Augusto Baganha: uma revolução moral (artigo de Manuel Sérgio, 242)

Espaço Universidade 00:23
Por Manuel Sérgio

Augusto Fontes Baganha (mais conhecido por Augusto Baganha) atual presidente do Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), nasceu em Coimbra, em 4 de Janeiro de 1951. Em 1975, ainda na Lusa Atenas, licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Faculdade de Ciências e, em 1999, completou o mestrado, em Gestão do Desporto, pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa. Como reforço dos conhecimentos, participou em 30 ações de formação, sendo de salientar as que se referem às áreas da gestão do desporto, da gestão da administração pública e da gestão orçamental pública. Foi um  dos mais completos basquetebolistas da sua geração. Era um praticante de destra pontaria e de uma superior cultura tática. Perfila-se, na história do basquetebol português, ao lado dos atletas de indiscutível grandeza. Vestiu 116 vezes o equipamento próprio da seleção nacional. E ainda treinou, no Clube Atlético de Queluz, os juniores e os seniores. Por fim, ao findar da década de 80, assumiu as funções, no Sporting Clube de Portugal, de diretor responsável, pela coordenação da atividade das modalidades de andebol, de atletismo, de basquetebol, de hóquei em patins. Vi-o jogar muitas vezes e transmitia ao gesto desportivo aquela beleza que é sinal de talento, numa palavra só: de classe! Por isso, hoje, quando fala de desporto, poda as palavras com o rigor de quem sabe do que fala. No entanto, a sua informação exaustiva, a sua destreza de raciocínio, o seu poder de penetração psicológica radicam numa longa experiência, que não teme cotejo, na direção e gestão do desporto. Exímio praticante de uma conhecida modalidade desportiva, não é menos exímio no conhecimento que tem da gestão do desporto nacional e, acrescento sem receio, do desporto na “sociedade pós-capitalista” ou, na “sociedade do conhecimento”.


De facto, no tempo em que vivemos, o recurso económico básico  deixou de ser o capital, ou o trabalho, ou os recursos naturais – o recurso económico básico é o conhecimento! Ficou célebre a fórmula de Nietzsche: “Não existem factos, apenas interpretações”. Não existem factos, apenas o que me permite perceber, principalmente, a minha história de vida. Lêem-se os pareceres do Dr. Augusto Baganha, escutam-se os seus discursos e cresce em nós a sensação que tudo o que faz, tudo o que diz constituem documentos de um desportista de admirável formação, de conhecimento original e seguro. Sem a dialética do jurista? Sem o economicismo do banqueiro, ou do homem de negócios? Sem a mentalidade dogmática dos grandes chefes políticos? Sem a verborreia dos oportunistas?... Mas com a mentalidade dos matemáticos: mentalidade silogística, precisa, lógica. E tão clara, tão retilínea que dispensa os lugares de relevo, nos “media” e nas redes sociais. Para ele, 2+2=4 e não lhe venham explicar, com uma hipertrofia pretensamente crítica, o que a matemática já concluiu. O Dr. Augusto Baganha, pelo rigor do seu método matemático e porque domina os temas que exigem a sua atenção, não diz o mesmo muitas vezes, não é pessoa para dar muitas respostas, mas para selecionar e discutir tão-só as principais ideias. Aliás, quem fala demais é porque não tem nada para dizer. Creio que foi o Nietzsche que declarou que quem perde demasiado tempo a contar e a realçar aquilo que fez é porque, de facto, não fez grande coisa! Deste pecado de mediocridade ninguém pode acusá-lo: o presidente do IPDJ segue o modelo socrático (refiro-me ao Sócrates de Platão, o Sócrates do processo maiêutico) e não o modelo campanudo dos sofistas. Para o Dr. Augusto Baganha, as palavras são meios, não são fins…


Integrou com o Prof. Pedro Nolasco, com o Prof. Gustavo Pires, com um médico fisiatra (o Dr. Lourenço) e comigo um gabinete de estudos, na Direção-Geral dos Desportos. Nesta mesma Direção-Geral, foi Chefe de Divisão do Desporto Federado, foi Chefe de Divisão de Apoio às Atividades Desportivas, foi Vice-Presidente do ex-Instituto do Desporto, foi adjunto e chefe do gabinete de vários Secretários de Estado, foi Presidente do ex-Instituto do Desporto de Portugal, foi Secretário Executivo da Conferência de Ministros Responsáveis pela Juventude e pelo Desporto da CPLP. Foi Presidente do Comité Organizador dos VIII Jogos Desportivos da CPLP, foi Membro do Conselho Nacional do Desporto e é Presidente do Conselho Diretivo do  Instituto Português do Desporto e da Juventude. Manifestando, sem exibicionismos, as mais altas virtudes cívicas e desportivas, mais do que a lição do que já fez e fará, vai legar a quem lhe suceder o exemplo da sua vida. Toda a experiência que guardou da sua juventude e de praticante de um desporto altamente competitivo; os seus primeiros anos de técnico superior da Direção-Geral dos Desportos e os que leva de alto dirigente, na Administração Pública – em tudo, muito aprendeu e muito quis aprender. A Sociedade do Conhecimento ensina, acima de tudo, a aprender, ensina-nos ao conhecimento e reconhecimento mútuos. Nos anos já distantes em que trabalhei ao seu lado e sempre que podemos conversar com alguma demora, torna-se evidente que, em Augusto Baganha, a sua vontade de aprender mais, de saber mais, de ser mais permanece intacta e ebuliente. De “ser mais”? Assim é, de facto, porque à concretização de um sonho ele se entrega, com diligência e denodo, com razões da razão e razões do coração: é preciso repensar a ética desportiva, no desporto nacional!


José María Cagigal, diretor do INEF de Madrid e um intelectual isento do pecado da mediocridade, respondeu-me assim a uma pergunta insistente: “Ao desporto, tanto em Portugal, como em Espanha, falta mais teoria do que prática”. E continuou: “A prática resolve-se com vontade política. Mas aos nossos países falta a teoria que é indispensável ao desenvolvimento. Nos nossos países, no desporto, há mais voluntarismo do que lucidez”. Esta minha conversa, que tem mais de 40 anos, com um mestre que foi um sangue novo, na teorização do desporto, na Europa, ganhou novo alento, quando li, anos depois, o livro do neurologista e psiquiatra, Boris Cyrulnik, L’homme, la science et la société (Éditions de l’Aube, Paris, 2000, p. 52): “O facto de ser médico neurologista e com muitos anos de investigação, na área da biologia, permite-me dizer que a condição humana é, em primeiro lugar, biológica, mas é como cultura que pode resolver os seus problemas, os mais complexos e os  mais instantes”. Eu já me empolgara, anos antes, com  o livro clássico de Arnold Gehlen, El Hombre (tradução e edição das Ediciones Sígueme, de Salamanca): “El hombre es un campo de investigación, en el que aun hoy día puede observarse un número indeterminado de fenómenos antes nunca vistos y a los que todavia no se há dado nombre” (p. 11). Porque o homem é tanto (ou mais) qualidade invisível do que quantidade visível; porque a ética é pessoal, antes de tudo, e reflete portanto as nossas crenças, os nossos hábitos, os nossos projetos de vida - Augusto Baganha sabe que a ética desportiva surge sempre como reflexo da pessoa que o desportista é. E deixou-me portanto este desabafo: “O nosso desporto precisa de uma urgente e visível reforma ética. E não sei se a reforma ética, em que me encontro empenhado, com o apoio inestimável do PNED, não é, quase sempre, subalternizada pelo sensacionalismo de mentiras solenes, pelo ruído delirante de certas notícias e pelo vedetismo de alguns atletas e dirigentes”…


Deflagram casos sucessivos, na alta competição desportiva nacional, manifestando que uma oligarquia da mediocridade a manipula, a dirige, a corrompe. Ninguém, de sólida formação moral (como o Dr. Augusto Baganha), deseja um síncrono afã de “caça às bruxas”. Aliás, relembro o que já, há um bom par de anos, aprendi em Bergson: “o real é demasiado rico, para poder ser conhecido e previsto, com exatidão”. Mas, se com o 25 de Abril se procedeu a uma revolução política e a uma revolução económica e a uma revolução cultural, há necessidade de uma revolução moral, para que uma caravana de malefícios não se perpetue, no nosso país, já que continua ainda por aí acampada.  E Augusto Baganha alerta, com emoção: “Falta-nos uma revolução moral. De que Portugal necessita, incluindo o nosso desporto, para que seja possível criar-se um consenso, entre pessoas de boa vontade. Sem ela, as outras revoluções não se concretizam”. E, sem disfarce, acentuou: “Não nos falta conhecimento científico. Mas falta-nos ética, por vezes. Na nossa democracia, as indecisões, as mistificações, as confusões, tão intensamente vividas pelos portugueses de todos os quadrantes ideológicos, são demasiadas vezes de ordem ética”. E, depois de um gesto mudo de desagrado, aduziu: “Fiz desporto altamente competitivo, durante tantos anos; joguei com tantos desportistas de irrepreensível conduta - que me dói, como uma dor física, que haja casos de violência, como o que se passou na Academia de Alcochete, e suspeitas de corrupção, no nosso desporto. Apetece-me dizer:  O desporto não merece esta conexão com a corrupção e a violência”. É verdade que Virgílio quis destruir a “Eneida” e Cervantes por pouco não queimou o “Dom Quixote”, mas os motivos eram outros. Erradicar a violência e a corrupção de um espetáculo desportivo, onde os seus melhores intérpretes auferem milhões e milhões de euros, onde o dinheiro salta, em catadupas, é um sonho difícil. Mas saudemos este anúncio, esta promessa de um desportista, como o Dr. Augusto Baganha: é que ele entende, como uma missão a cumprir, a luta em prol de uma revolução moral, no futebol e no desporto nacionais. Saudemos portanto o Presidente do IPDJ.


Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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Os treinadores portugueses no futebol internacional (artigo de Manuel Sérgio, 107)
23:13  -  29-09-2015
João Paulo S. Medina: - o “intelectual” do futebol brasileiro (artigo de Manuel Sérgio, 106)
00:04  -  23-09-2015
O último Porto-Benfica ou da biologia à cultura (artigo de Manuel Sérgio, 105)
18:11  -  15-09-2015
“Quem somos nós?” - a resposta do Desporto (artigo de Manuel Sérgio, 104)
18:20  -  08-09-2015
Joel Rocha – o “Mourinho” do futsal (artigo de Manuel Sérgio, 103)
18:35  -  02-09-2015
A História de Sísifo (artigo de Manuel Sérgio, 102)
17:34  -  28-08-2015
O mais relevante nem sempre é o mais mensurável (artigo de Manuel Sérgio, 101)
17:55  -  14-08-2015
Jorge Jesus: - o sublime iletrado! (artigo de Manuel Sérgio, 99)
18:54  -  07-08-2015
O que em mim sente está pensando (artigo de Manuel Sérgio, 98)
16:55  -  31-07-2015
A Cultura do Clube (artigo de Manuel Sérgio, 97)
21:45  -  21-07-2015
Do Jogo ao Desporto em Bourdieu e... não só (artigo de Manuel Sérgio, 96)
23:57  -  16-07-2015
Carta a Eugénio Lisboa (artigo de Manuel Sérgio, 95)
00:32  -  10-07-2015
António Simões: - o irmão branco do Eusébio (artigo de Manuel Sérgio, 94)
17:31  -  04-07-2015
Jorge Jesus ou a homeostasia organizacional (artigo de Manuel Sérgio, 93)
23:50  -  15-06-2015
No Benfica: estrutura ou carisma? (artigo de Manuel Sérgio, 90)
22:37  -  10-06-2015
Feyerabend e Ricardo Serrado no estudo de Lionel Messi (artigo de Manuel Sérgio, 89)
22:50  -  26-05-2015
Mais importante do que ter sucesso é ter valor! (artigo de Manuel Sérgio, 86)
00:30  -  23-05-2015
José Mourinho ou as razões da sua diferença (artigo de Manuel Sérgio, 85)
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É preciso, imperioso e urgente a continuação de J.J., no Benfica (artigo de Manuel Sérgio, 84)
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Roberto Carneiro: retrato de um ministro que eu conheci (artigo de Manuel Sérgio, 83)
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O empréstimo de jogadores é compatível com a ética? (artigo de Manuel Sérgio, 82)
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José Mourinho: por que será?... (artigo de Manuel Sérgio, 81)
17:17  -  14-04-2015
O Progresso Desportivo: - o que é isso? (artigo de Manuel Sérgio, 80)
19:15  -  07-04-2015
Mourinho escreve prefácio de livro de Manuel Sérgio, «O Futebol e Eu»
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O jornal “ A Bola” - desporto e humanismo (artigo de Manuel Sérgio, 79)
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Jorge Carlos Fonseca: o Presidente da República que é poeta (artigo de Manuel Sérgio, 78)
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Qual o fundamento radical na arbitragem? (artigo de Manuel Sérgio, 77)
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A Gestão do Desporto, segundo Gustavo Pires (artigo de Manuel Sérgio, 76)
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O Futebol é Anamnese... mesmo com Luís Figo? (artigo de Manuel Sérgio, 75)
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Ao Povo-Irmão de Cabo Verde (artigo de Manuel Sérgio, 74)
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“Cândido de Oliveira” - um livro inesquecível de Homero Serpa (artigo de Manuel Sérgio, 73)
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Só com os mesmos valores o diálogo é possível (artigo de Manuel Sérgio, 72)
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“A Bola”: uma práxis que é preciso manter (artigo de Manuel Sérgio, 70)
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Manuel Alegre: - um semeador de poesia (artigo de Manuel Sérgio, 69)
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Libertar o Direito e o Desporto ou um ensaio do Prof. Paulo Cunha (artigo de Manuel Sérgio, 68)
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O Desporto tem violência: - não é violento! (artigo de Manuel Sérgio, artigo 66)
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A “Arte da Guerra” no treinador Rui Vitória (artigo de Manuel Sérgio, 65)
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José Maria Pedroto: o conhecimento... (artigo de Manuel Sérgio, 64)
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A grande revolução de Jesus na Vida e... no Desporto! (artigo de Manuel Sérgio, 62)
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História e Filosofia das Ciências, no Desporto e... no Benfica! (artigo de Manuel Sérgio, 61)
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Desporto e Desenvolvimento ou um livro de Gustavo Pires (artigo de Manuel Sérgio, 59)
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Nossos contemporâneos (artigo de Manuel Sérgio, 58)
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Da Desconfiança à Solidariedade em Pinto da Costa e Filipe Vieira (artigo de Manuel Sérgio, 57)
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“Francisco de Assis e Franscisco de Roma” - mais um livro de Leonardo Boff (artigo Manuel Sérgio, 38)
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A Literatura e o Desporto: a propósito de Sophia (artigo Manuel Sérgio, 34)
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A grande revolução de Jesus ou o mundo que o desporto não tem (artigo Manuel Sérgio, 26)
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O 25 de Abril e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio, 25)
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