Memórias Olímpicas de Portugal – A Conferência e a Lição (artigo de Manuela Hasse, 12)

Espaço Universidade 02-12-2019 15:11
Por Manuela Hasse

O Centro de Estudos de Desenvolvimento do Desporto – Noronha Feio, criado há uns anos largos pelo Professor Gustavo Pires, docente do ISEF e da FMH, no quadro da Gestão do Desporto  e do qual sou coordenadora desde há uns meses, integrado no Departamento de Educação, Ciências Sociais e Humanidades, efectuou na última quinta feira, dia 28 de Novembro de 2019, uma Conferência dedicada às Memórias Olímpicas de Portugal por sugestão, em boa hora bem acolhida por todos, do Professor Joaquim Granger, professor desta instituição, ginasta, atleta olímpico e treinador com uma vasta experiência. 

 

Tratava-se de reunir os primeiros representantes de Portugal em diferentes modalidades e de transmitir aos mais novos, os estudantes de Ciências do Desporto, aquela que foi a sua participação nos desportos precisamente no ponto de viragem onde o profissionalismo comercial e exacerbado se sobrepôs ao desporto amador. Foram nove os Olímpicos presentes sob a moderação do Presidente do Conselho Pedagógico, o Professor César Peixoto: Teresa Gaspar, no Judo (Seul, 1988), Margarida Carmo, na Ginástica Rítmica Desportiva (Los Angeles, 1984), Helena Cunha, na Ginástica Artística (Roma, 1960), Esbela da Fonseca, na Ginástica Artística (Roma, 1960; Tóquio, 1964; México, 1968), Raul Caldeira, na Ginástica Artística (Helsínquia, 1952), José Manuel Quina, na Vela (Roma, 1960; Tóquio, 1968, México, 1972), Joaquim Granger, na Ginástica Artística (Helsínquia, 1952), António Gentil Martins, no Tiro (Roma, 1960) e, finalmente, o General Ricardo Durão, no Pentatlo (Helsínquia, 1952). Como descrever três horas e meia de encantamento? Um tempo suspenso no quotidiano do trabalho discente em que os nove Olímpicos prenderam a atenção de todos, com o saber de experiência feito, a simplicidade de quem não precisa de parecer o que não é, a comunicação fluída, um sentido de humor genuíno e solto, o afecto mútuo, a experiência dos factos, a consciência de se ter vivido um tempo único, um desporto livre do jugo dos resultados a qualquer custo, marcado pelo prazer, mas longe de ser fácil, a entre ajuda de todos, mesmo dos adversários, a exigência e a disciplina voluntária, a determinação em superar todos os obstáculos, como num dos casos, ter de atravessar os Estados Unidos de uma ponta a outra – coast to coast – num automóvel emprestado e com o barco a reboque, embarcação paga a prestações pelos próprios, todas as limitações – alimentação, abrigo, viagens, a total ausência de apoios por parte de instituições desportivas criadas, em último caso, à pressa – como sucederia com a Federação Portuguesa de Ginástica – e sem qualquer estrutura de base que estivesse à altura dos seus atletas. Desbravaram terreno no universo olímpico, marcaram presença, representaram Portugal como escreveu D. Duarte‘com vontade, poder abastante e muito saber’. Jovens, adoptaram os valores olímpicos que personificaram ao longo da vida e partilharam em todas as facetas das suas actividades fosse como professoras ou treinadoras, no caso das senhoras, Esbela da Fonseca com uma carreira nacional e internacional fora do comum, fosse como economista, professor universitário, médico,  engenheiro ou militar, no caso dos cavalheiros.  Uns e outros sem excepção destacaram-se nas suas vidas profissionais, para além do campo do desporto, servindo as pessoas, a sociedade, o país. Hoje quatro deles têm mais de 90 anos, só esses quatro em conjunto têm mais de trezentos anos. Mais do que a Faculdade os ter acolhido, foram eles que acolheram a Faculdade: generosos, cultos, exigentes e extremamente claros – sem power point, sem escalas nem gráficos, nem programas electrónicos sofisticados, esquadrias ou esquemas onde se representam resultados, estratégias ou modelos de jogo. Lúcidos, prosseguiram o seu trabalho ao responderem ao convite de Joaquim Granger (um deles, com 91 anos)  e do Centro de Estudos para que nos viessem transmitir o conhecimento do desporto tal como o viveram até hoje e o desporto que poderia ser bastava que se respeitassem os valores de exigência humana e social que o sentido olímpico vivido por todos eles procura salvaguardar. Sem esses valores, que não são de boca mas antes de uma conduta que honra os homens e as mulheres de todas as idades, de todos os lugares do planeta, de todos os níveis sociais, o desporto não passa de uma guerra feroz em que os atletas – reduzidos a gladiadores, isto é: escravos – são aparentemente estragados com mimos por dirigentes, políticos e por marcas mas, na realidade, submetidos à escravidão dos interesses materiais e fáceis e à verdadeira escravatura quando à sua custa se movimenta um mercado onde têm um preço como se de uma peça de carne se tratassem.         

 

As três horas e meia passaram sem intervalo e sem se dar por ela. Consoante as aulas, as turmas entravam e saíam num movimento discreto. Num ambiente tão atento quanto descontraído, estudantes de graduação, de mestrado e de doutoramento, outros antigos alunos, ou antigos dirigentes desportivos, alguns docentes da Faculdade, prestaram atenção aos mais velhos que pela sua vivacidade, sentido crítico e genuína rebeldia, verdadeiramente livres como sempre o foram, expunham o rei e afirmavam sem temor: o rei vai nu!

 

Numa época em que os bufões tomaram o poder por meios lícitos e ilícitos, é necessário consultar e ouvir os mais velhos que pela sua qualidade e pela sua condição, dizem aquilo que sabem – a verdade. São as testemunhas de uma sociedade onde inscreveram o curso do tempo nos seus corpos, no desenrolar da vida dos filhos e dos amigos,  enfrentaram as ondulações da sociedade, a agitação do mundo. Num desporto há muito e cada vez mais transformado em negócio ao qual, em geral, todos se vergam, numa sociedade portuguesa à deriva, nas camadas mais ou menos jovens de horizontes incertos e transformados inadvertidamente em novos Prestes João forçados, ter tido a oportunidade de reunir e de ouvir esta comunidade de Olímpicos foi um facto extraordinário que os estudantes acompanharam, aplaudiram e agradeceram. Recuperar e preservar o respeito pelos mais velhos, reconhecer e aceitar a sua sabedoria, o seu capital de experiência e de vida vivida é também uma forma de afirmar o afecto, o orgulho e a gratidão que sentimos pelo seu exemplo. Todos os presentes vivemos uma manhã rara onde se concretizou a passagem de um testemunho extraordinário. Saibamos honrá-lo.

 

Praticar desporto pode ser a melhor escola da vida. Não apenas para ganhar, não apenas por razões de saúde mas por razões de ordem social dimensão negligenciada nas últimas décadas quando parece que se faz desporto apenas por razões utilitárias a que as ciências dão apoio.

Os atletas Olímpicos que tivemos a oportunidade de reunir no Salão Nobre da Faculdade de Motricidade Humana representam um desporto com outros objectivos – ser melhor, aperfeiçoar-se, procurar sempre tornar-se uma pessoa cujo carácter e a atenção aos outros sirva para nos melhorar a todos. Por isso, de uma forma ou de outra, cada um deles ocupou – para além do desporto – posições de liderança, de ensino, de formação.

O desporto é um fenómeno social porque através dele se podem formar cidadãos de excelência. Porque estrutura o ser humano e prepara-o para o respeito do outro. Para além do mais – é divertido, proporciona um prazer imenso a nível pessoal, de relação, de prazer inesgotável no aceitar de bom grado colocar-se à prova sem deixar de sorrir, sem arrogância, sem visões limitadas. Quem pratica desporto de forma desinteressada de valores materiais, demasiado terrenos, descobre um mundo sem limites – dentro e fora de si, um mundo onde um ‘melhor é possível’ começa sempre por nós e em nós.

 

Trata-se, assim, também do exemplo. Que sabemos, contagia, contamina, difunde-se pela imitação, pela admiração, pelo respeito. Os Olímpicos que temos hoje o imenso prazer de ver e de ouvir, de acolher nesta escola, são a manifestação de uma forma de fazer, de pensar e de estar no Desporto – de estar na sociedade – de acordo com outros princípios. Valores e princípios que regularam toda a sua vida e que hoje se dispuseram a partilhar com todos os estudantes e professores desta Faculdade.

 

Todos são história viva. A história que se aprende saboreando cada ideia, cada palavra, o riso e, também, a crítica diante daquilo a que querem reduzir o Desporto e que todos negam: a escravidão do atleta. Que todos aqueles que se reuniram nesta Conferência única possam compreender e aproveitar. Pois são estes os valores do Centro de Estudos de Desenvolvimento do Desporto – Noronha Feio criado também com esta finalidade e dos quais não abdicamos.

 

Departamento de Educação, Ciências Sociais e Humanidades. Faculdade de Motricidade Humana. Universidade de Lisboa.

 

Manuela Hasse

Professora Associada Agregada

Coordenadora do Centro de Estudos

Desenvolvimento do Desporto-Noronha Feio

Departamento de Educação, Ciências Sociais e Humanidades

Faculdade de Motricidade Humana

Universidade de Lisboa

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