Os velhos e o desporto (artigo José Augusto Santos, 9)

Espaço Universidade 13-03-2018 14:54
Por Redação
Velhos são os trapos diz o povo, mas sinto-me mesmo velho. As juntas não me dão sossego. Dói-me principalmente a do joelho esquerdo que torci há anos num jogo de bola entre solteiros e casados. Naquela altura ainda era casado e vivia na paz do Senhor com a minha saudosa Maria, agora divido a minha jornada entre o lar e a faculdade da educação física e do desporto e à noite lá vou até casa da minha filha que me dá a janta e a cama quentinha. Também malfeito fora, pois se ela é alguém na vida a mim o deve que trabalhei como um mouro para ela tirar o curso de professora primária. Trabalhei tantas noites, até às tantas, para lhe poder pagar os estudos pois o meu ordenado de fiel de armazém dava só para o essencial.

Já vou nos 78 anos e, tirando umas maleitas sazonais, não me posso queixar da saúde. Há uns tempos, apareceu no lar de dia uma professora de ginástica que trabalha na tal faculdade a convidar todo o pessoal do lar para entrar voluntariamente num programa para a terceira idade. Muitos não foram porque gostam mais de passar o tempo na má-língua, a ler ou fazer bordado e a ver televisão que consomem como uma droga alucinogénia que lhes preenche as manhãs e tardes e os transportam do riso ao choro, da raiva ao contentamento, da partilha à rejeição. Cá para nós que ninguém nos ouve, os meus parceiros do lar já eram velhos no intelecto antes de o serem na idade. Dizem não ao telejornal das 8 da noite porque é só desgraças; rejeitam os filmes porque a maioria sacraliza a violência, mas ingurgitam-se de telenovelas e big brothers, demitindo-se do ato de refletir e assumir que a violência e a desgraça são feitas pelo mundo e que perceber o mundo é percebermo-nos a nós. Como fui pouco formado nas coisas da cultura hoje bebo-a como um néctar precioso e, tirando os dias de futebol em que aí vou a todas, estabeleci um pacto de fidelidade com o Canal 2 que me faz acreditar que existe um mundo mais válido que as lamechices telenovelescas. Deito-me cedo, normalmente depois do telejornal das 22h00 do canal 2.

Eu gosto de me deitar cedo para cedo me levantar porque é muito bom estar mais tempo sem fazer nada, para compensar o tanto que trabalhei toda a vida. Agora o levantar cedo já tem outra finalidade – ir fazer ginástica para a faculdade. Somos muitos e, logo de manhã, encontramo-nos no bar para acedermos às novidades. Eu cá por mim frequento a faculdade mais para conviver com as pequenas da minha idade que também lá andam, por sinal bem jeitosas, do que pela canseira da ginástica que pouco me interessa. Eu ando lá mais para fazer o favor à professora que foi ao lar convidar-nos, por sinal de extrema simpatia, que pelo desejo de fazer ginástica e aquela marcha muito direita que nos põem a fazer. Direitinho ando eu na rua que foi sempre coisa que me preocupou pois a espinhela direita não só nos faz parecer mais altos como nos dá um ar de valentão com coragem para olhar a vida de frente. Vivi, tempos largos, com acentuada curva dorsal de medo e subserviência, mas agora, depois do 25 é andar direito e fé no futuro.

As senhoras professoras tratam de nós com todo o carinho; medem-nos, tomam-nos o pulso, metem-nos em máquinas, dão-nos conselhos, enfim, nunca me senti tão importante, sou o centro das atenções das professoras e de umas meninas mais novas que não devem ser professoras, serão talvez alunas, mas também muito atenciosas. A faculdade é muito linda e espaçosa. Nas manhãs, nos dias em que não há aulas, é só para nós. Sentimo-nos os donos de todo aquele espaço. Talvez as professoras, se quisessem, poderiam fazer o mesmo trabalho que fazem connosco, com os meus netinhos que bem precisam pois lá na escola onde andam fazem uma ginástica assim para o bruto e muitas vezes aparecem magoados em casa pois a escola não tem condições nenhumas; fazem ginástica numa espécie de barracão ou no recreio ao ar livre que não tem também grandes condições. Além disso a professora primária, por mais que se esforce, não tem obrigação de saber muito sobre educação física e o espaço exíguo que tem para fazer a ginástica possível com os miúdos também não augurará grandes resultados. A faculdade onde ando é que deveria pegar nos miúdos da escola primária e fazer com eles os mesmos números que fazem connosco que eu penso que teriam mais validade pedagógica e importância social. Mas pronto, as senhoras professoras querem-nos a nós. Elas avaliam-nos tudo procurando não sei o quê, talvez a alma, mas essa está mais funda e não é possível de medir com aqueles aparelhos. Li há dias num livro muito bom, a leitura é um dos meus passatempos preferidos, que “as portas da emoção só se abrem por dentro”, o que deve querer significar que todos os investimentos que fazemos na vida, mesmo a ginástica, para terem significado devem tocar-nos a fímbrias da emoção, da inteligência e da sensibilidade.

Nas aulas de ginástica, em alguns exercícios, as minhas colegas queixam-se com dores tentando fugir à dureza do exercício. As professoras caem no logro e param logo de exigir a realização dos exercícios mais difíceis e custosos. Não estou de acordo. Se o desporto nos deve tocar a emoção também nos deve exigir a superação, mesmo com alguma dor. Já dizia o filósofo Schopenhauer que o sofrimento é o cavalo que nos leva mais rapidamente à perfeição. Não sei se é uma verdade absoluta pois sofrimento em demasia provoca feridas profundas difíceis de curar e tornam-nos a alma menos flexível com as cicatrizes decorrentes; para dureza, na nossa idade, já chega a rigidez das articulações. Mas um pouco de dor nas aulas de educação física não faz mal a ninguém já que essa dor nos liberta das limitações impostas pela nossa motricidade anquilosada por tantos anos de hipocinésia.

Todos os dias somos medidos, remedidos e adestrados para que as coisas aconteçam como eles e elas querem. Umas voltas à pista, ou a espaços que fazem as vezes da pista se estiver a chover, e eis-nos mais capacitados aerobicamente o que se reflecte em respirações mais profundas e menos cansaço nas pernas. Eu, pouca melhoria sinto, pois, por minha própria iniciativa, todos os dias marcho mais de uma hora; em alguns dos trajectos subo ruas bem íngremes e, portanto, já sou aquilo que se pode considerar um atleta. Sim, sinto-me um atleta, pois com esta idade ainda faço ver a muitos jovens que passam o dia frente ao computador e estão gordos como leitões pré-açougue.

A faculdade investe em nós com carinho humano indesmentível e um sentido de missão assente na conceção de que os idosos merecem qualidade de vida. Lá isso merecemos, quase todos. Eles cientificam o nosso ser e fazer para mostrar ao mundo as nossas maleitas, para descobrir os limites da nossa treinabilidade, para provar que investir na educação física e desportiva é um meio de senão erradicar pelo menos atenuar a doença e a incapacidade. No entanto, penso que deveriam investir mais nas crianças e jovens. Ninguém pega nas crianças naquela faculdade. Em nós sim porque somos aquilo que eles denominam amostras fáceis. Amostras? Faz-me lembrar aquelas tiras pequenas de fazenda que me mostra o alfaiate para selecionar o tecido para o fato. Eu cá não quero ser amostra; quero ser um produto acabado, pleno daquela inteireza inquebrantável que faz cada um ser um. Eles, por muito que tentem, não me conseguem avaliar na realidade, mas julgam que sim. Primeiro porque existe uma impossibilidade prática de medir com precisão absoluta, depois, porque avaliando-me com as limitações referidas, na realidade eles não conseguem estabelecer teorias claras acerca de mim porque eu estou sempre a mudar, não nos valores, mas na forma como a vida me molda e como eu torço a vida.
É fácil fazer estudos connosco e com os ratos também. Estes então ainda estão mais disponíveis, replicados como clones e certinhos como relógios suíços. Velhos e ratos, amostras fáceis. Estes por condição genética, aqueles por predisposição social. Nós, os velhos, estamos disponíveis porque temos muito tempo para fazer nada. Como temos todo o tempo do mundo, eles chamam-nos um figo, e escalpelizam-nos o corpo procurando encontrar as direções da vida, o seu sentido evolutivo que no nosso caso é mais degenerativo. Só que eles não sabem que quanto mais envelheço no corpo mais profundo e evoluído me sinto na alma.

Se eu procurasse um sentido de realização existencial através do desporto e da educação física tenderia a suicidar-me rapidamente pois os limites da minha fisicidade não permitem voos libertadores. Estes, encontro-os nas memórias que vou escrevendo e na arte dos outros. Música, cinema, teatro, leitura são as vitualhas da alma nesta fase final da minha vida. Aí, mais de que andar às voltas numa pista, encontro o alimento para a fome insaciável que me aflige e que criei nos tempos em que tinha de me levantar às seis da manhã para jornadas inclementes de trabalho. Tempo de dificuldade e míngua de cultura que vinha do berço pois nunca vi um livro entrar em minha casa. É fácil ser culto quando se nasce num lar repleto de livros e conversas evoluídas. É tarefa hercúlea ser culto quando se nasce no meio de tojos, cardos e fome. Hoje sinto a falta dos livros que não li. Tento agora recuperar. Esta coisa da cultura, ao contrário do desporto, não tem hora marcada. No desporto, ou começamos cedo, ou tarde já pode ser tarde. Hoje não posso encontrar sentido para a vida através do desporto porque não tenho raízes que me prendam a ele. Não por minha culpa, mas porque assim aconteceu.

Hoje sou amostra para a ciência. Mas que ciência se pode fazer com as cartilagens gastas, os ossos fracos e o corpo anquilosado. Este, pede-me mais sofá que desporto, embora o desporto seja uma boa forma de tornar o sofá mais agradável. A qualidade de vida na velhice prepara-se na juventude e não quando o corpo pede descanso. Porquê assim? Porque o desporto não é uma coisa meramente física, antes pelo contrário, está completamente penetrado por valores, entre os quais se salientam os valores de entrega a projectos de realização humana total. Como eu invejo aqueles velhos, alguns mais velhos do que eu, que sempre foram desportivamente ativos e continuam, depois dos 80 anos, a ir a Fátima de bicicleta ou a fazer os caminhos de Santiago com uma mochila às costas. Eu, como cheguei tarde a estas coisas só dá para fazer os números da faculdade e a marcha regular diária que faço, faça sol ou chuva.

Para azar meu saí cedo da escola porque as urgências da vida não davam para educações prolongadas. A educação física que tive, tive-a no armazém, com os fardos às costas porque as máquinas carregadoras chegaram muito tarde. Assim, em vez de educar o corpo deseduquei-o, pois, apesar de ter sido sempre forte não raras vezes fui ao endireita para resolver problemas nos ossos e articulações. Hoje há ergonomias que estudam o movimento humano no trabalho quando, de físico, o trabalho actual tem pouco. Ergonomias, precisava eu no meu tempo para me proteger contra as cargas excessivas que levantava. Não tive educação física na escola primária porque mesmo para a secundária as coisas eram difíceis. Ainda me lembro que os professores de ginástica daquele tempo eram médicos, militares e até um estudante de engenharia de minas foi professor de educação física na escola secundária da minha terra.

Depois não havia controlo algum sobre o ato de ensinar. A inspeção de ensino não funcionava e reinava a impudícia e bandalheira no reino da docência e principalmente no ensino das coisas do corpo em acção e movimento. Depois os colegas demitiam-se do ato de denúncia. Tempos de demissão aqueles, em que o sentido de responsabilidade era substituído pelo medo atávico de fazer ondas, evitando pôr em causa os bandalhos da coisa pública. Naquele tempo, um professor que foi colocado na escola secundária era simultaneamente o treinador da equipa de futebol. Pois bem, através de algumas prendas ao contínuo das instalações desportivas, na segunda-feira assinava as aulas todas da semana e ia à sua vidinha para as futebolices. O contínuo, bem afinado pelo diapasão da rebaldaria, dava a bola às turmas do referido professor e a aula acontecia, como soía dizer-se nas pseudo-pedagogias da demissão. A aula acontecia através do livre arbítrio dos alunos, aqueles que aderiam à denominada “pílula inócua da pedagogia libertária”, vulgo futebol, e que correspondia a metade da turma. A outra metade ia para o café jogar bilhar e puxar umas fumaças.

Mas voltemos à minha saga desportiva na faculdade. Sinto-me um pouco como aquelas embalagens de usar e deitar fora. Andamos nestas aventuras das medições e exercício e depois descartam-nos como materiais recicláveis. Reconheço que tem de ser assim senão a faculdade transformava-se num lar imenso da terceira idade. Ao menos os ratos ocupam menos espaço e são mais dóceis e obedientes aos comandos. Por falar em ratos, há uma dúvida que me remexe nas meninges. Será que as investigações que se fazem nos ratos se podem extrapolar para os humanos? Será que os estímulos que agridem a mitocôndria ratóide agridem de igual forma a mitocôndria do homem? Eis um conundrum que não consigo resolver. Mas uma coisa eu tenho como certeza adquirida, a dificuldade de investigar no rato as qualidades bioquímicas, imunológicas, fisiológicas e motoras que expressam as competências para subir montanhas, descer rios, marcar golos e bater recordes. Embora seja leigo nas matérias da ciência, tenho para mim que a excelência e os limites das várias performances humanas só podem ser compreendidos através de estudos com seres humanos. Só que estes, muitas vezes, não são amostras fáceis e disponíveis.

Ratos são ratos e homens são homens, embora haja muitos destes a viver na condição daqueles. Isso são contas de outro rosário que nos levam aos limites de inumanidade em que o homem perde a sua dimensão gregária e axiológica e se transforma em rato ou lobo (homo homini lupus). Há dias, num programa televisivo de divulgação científica a que usualmente assisto, falavam da validade ecológica da investigação científica. Diziam que se faz muita investigação que não tem grande valor porque é restrito o campo da sua aplicação. Investigar só por prazer. Mas se é por prazer que paguem as custas os investigadores e não o erário público. O problema é que se faz muita investigação sem validade ecológica. Falaram acerca da famosa talidomida, substância com efeito sedativo, anti-inflamatório e hipnótico que se receitou a mulheres grávidas para combater os enjoos e mal-estar geral. A droga tinha sido testada em ratos e os resultados eram promissores. Só que nas mulheres a coisa deu para o torto devido aos efeitos teratogénicos da droga que inactiva a enzima cereblon, importante nos primeiros meses de vida para a formação dos membros. Começaram a nascer bebés com más formações (focomielia) durante um tempo prolongado até se associar a droga ao problema.

Ao homem o que é do homem, ao rato o que é do rato. Se um dia se promoveram os Jogos Olímpicos da rataria, eu até aceito que se invista na investigação nesses animais no sentido de tentar que um rato português ganha a prova de corrida ao queijo, de preferência da Serra. Lá estou eu a brincar com coisas sérias. Peço desculpa aos meus eventuais leitores, mas tenho uma costela para o humor e o riso, embora seja no sorriso que mais preencho as coisas da alma. É lógico que gosto das aulas de ginástica que faço na faculdade, mas a parte física dessas aulas eu facilmente a substituo com as minhas caminhadas higiénicas; agora a parte da convivialidade é que é, para mim, importante. No convívio com os outros rio e brinco e sinto a vida mais repleta de significados. Na minha idade, fazer ginástica é o meio para atingir o fim; o fim são relações humanas saudáveis que anulem, ou pelo menos atenuam, a solidão que muitas vezes sinto. Não penso que as aulas me dêem uma pulmadura mais aeróbica e uns ossos mais rijos, penso que já é tarde para isso; dão-me, no entanto, a vontade de sair do casulo protector mas redutor do centro de dia e procurar âncoras relacionais que me permitam sentir mais vivo.

Nesta idade importa menos viver muito tempo e importa mais viver melhor. E melhor, é estabelecer laços de amizade com aquelas e aqueles meus coetâneos, e com eles partilhar as experiências individuais do nosso viver colectivo num país que ajudamos a crescer. Sim, tudo aquilo que uma geração usufrui é fruto inequívoco dos investimentos das gerações predecessoras. E se hoje exijo viver com dignidade os meus tempos de velhice não é por auto-comiseração, mas sim por direito inalienável que ganhei no afã de uma vida melhor para os vindouros, no meu caso o vindouro foi a minha filha. Os cuidados que ela e a sua geração têm para comigo e os meus iguais são o ponto de partida duma ética sociológica que cada geração deve assumir em relação às suas predecessoras, criando assim os laços duma solidariedade inter-geracional que é o cunho mais belo duma sociedade evoluída.

Mas regressemos às minhas aulas de ginástica que eles chamam de educação física. Sim, porque o corpo educa-se, embora o meu de tão mal-educado que está, nem com palmatória recupera do atraso educacional que os fardos do armazém provocaram. Diz o meu genro que a educação física é a expressão física de um conceito de educação, cujo fim último é o pleno e total desenvolvimento do homem. Bonito. E perguntam vocês quem é o meu genro? É professor de educação física francês, filho de pais portugueses que emigraram nos anos 60 para os arredores de Paris. O rapaz tirou o curso no Institut Supérieur du Sport et Education Physique (INSEP) e que agora se denomina Institut National du Sport de l’Expertise et de la Performance. Segundo ele me conta, naquela escola dá-se formação aos futuros treinadores e professores de desporto, numa lógica que tem o desporto de alto rendimento como pano de fundo. Ali os grandes desportistas podiam conciliar as exigências do seu percurso desportivo como atletas e a preparação do seu futuro profissional, através duma formação técnica, pedagógica e científica enriquecida pelo contacto com os mais diversos modelos e metodologias de treino do mais alto nível de rendimento. Ao contrário da faculdade onde faço ginástica que de manhã está repleta de velhos, o INSEP ainda o dia é noite, já pulsa de vida com os atletas de várias modalidades desportivas a fazer o primeiro treino do dia, ainda antes do pequeno-almoço. Para lá de professores e treinadores, o INSEP ajudou a formar campeões de várias modalidades desportivas, tais como: Marie-José Perec (Atletismo), Florian Rousseau (Ciclismo), Amélie Mauresmo (Ténis) e, entre outros, o famosíssimo Tony Parker, basquetebolista de elite que brilha na NBA.

Penso que lá também estudam a mitocôndria, embora por aquilo que sei, investem muito mais nas coisas diretamente relacionadas com o desporto utilizando os estudantes e os atletas como cobaias. Assim a validade ecológica é muito maior. Ao homem o que é do homem, ao coelho o que é do coelho. Falo do coelho, porque os estudos com a talidomida de que falei atrás, nas experiências com coelhas já permitiam detectar as más-formações dos fetos. Isto tem a ver com o grau de complexidade dos sistemas vivos. Aquilo que é verdade para um organismo vivo de elementar grau de complexidade, pode ser menos verdade ou até mentira para um organismo mais complexo. Isso só agora se começa a perceber. Não posso nem quero ser retrógrado. Muita da ciência que actualmente nos salva a vida teve e tem os roedores, coelhos, cães e macacos como tropas de choque na aventurosa guerra contra a doença. Sei-o muito bem e por isso eu e a humanidade lhes devemos estar gratos. Agora no desporto …. bem, no desporto, no meu modesto entender, a coisa é mais de homens e mulheres, em situações reais ou simuladas e menos de animais.

Muita investigação faz-se em animais por mero comodismo. A procura de amostras humanas é difícil e demorada e os senhores investigadores não se querem dar ao trabalho de, qual Diógenes Laércio, irem pelas ruas de Atenas à procura do homem. Mas têm mesmo de ir porque se a mitocôndria do rato resiste melhor ao stresse oxidativo com a ingestão de vitamina C, então, encontrem-se homens para fazer esse estudo com maior validade ecológica, e prática. Um rato, criado nas condições assépticas dos biotérios, termicamente neutras, nutricionalmente equilibradas, está muito, mas mesmo muito longe, do homem em situação e principalmente do guarda-redes de andebol. Esta é uma pequena maldade só entendida por iluminados e velhinhos como eu.

As ciências no desporto têm de ter um carácter aplicado. Têm de estar profundamente dirigidas para a ação, para a transformação de conceitos e comportamentos, principalmente dos professores e treinadores. Ciências aplicadas tout court. A ciência do desporto, quando se fecha no laboratório e se reduz à manipulação animal, pode ser muito profunda, mas tem reduzida validade social. Essa ciência compraz-se a olhar para o umbigo, citando os seus pares que os citam em feed-back quase instintivos, em círculo fechado sem qualquer pregnância sociológica. Faz-me lembrar aqueles grupos de teatro de vanguarda que exploram novas estéticas na procura do supremo inefável, mas que ninguém vê. Certo, descobrem novas formas para dizer os velhos conteúdos; são originais, mas, ou a mensagem é inteligível pelas gentes comuns ou então morrem à míngua de meios, vociferando tragicamente contra os poderes públicos que os abandonam.

Ratos e velhos. Quais terão maior validade ecológica? Dos ratos duvido; dos velhos ainda mais. Nós não podemos projectar futuro; nós somos o inexorável futuro dos outros. Nós somos o fim do homem e, se estamos maltratados, não são as mezinhas inócuas que eles nos propiciam, como a última refeição do condenado, que nos vão resolver os problemas herdados duma vida passada em durezas de sobrevivência. Eu deveria ter tido o discernimento, sei-o agora, para nos desvairados momentos da minha juventude e adultícia encontrar tempo suficiente para a minha saúde óssea, muscular, endócrina, fisiológica e através delas fortalecer a saúde vital que o trabalho escravo sonegou. A minha vida passada foi fundamentalmente negócio, negócio dos outros, com muito pouco ócio. Por isso, o futuro não deve ser perspetivado colocando a ênfase na resolução das insuficiências da minha geração, mas pela pressão incontornável do porvir dos jovens.
Há dias, li nos jornais que o governo quer “mexer” no desporto escolar. Se fosse para melhorar tudo bem, mas parece que é para reduzi-lo, senão aniquilá-lo por meras questões economicistas. Os governantes quando pressionados pelas urgências dos défices financeiros transformam-se nuns néscios, e não se preocupam em hipotecar o futuro no afã de poupar uns tostões.

Não conseguem projetar no futuro as suas decisões. Poupam agora na educação fisica e desporto e pagam no futuro em morbilidade e despesas de saúde. Vai ganho que me dás perda. A pressão do imediato é sempre má em política e são raros o que saem da lógica dos clones partidários e têm visão de conjunto projetada no futuro. Desporto escolar, o santo Graal que urge redescobrir. O que temos tido até aqui é um arremedo de desporto escolar com periódicos momentos altos, mas sem um projeto firme que o defina e estruture como pedra basilar do desporto nacional. Vai funcionando com severas limitações, a mais gravosa das quais é a ausência de um projeto socialmente coerente.

Há dias, naquelas conversas profundas que tenho com o meu genro, também gostamos de futebol e anedotas, mas naquele momento foi assunto sério, ele esclareceu que com o movimento revolucionário de Maio 68, todos os alicerces da sociedade francesa foram postos em causa e principalmente a educação. A educação do corpo através da coisa desportiva então sofreu tratos de polé. Tudo o que fosse regra e auto-superação era de imediato apodado de cultura burguesa. Os efeitos desse espírito iconoclasta e libertário refletiram-se negativamente no mundo da educação fisica e desportiva. O desporto era alienante porque tendia a reproduzir a lógica de exploração das relações de produção social. Foi o advento da pedagogia libertária que libertava o aluno dos constrangimentos impostos pelos saberes a adquirir, que dulcificava a dureza do ensinar e aprender, que colocava o aluno como centro motor do processo educativo e não como centro das preocupações pedagógicas. Assim, a aula acontecia. No campo da educação física e desportiva anularam-se os fundamentos do desporto como meio de educação em prol duma psicomotricidade que procurava em movimentos abstratos a realização do homem liberto das grilhetas exploratórias da sociedade burguesa. Foi um tempo de demissão do acto de ensinar, tudo valia no sem valor das pedagogias pseudorrevolucionárias e na recusa dos valores da sociedade através de slogans como “Corram camaradas, o velho mundo está atrás de vós”.

Ao recusar os axiomas do velho mundo destruíram os alicerces de uma educação física socialmente pregnante e de um desporto de elite fomentador de campeões. Ciceroniados pelo filósofo do existencialismo, Jean Paul Sartre, que recusou o prémio Nobel despeitado com o mundo burguês que o criou, os estudantes tentaram fazer a revolução através das super-estruturas noológicas. Ganharam no despertar das mentes, mas falharam no projecto libertário porque as revoluções fazem-se por dentro e não por cima. Depois dos tempos de demissão em que imperava a anti-regra de “a aula acontece”, as coisas recuperaram o seu sentido e ritmo normais e a França reestruturou uma educação física com alicerces mais sólidos, um desporto escolar realmente penetrante de todo o tecido social que rapidamente redundou num desporto pujante, auto-renovado, viveiro de campeões.

Porque se a educação física e desportiva é um hino ao corpo, em festa, humor, riso e alegria, também pressupõe, regra, suor, dor e superação. As grilhetas de corpos não funcionais só são abertas pela força do treino duro, seja na escola seja no clube. Paga-se um preço para se ser livre. Mas voltemos às minhas aulas na faculdade. Já disse e repito. As aulas para mim valem menos pelo ganho físico e mais pelo ganho relacional. Faz bem ao ego fazer parte de um projeto coletivo em que há respeito, preocupação e até amor. Sim, reconheço que existe uma preocupação verdadeira em nos estudar para dar melhores soluções aos alunos que vão trabalhar com os escalões etários integrantes da denominada terceira idade. É aquilo que podemos considerar as implicações práticas da investigação. Querem gastar tempo e meios connosco e com os doentes, está bem, gastem, mas não se esqueçam que o futuro do mundo está nas crianças. Por falar em doentes, além de nós os velhos-cobaias, pululam na faculdade todo o género de disfuncionalidades: eles são os enfartados cardíacos que procuram recuperar a muscularidade do miocárdio, eles são os diabéticos em tentativa muitas vezes frustre de recuperar o intercâmbio correcto do açúcar entre o fígado, o músculo e o adipócito, vias metabólicas esclerosadas por anos de desregramento nutricional, eles são os osteopénicos e os osteoporóticos que claudicam como moscas a quem se retirou as duas patas do mesmo lado. Está bem, todas estas populações têm certo interesse investigativo, científico, reconheço, “mas as crianças Senhor, porque Lhes dais tantas dores, porque padecem assim”. Esta é só para aqueles que conhecem o Augusto Gil e a sua balada da água condensada.

Existe uma educação física escolar primária e pré-primária esperando pela sua carta de alforria. Que fazer? Eis a famosa pergunta Leninista que determina o rumo a seguir depois da tomada do poder. O que fazer não sei porque não sou especialista em pedagogias infantis mas tenho a certeza, como contrabalanço aos esforços institucionais tidos com os idosos, se deve, de igual forma, investir na cientificação da educação física e desportiva das crianças e jovens, não através de perorações intelectualizantes demasiado teóricas, mas sim com didácticas plurais que abram campo à procura deste novo saber que embora não seja novo, sê-lo-á no âmago das preocupações formativas e investigativas da “minha” faculdade.

Que encham as salas e os corredores com crianças, barulhentas, vivas, questionantes, que vos colocam todos os dias novos desafios pois não são amostras fáceis, mas que se forem bem estudadas podem ser as amostras fidedignas para a determinação da importância da educação física na escola inicial e obrigar os governantes a olhar com sentido de totalidade as classes etárias que são o futuro do país. Para lá dos ratos, velhos e enfartados, existe um mundo vivo e fulgurante, constituído por crianças, jovens e atletas, que espera o crivo profundo da ciência e pedagogia.

José Augusto Santos é Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
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