Consumir desporto (artigo de Armando Neves dos Inocentes, 19)

Espaço Universidade 30-11-2019 00:33
Por Redação

O Total Sportek – um site que cobre e fornece links de transmissão ao vivo gratuitos e informações sobre partidas para alguns dos maiores eventos esportivos ao vivo que geralmente são transmitidos pela Sky Sports e BT Sport – publicou um estudo que apresenta “os 25 desportos mais populares do Mundo”.

 

Para tal foram selecionados treze parâmetros sob os quais foram analisadas várias modalidades:

 

1.     Audiências globais e público-alvo

2.     Números de audiência televisivos

3.     Número de ligas profissionais em todo o mundo

4.     Valores de direitos televisivos

5.     Valores de contratos de patrocínios

6.     Salário médio de atletas na liga principal

7.     Maior competição e número de países representados

8.     Presença nas redes sociais

9.     Destaque nos meios de comunicação (sites, TV)

10. Relevância ao longo do ano

11. Domínio regional

12. Igualdade de gênero

13. Acessibilidade ao público em geral em todo o mundo

 

Não é o resultado deste estudo que nos preocupa – o qual será facilmente consultado na internet – mas sim os critérios adoptados para se procurar o resultado investigado. São parâmetros de pendor declaradamente económico, com base na apresentação de um produto como espectáculo. Um espectáculo que depende essencialmente de dinheiro. De dinheiro da televisão, de dinheiro dos patrocinadores, de dinheiro do merchandising, de dinheiro da publicidade e, em última instância, de dinheiro do consumidor.

 

Não se atendeu aos critérios “maior número de praticantes por modalidade” ou “modalidade que mais valores fomenta” por exemplo. As vertentes social e cultural são minimamente tidas em conta.

 

Se dúvidas ainda haveria sobre o negócio existente à volta de toda e qualquer modalidade, a escolha destes parâmetros eliminam-nas.

 

Já não são a vitória e o recorde as principais especificidades do desporto pós-moderno, mas sim o lucro…

 

Facto que é demonstrado por um simples exemplo: logo após os Jogos Olímpicos de Inverno em 2018, onde 2 atletas «limpos» da Rússia, a competirem sob a bandeira do COI, foram apanhados nas malhas do doping, um entendimento entre Thomas Bach, presidente do COI, e Igor Levitin, ex-ministro dos Transportes e representante de Putin na Coreia do Sul, revelou o seguinte: Moscovo pagou a quantia de 15 milhões de dólares a título de contributo para a luta contra o doping e retirou o recurso apresentado no TAS relativamente ao levantador de pesos Alexander Krushelnitsky, que teve de devolver a medalha de bronze… e a Rússia foi readmitida pelo COI nos Jogos Olímpicos! Vão-se os valores, fique o “d’argent”!

 

Num país – o nosso país – com mais espectadores (incluindo telespectadores) que praticantes desportivos na base, o consumismo impera. E isto verifica-se porque o espectador continua atrás do golo, continua atrás do recorde, continua a perseguir o herói e continua atrás da exaltação.

 

Mas isto acontece porque o consumidor o procura ou porque lhe é oferecido?

 

Armando Neves dos Inocentes é Mestre em Gestão da Formação Desportiva, licenciado em Ensino de Educação Física, cinto negro 5º dan de karate-do e treinador de Grau IV.

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