«Esse pilantra não veste a camisa do galo»

Brasil 16-09-2020 12:49
Por João Almeida Moreira, correspondente de A BOLA no Brasil

Já estava definido o salário. E o tempo de contrato. Mais os bónus por produtividade. Só faltavam os resultados dos exames médicos para o contrato entre Atlético Mineiro e Thiago Neves ser assinado. À última hora, porém, já o jogador do Grêmio se preparava para viajar do Rio de Janeiro, cidade onde se encontrava, para Belo Horizonte, sede do novo clube, a transferência foi cancelada. Motivo? Pressão dos adeptos do galo.

 

Neves, médio criativo com passagem (sete jogos) pela seleção brasileira e meia dúzia de títulos relevantes no currículo, era considerado pelo treinador atleticano, Jorge Sampaoli, o jogador ideal para dar qualidade de passe à equipa. O argentino solicitou à direção a sua contratação, que até parecia fácil, uma vez que o Grêmio, onde não triunfou, queria livrar-se dele e do seu pesado salário.

 

No entanto, nem Sette Câmara, o presidente do Atlético Mineiro, nem a maioria dos membros da sua direção estavam dispostos a investir num atleta que aprenderam a detestar desde a sua passagem pelo grande rival Cruzeiro. Sampaoli, no entanto, soube ser convincente e o negócio estava pronto. Ao ponto de chegar, em forma de notícia, a uma emissora de rádio. E daí para a internet. De onde não passaria.

 

«Esse pilantra não veste a camisa do galo», eis a publicação da Galoucura, torcida principal do clube, que viralizou. Organizaram-se petições, manifestações, protestos. E a direção recuou. E o que tornou Thiago Neves persona non grata no Estádio Independência? Não foram apenas as ótimas exibições no Cruzeiro - são numerosos os ídolos de uma metade de Belo Horizonte que atuaram pelo clube da outra metade ao longo da história.

 

Foram as provocações. Desde logo, Neves disse, em entrevista no início de 2019, que jamais atuaria pelo galo, dada a sua ligação sentimental à raposa, de onde sairia, no final desse mesmo ano, pela porta do fundo após a descida ao inferno da Série B na época passada. Mas pior: gravou vídeos a chamar os rivais de «galinhada», numa alusão ao símbolo do clube, e dedicou os triunfos na Copa do Brasil «ao clube sofredor, que não ganha nada».

 

Num momento, pelo qual pediu desculpas posteriores, ainda comparou a tragédia humana e ambiental da queda da barragem de Brumadinho, considerado o maior acidente de trabalho da história do Brasil, com 259 mortos e 11 desaparecidos, registado em janeiro do ano passado, com a descida atleticana à Série B em 2005. «Esse cara passou de todos os limites, não vem», publicou ainda a Galoucura em nota: «A Galoucura, maior torcida de Minas, vem por este meio mostrar posicionamento totalmente contra a possível contratação desse jogador que preferimos nem citar o nome. É inadmissível a contratação de um cara que sempre zombou da nossa torcida, até mesmo com uma piada na época do desastre ambiental de Brumadinho. A direção, finalizando essa contratação, estará comprando uma briga contra sua própria torcida.» E ponto final.

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