Futebol aprisionado (artigo de Aníbal Styliano, 51)

Espaço Universidade 10-03-2018 20:40
Por Aníbal Styliano
Sentia-se a tragédia no ar, adivinhava-se um cenário destrutivo.
A culpa arrasou a inocência.
Destruir é sempre mais fácil do que construir. Basta misturar vaidades, invejas, ódios e uma dose de prepotência ignorante.
Os vícios, os excessos, a falta de pudor, a morte da vergonha, facilmente sobem aos palcos, com apetites canibalescos, inundando sociedades.
O poder transforma-se em pandemia imparável, incorpora o gérmen da sua derrota globalizada.
Os falsos mitos são progressivamente encaminhados para um profundo cárcere sem saída, com consequências devastadoras.
Os limites foram pulverizados pelos agentes infiltrados do caos.
Pablo Neruda escreveu que “a sua vida era feita de todas as vidas.” (“Confesso que Vivi”) e Gabriel García Márquez “A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda e como a recorda para contá-la.” (“Viver Para Contá-la”).
Duas das presenças constantes nas discussões apaixonadas sobre futebol/vida.
Viver e contar é sempre um exercício útil, desejável e que possibilita passes para jogadas mais brilhantes.
Fabricam-se, com total impunidade, contextos artificiais, que indiciam a perda total de limites e de regras essenciais – o paradoxo de um paradigma que se pretende novo e afinal é tão antigo como a Terra.
Somos campeões europeus em título (futebol e futsal, bem como em diversas modalidades) mas também grandes artistas na calúnia, na mentira, no golpe servil oportunista.
Há quem utilize o desporto para exclusivo negócio e promoção pessoal e há os outros: os desportistas – atletas, treinadores, dirigentes, adeptos – que nunca deixam de enfrentar e superar novos obstáculos como destino escolhido conscientemente, com emoção mas sem fundamentalismos.
Os segundos criam investimentos fantásticos, os primeiros banqueteiam-se com o que nunca lhes pertencerá.
Surge agora nova fase neste processo que tem de ser travado: o uso generalizado de estratégias de vigilância contínua (mais sofisticadas do que nas ditaduras) para controlo absoluto e tentativa de manutenção do poder a todo o custo, eventualmente oferecendo saquinhos de “30 moedas” aos mais eficazes, em troca da sua humanidade.
O lamentável é haver quem aceite por opção e desejo inconfessável mas evidente de “fazer parte da organização” – inclusive, procurando dificultar eventuais acessos de “concorrência”.
Mesmo com todas as críticas possíveis, a imprensa livre é um espaço indispensável de construção do futuro.
Calúnias, invenções de esquemas fraudulentos, corrupção, favorecimentos, declarações bombásticas (mesmo que falsas), voyeurismo obsessivo, viciação de resultados (“é o maior pesadelo que o desporto enfrenta actualmente.”, Joaquim Evangelista, Presidente do SJPF), suspeição permanente, declarações no mínimo infelizes e pouco sabedoras, de políticas/os com enorme responsabilidade mas provavelmente com ainda maior desconhecimento e ligeireza infeliz.
Uma das grandes questões é “confundir a árvore com a floresta”, muitas vezes intencionalmente.
Mesmo que alguns se divirtam, o rumo é o do descrédito, transformando pormenores falsificados, em produções hollywoodescas.
Os trágicos fogos ainda na memória e as respostas a esse flagelo são também sinais do desencontro entre as palavas e as ações… vício ou herança que não se consegue vencer definitivamente?
Temos sempre infelizmente Pedrógão e não só; adeus Pinhal do Rei, em Leiria; adeus empresas públicas para servir populações, algumas muito envelhecidas e isoladas; país com crescimento nos documentos mas realidades e injustiças muito tristes.
No fundo, tal como o futebol profissional, também o país mais desenvolvido não é solidário com o país mais abandonado e pobre.
Fazem-se grandes reportagens que emocionam mas cujos resultados efetivos são muito reduzidos. Também aí a mudança demora a concretizar-se, eventualmente por “esquecimento” fatalista…
Seremos mais ficção (uso de palavras mas não de ações) do que realidade?

Nesta fase de transição civilizacional, com profundas e incertas transformações, o jogo de futebol continua a preservar o momento onde se sente e partilha a paixão, onde há aproximação de entendimento global.
O caos atual tem múltiplos responsáveis, uns por ação e outros por inação.
Outros ainda por vaidade mesquinha e falta de caráter.
Dirigentes federativos, membros do governo e do COP não podem limitar-se à troca de galhardetes vistosos, pois têm a responsabilidade de definir critérios e regras competentes e de as fazer cumprir com lealdade. Se não conseguem tenham a dignidade de sair sem causar maiores problemas.
Temos protagonistas em excesso que só muito atrapalham.
Os verdadeiros artistas controlam a “redondinha”, em triangulações sucessivas, num retângulo inscrito num círculo. Mas isso implica muito trabalho, muito esforço, muito sofrimento e acima de tudo muito talento.
O negócio pretende cada vez mais e os atletas são levados a ultrapassarem limites exagerados.
Desta vez, até a justiça, esteio essencial do desenvolvimento, foi integrada, pelas piores razões.
O pesadelo aumenta pela gravidade dessa participação.
Todos ficamos mais pobres.
O país sempre mais atrasado, mesmo que as estatísticas queiram fazer crer no contrário.
Há temas que nunca são debatidos, enfrentados, que estão na base de muitas contaminações do movimento desportivo.
Por vezes surgem projetos e programas, visualmente excecionais em termos de apresentação/comunicação e de marketing, mas “egoístas” porque nascem da imposição sem discussão, do desconhecimento da realidade no seu todo, e da cumplicidade de quem já não consegue discordar.
Duvidamos que se possam cumprir e sejam utilizados para mais um momento mediático com algum impacto nacional e internacional, para potenciar imagem favorável.
O futebol (o desporto em geral) carece de visão integrada, global, para poder crescer com equilíbrio e com sustentabilidade.
É preciso tempo, competência nas escolhas, coerência na aplicação e um envolvimento global sem distinções ou preferências.
Desperdiçar recursos e o potencial do desporto escolar, tem sido hábito que ninguém ousa mudar.
Será mera poupança, incapacidade de tempo para pensar, opção de não investimento porque pouco mediático, logo sem atrapalhar muito quem não faz o que devia fazer? Alguma razão deve existir, ou não?
O movimento associativo desportivo, fruto de falta de visão e apoio sistemático dos poderes públicos, vive momentos inquietantes.
O que levou tantos anos, após coragem exemplar para alicerçar, tem sido desvalorizado com consequências desastrosas para a sociedade.
O meu tributo aos heróis que mantém os clubes, às dedicações que constroem famílias alargadas e solidárias, a todos os que praticam a cidadania, superando dificuldades, exigências crescentes, sem divulgação nem reconhecimento da obra concretizada.
Trabalhar para estatísticas só faz sentido quando elas traduzem realidades universais e não imagens virtuais.
Sem complexos, com um panorama desastroso (as tais estatísticas bem apresentadas o confirmam), não será tempo de evitar desperdícios maiores?
O desporto é também espaço onde a segurança da vida de todos deve ser preocupação constante.
Há projetos concretos e adequados nesse sentido?

O futebol apresenta uma imagem de degradação do diálogo, de muitos jogos sem bola e sem qualidade, de unanimismos estranhos (por exemplo: a moda de criar “Conselhos de Presidentes”).
A indiferença do futebol profissional para com o futebol distrital e de formação, sem a respetiva subsidiariedade, o mediatismo de decisões disciplinares não raro díspares, os graves problemas mesmo os mais incómodos e sempre silenciados, as incoerências que tardam em ser resolvidas da introdução do VAR, a formação de excelência dos árbitros e outros agentes e, por último mas não menos importante, muito mais apoio para os jovens praticarem pois é aí que reside a nossa fonte mágica que nos alimenta sem cessar, carece de um plano correto, equilibrado, adequado.
O futebol profissional sem muitos clubes de formação passaria a ser uma miragem, ou então um espaço quase exclusivo de jogadores “importados”.

Foi notícia que os médicos de Toronto, Canadá, recusaram aumentos salariais, por entenderem que vários serviços e outros profissionais do setor merecem apoio prioritário.
Toronto ficará em outra galáxia?

Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol
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