Em Las Vegas o Basquetebol é Global (artigo de António Pereira)

Espaço Universidade 18-07-2019 10:49
Por António Pereira

Recebi a proposta para trabalhar na organização de um evento desportivo em Las Vegas (EUA) e, no pouco tempo livre de que dispus, aproveitei para acompanhar ao vivo a NBA Summer League, que se realiza como já é um hábito naquela mesma cidade, para saudar amigos de longa data, que conheci no decurso das minhas inúmeras viagens aos USA e outros países, por compromissos profissionais. Pude comprovar, uma vez mais, que o Basketball Global é, cada vez mais, uma realidade.

 

Permitam-me a indelicadeza e atraiçoar o espírito de que o que se passa em Las Vegas é… para ficar em Las Vegas, mas até porque a audiência do basquetebol é global, consequência das redes sociais e das políticas de comunicação, pelo que quase tudo o que se viveu naquelas paragens foi do domínio público. Quase tudo, sublinho…

 

A edição de 2019 da Summer League concentrava os holofotes do Thomas and Mack Cox Pavilion para as estreias dos candidatos a estrelas da NBA Zion Williams e RJ Barrett, eperando a NBA que estes venham a abanar a melhor competição do mundo. Ora o que não se esperava é que m terramoto real ajudasse a se falar ainda mais da NBA Summer League. Com o marketing da NBA a trabalhar de forma exemplar, não fosse aquela organização a grande referência do marketing no mundo da indústria desportiva, pudemos encontrar pessoas do basquetebol de todo o mundo. Diretores desportivos, treinadores, e jogadores de diversas nacionalidades eram facilmente identificados e mesmo os que não estão em atividade, são muitos os presentes como forma de acompanhar o que se passa, sendo convidados pelas suas ex-equipas ou pela própria NBA.

Os italianos e israelitas são visita frequente destes eventos; os turcos surgem cada vez mais e em maior número; os sérvios, croatas e amantes da modalidade de outros países do leste europeu estão, agora, entre os principais clientes; depois, encontram-se representantes de países mais pequenos, como a Áustria, Finlândia, Geórgia, Inglaterra e até Luxemburgo, que já são chamados para trocar opiniões e conversar nos intervalos dos jogos.

 

Nos últimos anos, Espanha começa a ser, igualmente, uma presença constante, depois de durante anos raramente serem vistos agentes, scouters, diretores desportivos ou treinadores nuestros hermanos por terras do Tio Sam. Antigamente, utilizavam, por certo, outros recursos para observação de jogadores, que não o presencial, mas dada a forte concorrência das restantes equipas europeias passaram, também eles, a marcar viagem com antecedência para Las Vegas.

 

Para compreendermos este frenesim temos de perceber a estrutura do desporto americano e das organizações desportivas da NBA. Os principais cargos das diferentes organizações são ocupados por pessoas ligadas à modalidade, que vão subindo na hierarquia ao longo dos tempos e que no fundo nunca deixam de pertencer ao mundo do basquetebol. Até os comentadores desportivos têm um enorme conhecimento do jogo, visto que os órgãos de comunicação social escolhem para essas posições ex-jogadores e ex-treinadores, que assumem a compreensão do jogo em diversos níveis.

 

Na Europa, a influência de pessoas do basquetebol tem ganho peso nas estruturas das organizações desportivas, não sendo de estranhar que as presidências da federação da Turquia (Turkoglu) e de Espanha (Garbajosa) sejam ocupadas por antigas estrelas. Nos clubes que participam nas grandes competições europeias a realidade é semelhante. Dá-se inclusivamente o caso de na competição espanhola ACB, as suas normas obrigarem a que todos os seus clubes apresentem um diretor desportivo e um responsável do marketing e comunicação, o que já tínhamos presenciado aquando da nossa presença no Cajasol Sevilha, equipa que nesse época atingiu a final da Eurocup.

 

Contudo, em Portugal, o basquetebol ainda não se tornou global. É pouco comum ver um ex-dirigente, um ex-treinador ou ex-jogadores num pavilhão de basquetebol em Portugal quanto mais no estrangeiro. Porque será? No futebol, vemos que os clubes aproveitam dirigentes, treinadores e jogadores em atividade ou não, para os manter no ensino do jogo, promoção do clube, promoção da modalidade, servindo de exemplo para os jovens e de relações públicas junto de patrocinadores e adeptos. Por que razão o basquetebol português abdicou destas pessoas? Será que podemos abdicar delas?

 

Num passado recente, tivemos grandes referências portuguesas, que em conjunto com jogadores estrangeiros elevaram o basquetebol para um nível competitivo bastante interessante. Jogadores como Reggie Geary (esteve nos San Antonio Spurs, passou pelo Futebol Clube do Porto e esteve, mais tarde, nos Minesota Timberwolves, na Summer League de Boston), Jobey Thomas (passou pela Summer League), Marc Acres (tinha vinte minutos de média de jogo na NBA, com os Boston Celtics, e depois nos Orlando Magic durante diversas épocas, jogando posteriormente no Benfica) e o grande Mário Ellie que foi campeão em Portugal antes de o ser na NBA, pelo Houston Rockets e depois pelos San Antonio Spurs, são bons exemplos. Por Portugal passaram ainda outros jogadores americanos que foram campeões da NCAA e do NIT, que representaram a seleção americana em eventos internacionais e outros que jogaram ao nível da Euroliga.
 

Os bons exemplos e referências são fundamentais para a imagem do basquetebol e da competição, para a captação e fidelização de adeptos, promoção junto de entidades, organizações, empresas e patrocinadores, e não compreender isto é não perceber os alicerces da indústria desportiva, na qual o basquetebol está forçosamente inserido.

 

O frenesim provocado pelas contratações dos chamados free agents, para além de manter a NBA nas manchetes dos jornais diários, movimentou cerca de meio bilião de dólares em contratos que, de seguida, terão repercussões no merchandising e outras áreas de negócio, como vendas de bilhetes, mas também na gestão da competição com discussões ao nível dos diretores desportivos e executivos, na reunião dos Board of Governors (proprietários das organizações) pra perceber como se pode melhorar a competição.

 

Considero que em Portugal existem pessoas de grande qualidade a diversos níveis, mas para chegarmos a outro patamar precisamos de fazer parte deste Basquetebol Global. Para que isso aconteça, o basquetebol terá de ser gerido forçosamente como parte integrante da indústria desportiva e por quem conheça o jogo de basquetebol a diversos níveis.

 

António Pereira, é licenciado em Comunicação Organizacional com as especialidades de Comunicação de Marketing e Comunicação de Relações Públicas, Mestre em Marketing e Comunicação.

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