgamentos e mais condenações. Trata-se de uma perspetiva fascistoide, da qual muitos dirigentes ainda não se libertaram, que caracterizava a organização do desporto antes do 25 de Abril. Ontem, tal como hoje, suas excelências gostam das alegrias da bola mas não gostam de ser incomodadas. A violência não se combate com mais violência. No desporto, a violência combate-se, fundamentalmente, com mais educação e mais cultura. Por isso, em alternativa ao discurso da coerção judiciária, de acordo com a Carta Olímpica, é a defesa da educação e da cultura no processo de desenvolvimento do desporto que esperamos ouvir nos discursos dos dirigentes desportivos.


O problema do desporto nacional é que as neovirgens que, agora, lançam lancinantes gritos de indignação não são nem melhores nem piores do que a generalidade dos dirigentes desportivos que desejam ostracizar. Elas são, tão só, uma das consequências do estado de hipocrisia política a que o País chegou. Especialistas em “portas giratórias” têm ocupado as mais diversas situações político-administrativas, muitas vezes em regime de acumulação, sem que, verdadeiramente, alguma vez, se tenham interessado por resolver o que quer que seja a não ser questões relativas aos seus próprios interesses. No seu oportunismo, elas são tanto as causas como as consequências do lastimoso estado em que o desporto se encontra.


Por isso, seria extraordinário que a resolução dos problemas de um clube estivesse só na demissão de um dirigente. Se assim fosse, era só correr com ele. Infelizmente, regra geral, os problemas estão tanto nas lideranças vigentes quanto naqueles que as desejam substituir. São problemas sistémicos e endémicos que ultrapassam as próprias organizações já que têm sobretudo a ver com a desorganização e falta de orientação política, do ensino ao alto rendimento, do Sistema Desportivo.


Entretanto, com Bruno ou sem Bruno, como é habitual, o País está prestes a voltar à natural letargia da cultura de rebanho que o caracteriza. Quer dizer, vai entrar em modo seleção nacional pelo que os portugueses já estão a ser objeto de mais uma lavagem ao cérebro através da promoção da seleção nacional de futebol e do Campeonato Mundial da FIFA (2018) que decorrerá na Rússia de 14 de Junho a 15 de Julho.


E, ainda bem porque, de facto, aquilo que os portugueses mais querem é bola. E, como arguiu Vítor Serpa, o Governo dá-lhes.


Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana

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