Coreia do Sul versus Coreia do Norte (artigo de José Augusto Santos, 19)

Espaço Universidade 03-07-2019 20:48
Por José Augusto Santos

Para os que não sabem, mas deviam saber, estive cerca de dois anos na Coreia do Sul como adjunto do Humberto Coelho, na seleção nacional de futebol. Foram os tempos mais calmos e relaxados que vivi na minha longa vida profissional. Ser técnico de uma seleção de futebol, mesmo que se trabalhe muito, é um paraíso comparado com o inferno quotidiano que o treino de uma equipa de clube de futebol consubstancia.

 

Por isso, naqueles dois anos deu para muita coisa além do trabalho. Por exemplo, viajar e ler muito. Interessou-me, sobretudo, estudar a realidade sociológica da Coreia do Sul tendo o desporto como referência. Mais ainda, tentei, através do desporto, aquilatar as flutuações relacionais entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. Fundamentei o meu labor heurístico em fontes tão diversas como filmes, livros, conversas e principalmente nos jornais diários escritos em inglês. E assim cheguei a algumas conclusões interessantes.

 

A análise do desporto na península da Coreia revela ainda os reflexos emergentes da guerra fratricida que entre 1950-1953 destruiu por completo os dois países. Podemos afirmar que o desporto vai aproximando o que os interesses políticos e militares tendem a afastar. O desporto, como arma política, serve como pano de fundo a algumas das esporádicas relações que estes dois países mantêm.

 

No entanto, paralelamente à dificuldade de resolver as diatribes sociopolíticas entre Sul e Norte, surge a dificuldade interna de cada país resolver as suas contradições históricas perpassadas de sangue e intolerância. Ainda hoje, custam a ultrapassar as memórias do massacre de Kwangju, em 18 de maio de 1980, quando o exército sul-coreano matou milhares de pessoas, principalmente estudantes, que se manifestavam contra o governo do ex-presidente Chun Doo-hwan, clamando contra a tutela dos USA e tocados por um certo sentimento de rendição sentimental à Coreia do Norte. Ainda hoje, veem-se frequentes manifestações de estudantes que, numa atitude naif e inconsciente, destilam ódio aos americanos e tecem loas ao regime comunista de Pyongyang.

 

Para a história fica que Chun Doo-hwan, após ter matado milhares, foi recebido com pompa e circunstância por Ronald Reagan. Coisas da geoestratégia e a suposição que os milhares mortos eram agentes disfarçados de Pyongyang.

A relação entre as duas Coreias assume por vezes um carácter trágico-cómico. Não raras vezes, disputas territoriais de águas originam confrontos sangrentos com vítimas letais de ambos os lados. Contudo, basta um mau ano agrícola, situação recorrente na Coreia do Norte, para de imediato os norte-coreanos pedirem, quase exigindo, o apoio do Sul que, de imediato abre a mão aos seus irmãos comunistas mitigando-lhes a fome endémica. São milhares de toneladas de leite, trigo e fertilizantes que todos os anos chegam a Pyongyang em dádivas recorrentes que visam preparar a reunificação.

 

As relações entre estes países irmãos apresentam contornos interessantes. Em 2000, o presidente da Coreia do Sul, Kim Dae-Jung, foi agraciado com o prémio Nobel da Paz pela realização da primeira cimeira inter Coreias. Só que essa tentativa de aproximação foi manchada por um escândalo político. Kim Jong-il só aceitou a cimeira após ter recebido 150 milhões de dólares. Este cash-for-summit foi pago usando um dos ramos da Hyundai que sempre teve facilidades de relação com o Norte, já que o fundador do conglomerado nasceu na Coreia comunista e ficou sempre afetivamente preso à sua terra natal. Este processo levou à prisão do chairman da Hyundai e ao suicídio de Chung Ju Yung, filho do fundador e profundamente relacionado com o processo, que em 2003 se lançou de alto do prédio, sede da firma.

 

Na sequência dessa cimeira algumas situações anedóticas se verificaram. A Coreia do Norte tem um programa de propaganda interno pleno de sofisticação. Criaram grupos de jovens controleiros que zelam pela manutenção da pureza revolucionária. Algumas desses jovens, no caso mulheres, a esquadra do aplauso (cheering squad) ao passarem por um cartaz que mostra Kim Jong-il a cumprimentar o presidente da Coreia do Sul, Kim Dae-jung, saíram do autocarro e arrancaram o cartaz considerando-o blasfemo. Aquilo que foi colocado para atenuar o clima de crispação entre as duas Coreias, foi considerado pelas jovens como atentório da dignidade do seu presidente que é quase divinizado pelos prosélitos do regime.

 

O desporto tem tentado estabelecer pontes relacionais entre os irmãos desavindos, mas a beligerância está atrás da porta. Em 29 de Junho de 2002, navios das armadas dos dois países abriram fogo, tendo morrido 6 marinheiros do Sul; o Norte não referiu as baixas. A batalha aconteceu nos finais do Campeonato do Mundo de Futebol, um momento de forte promoção internacional da Coreia do Sul que atingiu as meias-finais, feito extraordinário para o então incipiente futebol asiático. Analistas militares afirmam que o confronto naval foi uma atitude premeditada por parte da Coreia do Norte para desviar as atenções do sucesso internacional do vizinho do Sul. 

 

Em setembro de 1988, Seoul hospedou os 28os Jogos Olímpicos que surgem como resultante natural do milagre económico que levantou a Coreia do Sul das cinzas da destruição provocada pela fratricida guerra de 1950-53. Estes JO foram um sucesso o que provocou os ciúmes políticos dos “irmãos” do Norte. Pyongyang no final dos anos 80 ainda alimentava a ilusão de competir internacional com o Sul. Por breves momentos Pyongyang teve esperanças de boicotar os JO de Seoul. Esse desiderato chegou ao ponto de justificar a utilização de táticas terroristas. Em 1987, a Coreia do Norte, no sentido de assustar os países estrangeiros, fez rebentar uma bomba num avião sul-coreano matando 115 pessoas. De igual forma tentou mobilizar os países “irmãos” comunistas para boicotar os jogos; isso também não resultou.

 

Assim, à Coreia do Norte não lhe restava outra solução que não fosse organizar um evento internacional que emulasse com os JO do país “irmão”, o que era difícil pois os JO não têm concorrente em termos de popularidade e prestígio internacional. No entanto, os norte-coreanos encontraram um substituto plausível – o Festival Mundial da Juventude e Estudantes que os regimes da área comunista organizavam periodicamente, fortemente subsidiados por Moscovo. Uma espécie de Internacional da Juventude. O programa destes festivais incluía discussões políticas, concertos de rock, competições artísticas. É lógico que todos os conteúdos tinham que ter um fundo político cujo objetivo era simultaneamente zurzir no imperialismo norte-americano e exaltar as virtudes dos regimes comunistas. Pyongyang ganhou o direito de organizar esse festival em 1989. Mas, nos finais dos anos 80, os regimes comunistas, com crescidas dificuldades económicas, tinham perdido o zelo panfletário e não estavam dispostos a gastar elevadas somas nesses exercícios de propaganda.

 

Embora, sem grande motivação internacional, o festival foi um evento de grandes gastos no sentido de ultrapassar os JO de Seoul. Isso correspondeu a um esforço económico nacional imenso, sabendo-se que o PIB norte-coreano era, na altura, um décimo do da Coreia do Sul. Foi esticar a corda e gastar os escassos recursos que dispunham. Foram construídos caros complexos de apartamentos para alojar os participantes, as rações de alimentos do povo foram reduzidas em 10% para alimentar o festival. Uma série de despesas supérfluas, como a compra de 1.000 Mercedes para transportar os participantes acompanhou o início de alguns ambiciosos projetos de construção para impressionar das delegações estrangeiras, como a construção de um hotel gigantesco que não foi acabado a tempo e continua ainda por acabar. As exigências de segurança interna aumentaram os gastos. As autoridades queriam que o contacto entre o povo local e os estrangeiros fosse reduzido ao mínimo o que originava custos adicionais. Acresce que algumas delegações de países escandinavos começaram a questionar acerca dos direitos humanos na China e Coreia do Norte.

 

De uma forma geral o festival foi uma grande e pomposa manifestação deliberadamente tendenciada para emular com os JO de Seoul. No aspeto humano, pôde-se, malgrado as restrições impostas pelas autoridades, assistir ao contacto entre o povo e estrangeiros o que permitiu destruir alguns dos estereótipos impostos pela propaganda oficial e permitiu ao povo norte-coreano o contacto com as modas e tendências artísticas ocidentais. De igual forma, a música rock, anteriormente banida do panorama social norte-coreano como símbolo da decadência ocidental e das intenções agressoras norte-americanas, teve os seus momentos altos nas ruas de Pyongyang.

 

O festival teve a presença de uma estudante sul-coreana, Im Su-gyng, que contrariando a proibição oficial do seu país foi dar ao norte o que eles consideraram uma vitória política. Os estudantes, sempre eles, a assumirem posições de generosidade mesmo que eivadas de ingénua fé nos amanhãs que cantam.

 

Desporto e política, na dialógica pouco dialogante entre as duas Coreias, são formas atenuadas e por vezes manifestas de guerra. A Coreia do Norte exige garantias de seguranca para o regime e ajuda económica em troca do abandono do seu programa de armamento nuclear. Depois de obter o que quer não abandona, antes intensifica o seu programa nuclear. Os do Sul esperam, debalde, que a atitude mude. Parece, por incrível que pareça, que o alaranjado Trump está a ser mais eficaz que os seus antecessores na contenção nuclear da Coreia do Norte. Esperemos para ver.

 

As crises relacionais recorrentes entre as duas Coreias têm as origens mais incríveis. Uma delas, em 1997, que originou inclusive a paragem temporária da construção do reactor nuclear “light-water”, um projecto importantíssimo para a economia do Coreia do Norte, teve origem num motivo mesquinho, mas que para os comunistas foi crime de “lesa-magestade”. O que aconteceu na realidade? Um número do jornal Rodong Sinmun foi encontrado torcido e amarrotado no caixote do lixo no dormitório dos engenheiros que trabalhavam no reactor nuclear. E depois? Podemos nós perguntar, aceitando que esse é o fim lógico dos jornais lidos. Mas não, na Coreia do Norte a atitude para com os jornais é quase de idolatria, pelo menos oficialmente, já que as páginas frontais apresentam, usualmente, a fronha “sagrada” dos grandes líderes Kim Il-sung e Kim Jong-il. Além do mais o Rodong Sinmun é um jornal especial, publicado pelo Comité Central do Partido do Trabalhadores, e cada publicação tem de ter o imprimatur do partido e do líder.

 

O Rodong Sinmun foi criado em 1946 e, durante os primeiros anos, foi dirigido por uma série de jornalistas soviéticos de origem coreana. A lógica editorial era idêntica da de todos os jornais de partido comunista. Os editoriais não assinados constituíam fonte de doutrina para os leitores já que eram considerados como a voz do partido. Normalmente estes jornais são “chatos como a potassa”, até para os próprios defensores do sistema totalitário, mas parece que o Rodong Sinmun passa das marcas. Os editores do jornal esclarecem o seu staff que a missão do jornal não é entreter, informar ou distrair as massas, mas sim educá-las. O Rodong Sinmun tem usualmente 6 páginas; as primeiras quatro são matéria oficial contendo relatos das acções “heróicas” dos trabalhadores, agricultores e soldados norte-coreanos. Vários textos afiançam a grandeza e sabedoria dos líderes; a quinta página é preenchida com relatos da vida infernal na Coreia do Sul, e da miséria existencial dos irmãos do Sul que vivem debaixo da patorra colonial dos States (e.g. relatos de crianças pedindo esmola para comer, estudantes vendendo o seu sangue para pagar as propinas, etc.). A última página é preenchida com notícias internacionais. Estou a ver o tipo de notícias internacionais. Faz-me lembrar aquela anedota acerca de um hipotético torneio USA-URSS em Atletismo. Os américas ganharam. O relato do Pravda afirmava: “Os imperialistas americanos ficaram em penúltimo lugar, os nossos gloriosos atletas obtiveram um honroso segundo lugar”.

 

O jornal também tem lugar para momentos de auto-crítica e crítica de algumas falhas do sistema que responsabilizam alguns, mas somente após o beneplácito dos editores. Ser criticado no jornal corresponde a ficar marcado com o estigma da incompetência e pode fazer perigar uma carreira profissional ou ter resultados ainda piores, como por exemplo ir passar “férias para um campo de trabalho”.

 

O que aconteceu aos engenheiros que amarrotaram o jornal? Retomaram o trabalho prometendo que iriam tratar o Rodong Sinmun com mais respeito? O que teria acontecido se os engeheiros tivessem limpado o cu às fuças do “grande educador”?

A esta hora estaríamos, talvez, a colher os cacos de uma guerra nuclear entre as duas Coreias.

As relações entre as duas Coreias foram quase sempre marcadas pela lógica do golpe e contra-golpe.

Em 1966, durante o campeonato do mundo de futebol, a Coreia do Norte, vencendo a Itália atingiu, meritoriamente, os quartos-de-final. Feito inédito até então para qualquer país asiático o que arrastou imenso prestígio para o já reclusivo país governado monarquicamente por Kim Il-sung. Para a história fica que a Coreia do Norte só soçobrou perante a equipa-maravilha portuguesa de Eusébio et al., após um jogo dramático que terminou com a vitória lusa por 5-3 depois de ter estado a perder por 0-3 ao intervalo. Esse jogo marcou um dos momentos mais altos da nossa história desportiva e catapultou Eusébio para o areópago dos heróis do desporto internacional.

 

A Coreia do Norte conseguiu, com esse feito, grande proeminência internacional o que provocou um estado de “ciumeira galopante” na Coreia do Sul. Os anos sessenta caracterizaram-se por uma luta incessante entre o Norte comunista e o Sul capitalista, valendo qualquer situação ou oportunidade para exprimir a superioridade de um lado sobre o outro. Nesse cadinho efervescente de animosidade social e política era óbvio que o Sul tentaria a resposta a esse êxito marcante do futebol norte-coreano.

 

Que fazer? A célebre pergunta leninista foi respondida de forma firme e eficaz pelo poder político do Sul. O temível braço secreto da ditadura militar então vigente – a KCIA (Korean Central Intelligence Agency), famosa pela “arte” de torturar os dissidentes políticos, ficou encarregada de organizar a resposta futebolística do Sul à repentina emergência do Norte. Interessante esta responsabilização dos serviços secretos pela organização de uma equipa de futebol, o que demonstra a importância política desta modalidade desportiva.

 

Assim, a KCIA pegou nos vinte melhores jogadores da nação visando não só suplantar o Norte como transformar a Coreia do Sul no baluarte supremo do futebol asiático, posição que foi conseguida com o quarto lugar obtido no Campeonato do Mundo de 2002. É óbvio que a organização conjunta desse campeonato entre a Coreia do Sul e o Japão ajudou a atingir esse desiderato, como ficou demonstrado pelos “ventos” favoráveis que em algumas ocasiões sopraram a favor da Coreia do Sul.

 

A equipa então formada não era um simples agrupamento de desportistas, mas um verdadeiro “comando” político que recebeu, inclusivé, um nome de guerra – Yangji que significa “terra iluminada pelo sol”. As palavras mobilizadoras tinham um forte cunho bélico que anunciavam uma verdadeira guerra contra o Norte, em que as armas e baionetas eram substituídas por uma bola e um campo relvado. Durante três anos os jogadores foram literalmente sequestrados pela KCIA, sujeitos a treino intenso e cuidados médico-nutricionais especiais entre os quais se salienta a ingestão de vitaminas expressamente compradas nos USA e transfusões de soro fisiológico durante a noite nos momentos de maior fadiga. Os jogadores foram recompensados com robustos ordenados, prendas variadas outorgadas pelo chefe da polícia política e foi-lhes considerada como prestação do serviço militar obrigatório, que era então de três anos, a estadia na seleção nacional.

 

Eles diziam que faziam tudo por nós...desde que ganhássemos jogos, afirma Cho Jong-soo, um dos defesas da equipa hoje com 59 anos de idade. Os jogadores eram mimados com várias benesses, mas era-lhes exigido uma dádiva absoluta à equipa. Durante as raras folgas que tinham eram seguidos por agentes secretos da KCIA, descobrindo-se facilmente qualquer atitude menos consentânea com a nobre missão patriótica que lhes estava incumbida, como por exemplo beber um copo com os amigos.

 

A prática de parada e resposta em relação ao Norte também marcou a preparação da equipa. Quando os homens da KCIA souberam que a Coreia do Norte tinha enviado a sua equipa para fazer estágios na União Soviética e Jugoslávia logo providenciaram no sentido de fazer estagiar a sua equipa em vários países da Europa Ocidental. Só duma vez ficaram 105 dias fora do país.

 

O presidente Park Chung-hee, que tomou o poder através de um golpe militar em 1961 e que dirigiu o país com mão de aço durante 18 anos, manifestou publicamente um claro apoio à equipa tentando “matar dois coelhos com uma só cajadada”, visando por um lado cimentar o fervor nacionalista contra o comunismo e por outro criar uma manobra de diversão em relação à sua direcção autoritária. Parece que a tríade Fado-Fátima-Futebol que esteve na base da estruturação da esfera noológica lusitana durante muitos anos transformou-se na Coreia do Sul na díade Futebol e Autoridade. Coitado do futebol, sempre aproveitado como um dos “ópios do povo” quando é simplesmente um jogo com uma bola que dá momentos de sonho e evasão tanto ao mais comum dos mortais como ao intelectual mais evoluído. A culpa não é do futebol – é dos homens.

 

José Augusto Santos é Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

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