“Golos de Letra” de Vítor Serpa (artigo de Manuel Sérgio, 316)

Espaço Universidade 30-11-2019 00:28
Por Manuel Sérgio

Há livros que trazem consigo uma tal energia de irradiação intelectual, moral, espiritual que, sem favor, transcendem a simples designação de obra literária. Os livros de Vítor Serpa, pela sua inapagável afirmação de amor à beleza (física e moral), ao conhecimento científico, ao encontro fraterno entre as pessoas – são dessa condição e quilate. No primor do estilo, na luz esplendente das suas imagens, nas emoções próprias de quem se transcende, na helénica serenidade da sua filosofia, os livros de Vítor Serpa constituem oportunas lições e nobres ensinamentos a um pensamento crítico e a um proceder mais humano. Por isso, o livro que vem de publicar, Golos de Letra, editado pela Federação Portuguesa de Futebol (algo de novo, eu diria mesmo: de excelso, se passa, na F.P.F., para editar um livro que é um foco luminoso nas circunstancialidades do futebol) é uma obra para ler e reler e aprender e meditar. Evocou Emil Cioran que, enquanto se preparava a cicuta, que mataria Sócrates, o filósofo pediu uma flauta, para aprender a tocar uma canção que muito o enternecia. “Para quê?” questionaram os circunstantes. Resposta de Sócrates: “Para saber tocá-la, antes de morrer”. Para discutir e impugnar, criticamente, a panenvolvente atmosfera da ideologia do “deus-lucro” ou para nos deliciarmos com a relação, que já tem séculos, entre o desporto e a literatura, é preciso aprender e escasseiam livros, como Golos de Letra, de Vítor Serpa, que nos ensinem que, antes de ser Sporting, ou Benfica, ou Porto, ou Real Madrid, ou Barcelona, ou Mancester City, ou Bayern de Munique, etc., etc., o futebol é literatura, é amor, é amizade, é arte, é pedagogia, é competição, é transcendência, numa palavra só: é cultura. No âmbito da historiografia e da crítica literárias não existe passado (em Portugal) para este livro. Não, não digo que ele é um “monumento histórico”. Mas situa-se, sem sombra de dúvida, entre o que de mais admirável já se escreveu, sobre o futebol, em língua portuguesa. Porquê? Porque Vítor Serpa faz da sua prosa, tanto nos jornais, como nos livros da sua autoria, um contra-poder ao poder das taras dominantes.

 

Fecho os olhos e abro o livro, sem opção premeditada (“ao calhar”, como eu dizia em rapaz). Tenho diante de mim a página 88, que pretende levar-nos às supremas altitudes da Literatura e do Futebol, lembrando as figuras insignes de Vinícius e de Pelé: “Os poetas, talvez os homens que mais perto estão de Deus, parecem entender melhor a sublime paixão pelo futebol. Vinícius, que nem era um adepto muito apaixonado pelo seu Botafogo, acabaria por escrever sobre o jogo e, especialmente, sobre Pelé, por ter sido alvo de honraria comum do estado brasileiro. O poeta do Orpheu receberia, do governo do seu país a medalha grau oficial, mais importante do que a medalha de grau de cavaleiro, recebida por Pelé na mesma ocasião e brincava dizendo que o crioulo merecia que tivesse sido ao contrário”. E Vítor Serpa, manifestando assim que muito pesquisou e trabalhou, na feitura deste livro, oferece-nos, a propósito, um texto de Vinícius: “Sim, caro Pelé, nós representamos, em face da comenda que nos é conferida, o Brasil racialmente integrado, o Brasil sem ódios e sem complexos, o Brasil que olha para o futuro sem medo porque, apesar dos pesares, é bom de mulher, bom de música, bom de poesia, bom de pintura, bom de arquitectura e bom de bola. Particularmente por isso considero-me feliz de estar a seu lado, no momento em que nos colocaram no peito a condecoração” (p. 88).  Há, aqui, um fortíssimo desafio hermenêutico porque, neste como noutros textos do Golo de Letras, as palavras dos grandes escritores também ressoam a ideologia que informa a mundividência de Vítor Serpa. O escritor, o verdadeiro escritor, ou é um militante especializado na interpretação do curso da História, ou pode até provocar satisfação intelectual, elevar-nos até aos mais límpidos cimos estéticos, mas não será nunca o anunciador de um princípio-esperança… que as pessoas buscam e sonham, com a esperança numa solução humana possível – que, acrescente-se, nunca é pré-fabricada em qualquer ortodoxia partidária.

 

Alexandre O’Neill, António Lobo Antunes, Fernando Assis Pacheco, Baptista-Bastos, Carlos Drummond de Andrade, Craveirinha, Dinis Machado, Fernando Pessoa, Gonçalo M. Tavares, Jacinto Lucas Pires, João de Melo, João Tordo, José do Carmo Francisco, José Eduardo Agualusa, José Gomes Ferreira, José Jorge Letria, José Saramago, Lídia Jorge, Luandino Vieira, Manuel Alegre, Manuel Bandeira, Maria Teresa Horta, Nelson Rodrigues, Ruy Berlo, Valter Hugo Mãe, Vinícius de Moraes, entre muitos outros, constituem o fértil campo criativo onde o futebol nos faz inocentes e o Vítor Serpa o foi encontrar. Ninguém é inocente, no futebol, mas pode morrer inocente se, nele, deixar entrar, ao longo da vida, o que de mais belo e bom e verdadeiro e justo a vida tem. “À pergunta: Onde mora Deus? Martin Buber conta a resposta que deu um mestre sábio, que temos de ouvir: Deus mora onde o deixamos entrar” (José Tolentino Mendonça, Nenhum Caminho será Longo, p. 76). Fecho, de novo, os olhos, abro o Golo de Letras e fico diante da página 38 e do sereno orgulho da inquieta humanidade do José Cardoso Pires. “Amigo de Pinhão, o escritor vivia, na altura, no bairro de Chelsea, em Londres, e gostava particularmente de ver futebol inglês. Apresentava uma razão forte: Para mim, o futebol tem de ser um espectáculo de alegria, uma feira, uma romaria, como é na Inglaterra onde, como se sabe, o apoio ao jogador é feito a cantar (…). Um dia, o escritor escreveu esta tão curiosa quanto perspicaz prosa, n’A Bola: O futebol é um belo espectáculo, a hora e meia, o antes e o depois do jogo. Ir, entre a multidão, a caminho do estádio, toda aquela festa, Depois, a troca de piadas. É um medíocre amante do futebol aquele que se contenta em vê-lo na televisão”. Hoje, não é difícil encontrar uma laboriosa e refulgente colmeia de inteligências ávidas de interpretar o futebol, designadamente o futebol-espectáculo. No meu entender, o índice mais claro e mais seguro da popularidade desta modalidade desportiva…

               

Irradiante e vibrante, o progresso do futebol descortina-se, por esse mundo além. E liberto de todos os ressaibos de descrença, plenamente visíveis na pós-modernidade. Gilles Lipovetsky (O Crepúsculo do Dever, D. Quixote, Lisboa, 2010) faz uma síntese do desporto pós-moderno: “O desporto libertou-se do lirismo das virtudes, acertou o passo com a lógica pós-moralista, narcísica e espectacular. Hoje, o desporto de massas é essencialmente uma actividade dominada pela procura do prazer, do dinamismo energético, da experiência de si próprio. Depois do desporto disciplinar e moralista, eis o desporto lazer, o desporto-saúde, o desporto-desafio”. Mas o período pós-moralista do desporto “coincide com o culto hiperbólico do espectáculo, com as estratégias de comunicação das marcas, com a personalização e a profissionalização dos campeões” (pp. 132 ss.). Vou repetir-me: para mim, o desporto, mormente o espetáculo desportivo, reproduz e multiplica as taras da sociedade de mercado, que nos governa, com relevo muito especial para uma altíssima competição, que demasiadas vezes utiliza meios, sem qualquer alcance e significado éticos. Ser ético, no meu modesto entender, é querer assumir os interesses do outro, mesmo quando eles não coincidem com os meus. São assumidos, porque são justos e solidários e não porque são do António, ou do Joaquim, ou do Manuel, que não são pessoas da minha simpatia. O Desporto (que o Vítor Serpa defende) contesta e rejeita os modernos figurinos de um desporto que, no adversário, descobre um inimigo e concorre, sem vergonha, à sacralização de pessoas e de fórmulas, hábeis seguidoras do mais despudorado maquiavelismo. Como se sabe (é a Física que no-lo ensina) nada existe, sem relação. Pergunto: existe desporto, sem uma relação fraterna, entre os clubes? Ou quando se dificulta, nalguma imprensa, o acesso à opinião pública de uma ética, sem a qual não há Desporto?...

               

O livro Golos de Letra escapa a esquemas e a definições confortáveis. O seu objetivo primeiro, se bem penso, é levar o que de belo e bom o futebol tem e é a todos os povos (e pessoas) da língua de Camões e Vieira, quero eu dizer: da língua portuguesa. “A literatura africana de língua portuguesa não tem, no futebol, uma generosa fonte de inspiração. Futebol em Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e Príncipe, em especial nos meios mais intelectuais, ainda rima com colonização, com escravatura, com branco a enganar o negro, com ídolos roubados pelos europeus à mãe África, tal como sucedia com o ouro e o diamante que os brancos levaram para suas riquezas. Durante o período da Guerra Colonial, desde o período da guerra de sessenta a meio da guerra de setenta do século passado, os intelectuais africanos não pareciam ter opção (…). Por todos os países lusófonos, onde se revelava o sonho da independência e da justiça social, os escritores produziam uma diversa literatura de guerra” (p. 121). No entanto, “José Eduardo dos Santos, mesmo durante as suas funções de Presidente de Angola, nunca deixou de ser um entusiástico portista, como Jorge Carlos Fonseca, Presidente de Cabo Verde, antigo estudante de Coimbra, divide a sua opção clubística, entre o Sporting e a Académica” (p. 123). De facto, o Doutor Jorge Carlos Fonseca é, hoje, um dos grandes escritores de língua portuguesa e um exemplar desportista. Sei-o bem, que sou seu admirador e Amigo. Afirma o Vítor Serpa: “Talvez que, entre todos os grandes escritores africanos de língua portuguesa, Mia Couto seja mesmo aquele que vive e fala de futebol com uma visão profundamente literária” (p. 141). Enfim, para o valor da obra de Vítor Serpa, como jornalista e escritor, e pela sua projecção, na C.P.L.P., Golos de Letra reveste-se de uma importância especial. É que este livro atinge os limites de uma experiência vivida. Nele, perpassam as linhas mestras do perfil de um dos escritores e jornalistas, o Vítor Serpa, cuja personalidade mais marcou a história do nosso futebol e do seu indiscutível progresso. Após a sua leitura, que vivamente se recomenda, o saldo a reter é francamente positivo: para o futebol português, para a literatura portuguesa, para a cultura portuguesa. E parabéns à Federação Portuguesa de Futebol que não desconhece que vivemos tempos de urgência, em direção a um futebol diferente, que nos faça dignos da condição humana.       

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto  

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