«Há pais que querem ser Jorge Mendes e os filhos Ronaldo»

Sporting 12-09-2019 11:55
Por Entrevista de Marta Fernandes Simões

«Tenho 50 anos de Sporting, só», atira o responsável por dar ao futebol dois Bolas de Ouro (Figo e Ronaldo). Recuperado de problema de saúde, Aurélio Pereira, atual conselheiro para a formação leonina, não esconde o orgulho pelos 10 campeões europeus made in Alcochete e lamenta, em entrevista a A BOLA, a pressão de pais e empresários no futebol.

 

- O presidente do Sporting disse que prefere investir em obras para melhorar a Academia do que gastar €10/12M num jogador. Faz sentido?

 

- Para quem é da formação faz sempre sentido. Estamos sempre com a formação na cabeça. Essa é a solução. Já disse: o foco é no jogador e nos seus comportamentos; o acompanhamento, quer social, quer escolar, somos nós que fazemos. Isso é um trabalho altamente complexo. Tomar conta dos filhos dos outros é muito pior do que os nossos. Temos de estar preparados para isso. E o Sporting, nessa vertente psicopedagógica, tem feito um trabalho extraordinário. Quando entrou o Leonel Pontes, por exemplo, havia o acompanhamento do jogador, mesmo sem grandes condições. Agora é um setor profissional, nada tem a ver com o passado. Vinham ao fim do dia e ‘vamos lá trabalhar’. Mas também produzimos trabalho notável. Mesmo com condições difíceis, ter 50 jogadores a trabalhar à minha responsabilidade...

 

- Hoje o Sporting tem jovens como Joelson Fernandes (16 anos), Eduardo Quaresma, Nuno Mendes... O futuro do clube está salvaguardado?

 

- Seguramente. Muitas vezes entre o sucesso e o insucesso está o cabelo.  Temos um jogador fantástico e a partir da altura em que começam a aparecer empresários, pais para aqui e para acolá, a cabeça deixou de pensar. Algumas instabilidades financeiras... vêm pela calada da noite e oferecem mais isto, está a marimbar-se se vai ter retorno ou não. É muito doloroso ver partir jogadores que ficariam por aqui se não fossem mal aconselhados. Joelson é um miúdo que está a crescer, é preciso algum cuidado. Superprotegido não dá, mal acompanhado também não.

 

- Houve jogadores que não se afirmaram, Matheus Pereira, Francisco Geraldes, Iuri Medeiros... Sente que foi uma fornada da formação que se desperdiçou?

 

- Não podemos controlar. Raramente um jogador que traz o pai para empresário, o que acontece também com o Neymar, dá certo. Porque a vontade que ele tem é de ganhar dinheiro primeiro que os outros. Os maus conselheiros, o pai quando se está a discutir contratos é uma coisa impressionante. Eu não faço contratos, não tenho feitio para isso. Mas isso é a pior coisa que há. O pai quer ser Jorge Mendes e o filho quer ser Ronaldo. E as coisas não batem com certeza. Estamos a falar de jogadores que tinham potencial enorme e o desperdiçaram em pouco tempo. Tudo o que é marginal ao nosso acompanhamento não podemos controlar. Que eles podem voltar a ser o que eram, vai depender. É muito chato. Disse isso ao Tiago Ilori, por exemplo. Ele estava aqui já com contrato profissional e foi para o Liverpool, mas o Liverpool naquela altura tinha centrais de peso e ele teve alguma dificuldade a impor-se. Hoje é um miúdo que já tem outra cabeça, percebeu e até me disse ‘mister, devia ter feito o que você queria’.

 

- Houve algum jogador que tivesse deixado alguma mágoa, que podia ter tido um desfecho diferente? Fábio Paim é o caso mais mediático...

 

- Tenho uma pena... Fomos buscá-lo para o Sporting tinha  ele sete anos. Até aos 13 anos. Vinha acompanhado por um tio. Um miúdo impecável, extraordinário. A partir da altura em que começou a ganhar muito dinheiro, o futebol ficou para trás. Depois, as companhias. É um miúdo que tem um coração de ouro, mas deixa-se influenciar por más companhias. Sinto mesmo tristeza quando falo no Fábio Paim. Mas há outros, não é só aqui, há Balotellis...

 

- É difícil gerir expectativas dos jovens e dos pais?

 

- É muito difícil. No polo EUL trabalhamos miúdos dos seis aos 13. São 190. É ali que tudo começa e ali apercebemo-nos que os prodígios de futebol são tudo miúdos africanos, os nossos irmãos africanos. É o futebol de rua que está a regressar através dos bairros. Sem o futebol de rua não há jogadores fantásticos. Sem futebol de rua, esqueçam. Quando passam para a academia, fazemos os possíveis para que gostem de estar ali. Mas aos 13 já há empresários a ver... começam logo cedo a serem pressionados e os pais depois vão atrás e é uma situação chata. Temos de ter cuidado naquilo que dizemos aos miúdos. Autoestima e disciplina são fundamentais.

 

Leia a entrevista completa na edição impressa de A BOLA

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