Predadores(as) sexuais (II) (artigo de Armando Neves dos Inocentes, 14)

Espaço Universidade 03-07-2019 23:35
Por Armando Neves dos Inocentes

Em Julho de 2017, o treinador de futsal Humberto Cunha foi condenado pelo tribunal de S. João Novo, no Porto, a 10 anos de prisão por abusar sexualmente de quatro menores. Em Dezembro desse mesmo ano na Polónia vieram a lume alguns casos de abusos sexuais a várias ciclistas, sendo que algumas eram alegadamente menores.

 

A Confederação Brasileira de Basquetebol em Cadeira de Rodas afastou em 2018 três atletas apuradas para a selecção nacional - Lia Martins, Denise Eusébio e Geisa Vieira - por terem cometido um suposto abuso sexual contra uma colega de equipa. O episódio teria ocorrido em fevereiro de 2017, e, de acordo com o relato da vítima, após um treino da equipa Gladiadoras / Grupo de Ajuda dos Amigos Deficientes de Indaiatuba, do interior de São Paulo, Lia, Denise, Geisa e Gracielle Silva, então coordenadora do clube, usaram um pénis de borracha para abusar sexualmente da colega, que foi retirada à força de sua cadeira de rodas. O ataque foi registrado em imagens que circularam por grupos de Whatsapp. Gracielle viria a cometer suicídio no final de maio de 2018.

 

Em Janeiro de 2018 Larry Nassar, antigo médico da selecção de ginástica olímpica dos Estados Unidos, de 54 anos, foi condenado a 175 anos de prisão por abusos sexuais cometidos contra jovens ginastas. Barry Bennell, que treinou as equipas jovens do Manchester City e do Stoke City, de 64 anos, foi condenado a 31 anos de prisão por violação e abuso sexual de jovens jogadores em Liverpool, também na mesma altura.

 

Em Março de 2018 o escândalo na Argentina: jovens das equipas de formação do Independentiente prostituíam-se a troco de botas e de calções – seis indivíduos identificados e um árbitro de futebol juntamente com o seu advogado detidos – num caso que poderá ter afectado seis clubes da primeira divisão.

 

Em 2019, Khalida Popal, ex-capitã da selecção feminina afegã de futebol, vem a terreiro reforçar aquilo que recai sobre Keramuddin Keram, o responsável máximo do futebol no Afeganistão, acusado de ter violado e agredido várias jogadoras da equipa feminina, e afirma que o escândalo envolve mais pessoas da federação, incluindo treinadores.

 

Vitor Rosa num excelente artigo aqui mesmo publicado sob o título “A violência sexual no desporto” (1) fala-nos das vulnerabilidades existentes no desporto, dizendo-nos que “a vulnerabilidade remete-nos para a fragilidade da existência humana.” Mas esta vulnerabilidade também nos remete exactamente para o lado contrário… o lado dos que se aproveitam dessa vulnerabilidade. E aqui teremos de distinguir dois conceitos: perversão e perversidade. Ambos designam uma anomalia no comportamento, mas é preciso não os confundir porque não têm o mesmo sentido: a perversão é um desvio comportamental de carácter sexual. A perversidade é igualmente um desvio comportamental mas de carácter mais intelectualizado: pressupõe um atropelamento dos valores morais e define-se como uma prevaricação em relação a normas sociais estabelecidas. Esta última é consciente e nela se incluem pelo menos a violência (física, gestual, psicológica, verbal) na prática desportiva, a corrupção, a fraude, a utilização de meios dopantes, o treino intensivo precoce (nome pomposo para camuflar a exploração infantil) e a morbilidade entre outras. Temos estado a tratar de perversões no desporto, mas quando Afonso de Melo e Rogério Azevedo (2) afirmam que na antiga RDA, nos anos 80 e 90, imensas vezes foi injectada determinada quantidade de hélio no intestino grosso de vários nadadores abordam uma perversidade.

 

É o desporto um campo propício às violências sexuais? Declaradamente sim! Tal como muitas outras actividades embora isso não seja justificação para que elas aconteçam.

 

A relação treinador-desportista leva a uma submissão à autoridade que é totalmente aceite e consciencializada pelos desportistas. Aquele que treina é o que ensina, é o que faz progredir, é o que seleciona este ou aquele para determinada competição… Entre pares, a dominação masculina é um factor omnipresente – índice de uma cultura de virilidade machista. Um(a) competidor(a) de alto nível aprende a tentar superar (ou a controlar) a dor, quer seja física ou psicológica. Uma vítima de violência sexual é capaz de “ignorar” a situação e concentrar-se apenas nos seus objectivos desportivos fechando-se para não comprometer os mesmos: se denuncia, a sua carreira estará acabada. Ou também por medo, ou por vergonha…

 

No desporto existe uma relação muito específica com o corpo. É óbvio que um(uma) treinador(a) terá um contato físico com seu(sua) atleta para exemplificar as tarefas, para corrigir gestos ou posições, para ajudá-lo(la) a alongar os músculos, avaliar o pulso, ver se ele(ela) solicita bem cadeias musculares...

 

É óbvio, como nos diz Sidónio Serpa (3), que o facto de o desportista estar habituado a correr riscos na sua prática desportiva lhe transmite uma sensação de invencibilidade, dentro e fora do campo (daí os tantos casos de violação sexual por parte de jogadores fora do contexto desportivo – referimo-nos apenas aos condenados em tribunal, pois também há os absolvidos –, alguns dos quais ainda andam pela justiça)… mas isso não obriga o desporto – ou antes, qualquer um dos agentes desportivos – a ser perverso… nem o autorizam! Isso não obriga, nem autoriza, qualquer agente desportivo a ser um(uma) predador(a) sexual!

 

Vítor Rosa, no artigo citado, propõe que o Governo Português, através do Instituto Português do Desporto e Juventude, promova um inquérito nacional sobre os abusos sexuais no meio desportivo… talvez seja mais de propor que o mesmo seja desenvolvido pela Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto… pois não interessa só conhecer a situação mas essencialmente instalarem-se medidas de prevenção.

 

Será assim tão vasta a predominância de comportamentos de violência sexual envolvendo agentes desportivos que justifique esse investimento? Na falta de estudos, não sabemos se é vasta ou não, mas o investimento justifica-se nem que seja só para se evitar mais um caso. Necessitamos desses estudos “para explicar essas realidades, há muito ocultadas ou subestimadas por agentes desportivos, não como «abusos lamentáveis» ou «excessos deploráveis», mas como as próprias consequências da competição desportiva globalizada” como nos diz Jean-Marie Brohm (4).

 

Sim, porque como disse Jacques Personne (5) em 1991 (repare-se que já lá vão 28 anos), nenhuma medalha vale a saúde de uma criança. E não vale a saúde nem física nem psíquica.

 

 

(1) Vítor Rosa, 2019, disponível em Espaço Universidade, «A Bola» on-line, 26.03.2019.

(2) Afonso de Melo & Rogério Azevedo, 2004, “Doping : a triste vida do super-homem”. Lisboa: Pub. Dom Quixote.

(3) Sidónio Serpa, N. Faria, P. Marcolino, C. Reis & S. Ramadas, 2002, “Dopagem e Psicologia”. Lisboa: CEFD.

(4) Jean-Marie Brohm, 2017, “Théorie Critique du Sport”. Alboussière: QS? Éditions.

(5) Jacques Personne, 1991, “Nenhuma Medalha Vale a Saúde de uma Criança”. Lisboa: Livros Horizonte.

 

 

 

Armando Neves dos Inocentes é licenciado em Ensino de Educação Física, Mestre em Gestão da Formação Desportiva, cinto negro 5º dan de karate-do e treinador de Grau IV.

 

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