Conheça os vencedores do concurso literário ‘A Ética na Vida e no Desporto’

Ética no Desporto 26-06-2019 19:08
Por Redação

Encontra-se concluída a VII edição do Concurso ‘A Ética na Vida e no Desporto’ (2018/2019), concurso literário levado a cabo pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), através do Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED), com o apoio do jornal A BOLA.

 

Foram distinguidos os seguintes textos:

 

Textos provenientes de estabelecimentos de ensino público, particular e cooperativo

 

1º Prémio: “O dérbi entre ser e viver”, de Marta Martins Carilho (Escola Secundária José Gomes Ferreira)

 

O dérbi entre ser e viver

 

Todos somos atletas. De uma maneira ou de outra, todos saltamos barreiras e corremos à procura de melhores oportunidades. Dia após dia, atamos firmemente os sapatos e entramos em campo, com um suspiro profundo que nos enche de coragem. Passam-se horas, dias, meses. O campeonato continua. Às vezes, sentimo-nos vencedores, exibimos um sorriso confiante e destemido, de quem pensa que a partida está ganha. Outras, somos surpreendidos por adversários mais fortes, remates que nos escapam e arruínam as expectativas que até aí tínhamos criado.  Somos invadidos por sensações hostis, a vontade de nos desfazermos dos sapatos, que agora nos incomodam como se restringissem a nossa liberdade; a urgência de desligar os holofotes que iluminam as linhas de campo, estas, que agora nos confundem, como se ditassem uma série de regras às quais deixámos de saber obedecer. E, nesses dias, o campo parece mais longo do que nunca. Os rostos que nos rodeiam são agora desconhecidos. A equipa, a interajuda, o ambiente familiar que apoiara cada uma das nossas jogadas, esmoreceu. No chão, veem-se marcas de respeito e uma braçadeira abandonada. Nas bancadas, os aplausos pararam. O tiquetaque dos ponteiros dos relógios volta a ser audível, com o pousar das raquetes. A coreografia perde-se na sua essência, os passos dos corredores cessam. O arco parte-se, a flecha cai. Os cestos são engolidos pelo campo e os trampolins deixam de fazer saltar. As rodas das bicicletas prendem-se, inibindo o movimento. Contudo, os holofotes continuam ligados. E, com eles, estamos nós, num estádio sem vida. As nossas mãos tremem, sem se atreverem a desfazer o laço dos atacadores.  Momentos antes, fora o que desejáramos. Queríamos ter jogado o nosso próprio jogo, coordenado as luzes e o campo. Queríamos ter deixado de passar a bola e esquecido os cartões erguidos. Queríamos ter libertado a nossa angústia, enfrentado a raiva que nos oprimia, sobrepondo-nos à mesma. Mas, agora, tudo desaparecera. A agressividade que nos consumira já não estava presente. Mas, levara com ela o nosso futuro. A fúria passageira deixara marcas permanentes. Porque, agora, fora substituída por arrependimento. De novo, os sapatos já não nos incomodavam, e tínhamos uma enorme vontade de correr. Mas estávamos sozinhos. A magia perdera-se. Não havia vitórias, nem derrotas. Não havia equipas, nem adversários. Não havia adeptos. Não havia regras. Não havia nada, senão a memória de um atleta que deixara de o ser. Todos somos atletas, até ao momento em que deixamos de nos comportar como tal. Perde-se a ética, perde-se o sentido de correr. Perde-se o desporto e a magia de o viver.

 

2º Prémio: “A vida da ética e do desporto”, de Inês Afonso da Costa Macedo (Agrupamento de Escolas de Paços de Arcos)

 

A Vida da Ética e do Desporto

 

Fernâncio era um rapaz com o hábito de passear, e numa manhã estava ele a percorrer o bosque quando viu uma luz reluzente e decidiu ver o que era. Era nada mais nada menos que uma menina muito bonita isolada no meio do bosque com um ar muito desolado e muito triste, mais conhecida por Ética.

O menino Fernâncio nem queria acreditar no que se sucedia, e ao vê-la naquele estado de sofrimento e solidão resolveu convidá-la para beber um café no “Dopping”, que era o café ao lado de sua casa. Foi aí que a Ética explicou que a sua relação com o Desporto ia de mal a pior, pois sentia-se muito só por o desporto não ter tempo para ela devido às competições.

O Desporto, depois de toda a confusão com a Ética, decidiu aliviar a cabeça e sair de casa, quando dá de caras com a sua amada a beber um café com um estranho. Ele ficou demasiado frustrado e decidiu correr a maratona para aliviar o stress. Como ele sentia saudades da Ética, a sua prova nunca lhe poderia ter corrido tão mal como naquele dia escuro e sombrio levando-o assim a agir de uma forma excessivamente agressiva e incorreta com os seus adversários.

No dia seguinte, logo pela manhã, a Ética acordou e sentiu-se culpada por ter deixado o Desporto sozinho e ter ido sair com o Fernâncio sem nenhuma explicação. Com esperanças de resolver a situação, decidiu ligar-lhe a convidálo para uma partida de bingo juntamente com uma chávena de chá de camomila.

Esquecendo por um bocado o Fernâncio, a Ética e o Desporto passaram uma tarde bastante agradável naquele dia brilhante e caloroso, o mesmo não se passando com o Fernâncio, pois estava com ciúmes. Muito raivoso, Fernâncio decidiu engendrar vários planos com o objetivo de acabar com a cumplicidade e o amor entre eles.

Podemos dizer que ele tentou de tudo, a começar por inventar uma grave traição entre a Ética e o Ecstasy (que era um dos piores inimigos do Desporto), mas não ficou por aí. Meses mais tarde, o Fernâncio acabou por enlouquecer ao tentar separá-los até que eles resolveram ter uma conversa séria com ele.

Juntaram-se todos no “Dopping”, quando a Ética e o Desporto explicaram a Fernâncio que o amor entre eles era mais forte do que todos os planos engendrados por ele, que por mais desavenças que houvesse eles são fundamentais na vida um do outro. Fernâncio finalmente percebeu que não seria correto terminar com a relação deles, pois a Ética e Desporto são muito para além de um casal, para além de se amarem, eles valorizam muito a amizade, o respeito pelo próximo, a responsabilidade e a interajuda, entre muitos outros valores, com o objetivo de passar a mensagem para a sociedade.

 

3º Prémio: “Preso à pista”, de Gonçalo Ferreira da Rocha (Escola Profissional do Centro Juvenil de Campanhã)

 

Preso à pista

 

O meu nome. O meu nome numa insignificante capa de jornal. Letras maiúsculas. É apenas papel e, ainda assim, sou destaque. Por entre as notícias políticas e desportivas e as nobres sátiras socias, está o meu nome e o meu feito «ouro para Portugal». Um leitor reformado debruça-se sobre uma mesa onde se quietavam aquelas trinta espessas e ásperas páginas de jornal. Arrastou a cadeira, o que fez com que segurasse as atenções em consequência daquele barulho azucrinante e inoportuno, e eu, num pleonasmo, fitei-o com olhos de ver. Articulava aquela informação com afago, daí ter apagado o cigarro que sustinha na mão para poder suportar aquele jornal com as duas «recorde nacional para o atleta», estava escrito em letras intermédias que salientava ainda mais o título da sinopse. E o emérito não pressupunha, era algo que cabia a mim e apenas a mim saber. Não havia vencido a competição por mérito, mas com o auxílio de substâncias que proporcionaram ao meu corpo uma vantagem desonesta sobre os outros atletas. O estádio estava cheio e alguns adeptos permaneciam de pé pelos três anéis da arena. O sol ofuscava-me a visão para a pista e aquecia-me o sangue. Nele sentia a adrenalina dos estimulantes e outros diuréticos que atuavam em prol da minha condição física. Sentia-me bem, uma final europeia e tinha os músculos a tremular, prontos para os últimos quatrocentos metros. Ouviu-se o som do cartucho. Até à entrada para a primeira curva, unicamente via os meus adversários pelas costas. Sentia, naquele momento, que nada me traria a medalha, mas o meu corpo opôs-se à ideia e começou a contornar quem ia na frente. Milhares de bandeiras espalhadas pelo estádio e eu, à procura de uma que soubesse a casa. Reta final e seguro um desrespeito dentro de mim. Tento encontrar misericórdia nos olhos de quem me persegue, de quem me vê a cortar a meta no lugar dianteiro. Tento encontrar misericórdia nos olhos de quem me vê no lugar mais alto do pódio. Faço parte, agora, de uma fraude desportiva e sou exemplo de que o homem sempre supera a máquina.

 

Menção Honrosa:

 

“A Jogada”, de Gonçalo Carneiro e Costa (Colégio Casa Mãe)

 

A Jogada

 

Faltam dois minutos para o fim da partida. Foi assinalado um penálti que, sendo marcado, dará a vitória à sua equipa no jogo e na Champions. Para ele será a Bota de Ouro e, provavelmente, a Bola de Ouro. Tudo o que sempre sonhou. Tudo o que qualquer jogador pode sonhar.   Enquanto se posiciona, olha para a baliza. É um momento de concentração. Aprendeu que aqui tem de esvaziar a mente, procurar focar-se, libertar-se da pressão e… acertar! Porém, o seu pensamento voa para um tempo distante. De repente, o relvado torna-se o campo de terra batida onde jogava com os joelhos esfolados; as bancadas eram os prédios do bairro e os gritos dos adeptos soavam aos gritos das mães a chamarem para casa. Pensou no longo caminho que percorrera. Lembrou-se do primeiro clube da primeira liga em que jogou, da cara do treinador que os fazia treinar duas vezes por dia sob sol ardente ou frio gélido. As suas palavras duras entoaram-lhe na cabeça como um sino: “não vais ser nada se não resistires!”. Ao longo da sua vida, estas palavras foram o seu mantra. Mais do que ao sofrimento físico, frequentemente, teve de resistir às tentações do meio. Várias vezes, foram-lhe oferecidos comprimidos que lhe tirariam a dor e lhe dariam mais resistência. Inúmeras vezes lhe disseram que era melhor falhar a finalização, vezes sem conta lhe propuseram um prémio para perder. Recusou sempre!!! “Não vais ser nada se não resistires.” Esta resistência foi muito além da força física. Esta não se ganhava no ginásio, mas com a verticalidade de caráter. Aquele treinador mau-feitio, que passava a vida a torturá-lo, tinha-lhe ensinado que o desporto tem duas vertentes: a física e a moral. A primeira de nada valia sem a segunda. Não há vitória sem ética. Não há glória sem merecimento. Ele citava o poeta: “Quem quer passar além do Bojador tem de passar além da dor” e olhava para os jogadores com um olhar desiludido, como se soubesse que a maior parte não o conseguia entender e nunca passaria o Bojador.  Aprender a suportar a dor é mais fácil quando se tem um propósito maior. O seu era conquistar a glória plenamente, era merecer o título de melhor jogador do mundo, era ganhar sabendo que tinha sempre jogado limpo, que tinha resistido e que agora era tudo. O apito do árbitro soou. Ganhou balanço e chutou como se voltasse a jogar no campo de terra batida no bairro. Afinal, embora estivesse a milhares de quilómetros de casa, ganhasse um salário milionário e fosse um ídolo do desporto, continuava a ser ele, o menino que só queria jogar à bola. Marcou!!!

 

“A caminhada da vida”, de Mafalda Bonacho Anaia (Escola Secundária José Gomes Ferreira)

 

A caminhada da vida

 

 Chegou o momento de arregalar os olhos e começar, deixar para trás tudo o que nos faz sentir seguros e ir à descoberta. Partimos para a caminhada, ou corrida, que é a vida. Partimos para o desafio mais difícil e, ao mesmo tempo, mais reconfortante que vamos experimentar – a vida. Achamos que sabemos o que temos de dar, e aquilo que contamos receber.  Damos o primeiro passo em frente, quando mostramos respeito pelo outro sem olhar a mágoas passadas, cores diferentes ou sabores distintos, gostos contrários e, até mesmo, clubes longínquos. No final de contas, somos todos iguais. Seres humanos com a mesma origem, apenas com escolhas, aparentemente, inversas e com caminhos, possivelmente, diferentes. Por vezes, esse primeiro passo não é bem recebido e parece que estamos sozinhos a tentar construir o bem. E como devemos nós atuar e reagir perante esta situação? Seguiremos a dura caminhada, manteremos os nossos princípios com persistência. E é nessa altura que vivemos um segundo momento, ou segundo passo – o da resiliência. Não é fácil quando tentamos seguir a nossa caminhada e não recebemos nada em troca, ou sequer ajuda. Sabemos que temos de ser perseverantes! Não podemos parar ou recuar por não seguirmos sempre em linha reta. Respirar fundo, olhar para toda a distância que percorremos, para o caminho que ainda nos falta percorrer, e confiar no que acreditamos. É assim que ganhamos força e energia para continuar, para chegar ao destino. O terceiro e último passo da nossa caminhada da vida é o reconhecimento – a meta. Enquanto caminhamos não estamos sozinhos, e é preciso reconhecer que não se pode ser sempre o primeiro, que nem sempre somos os melhores, e que isso não nos torna piores ou inferiores a ninguém. Se estamos nesta caminhada é porque merecemos, e não se vive esta experiência da vida com o intuito de ser o primeiro ou ganhar. Aproveitar esta prova, olhar à volta e sorrir, tentar ser a nossa melhor versão deverão ser os nossos motores diários. O objetivo é perceber que o mais importante deste desafio reside em todo o processo: da chegada à tão esperada meta. E só conseguimos fazer a caminhada com estes três passos: o respeito, a perseverança e o reconhecimento. Alguns até os podem definir numa só palavra, a ética, mas, para mim, não se trata só disso. Definem a ética como um conjunto de regras e limites morais que preservam a civilização na vida, no desporto, mas eu quero ir mais longe. Para mim, é um modo de vida, trata-se de viver honestamente, mas de uma forma verdadeira e natural, sabendo interpretar a nossa essência, os nossos sonhos e ambições. Consiste em sermos nós mesmos sem humilhar ninguém, porque a chegada à meta da vida terá muito mais valor se não formos sozinhos, e isso só acontecerá se respeitarmos, se formos perseverantes e se reconhecermos que precisamos do outro tanto quanto precisamos do nosso verdadeiro eu.
 

“Amor-ódio”, de Rita da Silva Leal de Sousa Eiras (Colégio Casa Mãe)

 

Amor-ódio

 

O desporto é apaixonante. É um cocktail de emoções: sofrimento, felicidade, desilusão, amor .... Ficámos fora de nós e, mesmo que queiramos controlar as nossas emoções, não conseguimos. Sejamos adeptos ativos, não ativos ou até não adeptos, temos sempre a necessidade de dar a nossa opinião, estar a par dos acontecimentos e discuti-los com autoridade.   O ser humano fica tão cego, porque gosta e o deixa feliz, que se recusa a enxergar os atentados à ética no desporto. Nunca ouviram dizer que quem ama perdoa? Isto é realmente verdade, e existe um amor enorme pelo desporto que leva à defesa desesperada do clube pelo seu adepto.    A nossa identidade fica perdida no meio da falta de ética no desporto. Os nossos valores mudam e a nossa ética desaparece, sem sequer nos apercebermos, devido a uma paixão pura e dura. Infelizmente, salvo raras exceções, este amor é um amor não correspondido. O indivíduo dá tudo de si, os seus valores, o seu tempo, o seu dinheiro e a sua voz e o outro lado não dá diretamente nada de importante para a vida.  Será que vale realmente a pena cortar nas despesas de casa para ir ver o jogo do nosso amado? Irá o amado dar tudo de si para a vitória e para a nossa felicidade? Por norma, não. O que move o nosso amado não é a paixão, mas sim a ambição. Encontram-se tão focados numa ambição, numa luta de deitar o adversário abaixo de qualquer forma que perdem o norte da sua moralidade, a ética desportiva. Dentro e fora das quatro linhas joga a hipocrisia.  Onde é que nós, apaixonados, nos encontramos no meio disto tudo? Eu abro os olhos, faço uma reflexão e uma revolta nasce dentro de mim. Todo o amor se tornou um poço de ódio. Como pude ser eu tão cega ao ponto de defender algo que vai contra todos os meus valores? Como me pude apaixonar por alguém tão desleal, mentiroso, dissimulado, traidor e vigarista.   Tenho pena de todos os que passam pelo mesmo desgosto amoroso que eu estou a passar. Como me sinto? Desiludida, com um amargo sabor a fel na boca e o coração feito em pedaços, em mais pedaços do que adeptos na bancada em jogo da final da Taça.  O pior de tudo? Continuo apaixonada. Já não é amor. É um vício que me domina e me subjuga, que me faz sofrer e me prende. “É um fogo que arde sem se ver.” Longe da competição, dominam-me os sentidos. Na mesa do café, reconheço a podridão dos dirigentes, a falta de brio dos atletas. Atiro a toalha ao chão. Juro para nunca mais! Mas depois... depois... o depois é igual ao dantes: volto a ficar ansiosa antes da partida; roo as unhas, digo asneiras e não consigo resistir! É mais forte do que eu. É um vício. Faz-me mal, é vil e ignóbil, mas não o deixo. É talvez por se tratar de uma patologia social que o desporto de alta competição tem, não obstante todos os escândalos e todas as vigarices, ainda tantos apoiantes. Nós, os tontos apaixonados sabemos que o nosso amado é um traste, porém, numa lógica masoquista, não o deixamos. Podemos não ser os corruptos, mas somos definitivamente o alimento dessa corrupção. 

 

“SOS, sou uma adolescente”, de Teresa Isabel Teixeira Ferreira (Colégio Casa Mãe)

 

SOS, sou uma adolescente

 

Mas afinal o que é que é a ética no desporto? Bem me tentam explicar, mas eu não percebo nada. Como é que é possível algo não quantificável e impalpável ter um papel tão determinante no desporto e, mesmo assim, acontecerem situações como acontecem, onde esta parece não estar presente. POSSA...Não é como se a ética pudesse tirar férias! Do pouco do que percebi, este foi o raciocínio que criei: Desporto, sociedade e ética. Os três participantes num dos maiores triângulos amorosos mundiais. Todos o conhecem, mas não percebem como funciona. É uma relação de constante luta e união. Por vezes são amigos, outras vezes namorados e chegam até a ser inimigos. O seu fim pode ser desejado, mas é impossível de ser alcançado. Há sempre fortes laços que os unem e que impedem a sua separação. No máximo, estão separados por um fio que nunca chega a romper. A ética, que é algo que não pode ser visualizado, é aquela que permite que tal aconteça. No entanto, um dia, a energia desta pode terminar e algo poderá acontecer. Assim, o laço entre a sociedade e o desporto não pode ter uma relação de simbiose obrigatória com esta. Caso aconteça, quando enfraquecer os outros começam a ruir. Desta forma, como é que algo tão imponente como o desporto, pode depender de uma simples palavra como ética, que não é visível. Combates entre jogadores, árbitros, atletas, governo e lei. Embora tudo isto aconteça, não conseguem sobreviver uns sem os outros. Posto isto, há muito sangue derramado entre indivíduos das organizações desportivas e governamentais de forma a atingir um equilíbrio. Note-se que há sempre exceções à regra. Infelizmente, há quem não se preocupe com o bem global, mas sim em tirar proveito pessoal de certas situações. É aqui que a corrupção entra. Não nos podemos esquecer que corrupção não é só o desvio de dinheiro, mas sim os valores desviados e as atitudes hipócritas das pessoas. Ninguém a encontra rapidamente, mas está sempre lá. Ninguém sabe quem está envolvido, mas toda a gente está. Será que algum dia esta deixará de existir? É impossível adivinhar. No máximo, podemos desejar que tal aconteça e lutar por isso. Em suma, no cérebro de uma adolescente, é extremamente difícil compreender como é que a máquina do mundo trabalha, nomeadamente na secção da ética e desporto. Quando a desconstruímos e tentamos ler as peças começamos a descobrir que não é tudo tão linear como parece. Estas tais peças têm sempre defeitos. Nenhuma é igual à outra. Deste modo, a nível desportivo, cada situação tem de ser analisada individualmente e não pode ser meramente encaixotada. É por esta razão que muitas vezes estas supostas caixas explodem e algo pior inicia. De facto, vivemos num ciclo vicioso que tropeça sempre que encontra uma tentação. Assim, sendo eu uma mera jovem, como é que posso perceber como é que o mundo da ética e desporto funciona e como é que esperam que a minha geração mude o rumo deste percurso cheio de obstáculos? Mundo...afinal o que é que é suposto fazer?

 

Textos provenientes de centros educativos e estabelecimentos prisionais:

 

1º Prémio: “Era uma vez”, de Flávio Silveira (E.P. Angra do Heroísmo)

 

Era uma vez

 

Era uma vez um menino chamado João que se orgulhava muito do seu pai: um futebolista muito famoso, reconhecido a nível nacional, um ídolo para todas as gerações.  Era na escola que o João sentia os benefícios de ser filho de quem era: todas as crianças gostavam dele, todas vestiam a sua camisola, todas queriam ser como o seu pai, incluindo o próprio João. Cada vez que o pai aparecia nos jornais ou na televisão, o João enchia-se de orgulho e dizia com os olhos a brilhar: “Vejam, o meu pai marcou outra vez!”.  Foi assim anos a fio. O pai do João a vencer, o João a encher-se de orgulho do seu pai, os amigos do João a querer ser como ele e a idolatrá-lo, um país que se orgulhava do seu atleta.  Até que, um dia, o pai do João foi sujeito a exames, nos quais acusou doping, e tudo desabou! A vida do pai do João era uma farsa e a do seu filho e fãs uma ilusão. “Afinal quem é o meu pai?” – perguntava João. Era alguém que queria muito, com a sua ganância, sem princípios nem valores, ser o melhor de todos! Para ele, tudo valia para vencer e sentir-se um ídolo para toda a gente.  No dia seguinte à notícia, o João foi para a escola e começou a olhar em seu redor, percebendo que os seus colegas já não vestiam a camisola do pai, olhavam para ele de outra maneira, comentavam com maldade e gozavam com ele. Tal como João, sentiam-se enganados. Foi então que o João desistiu de ser como o seu pai e deixou o desporto. Como ele, tantas outras crianças que compravam as chuteiras iguais às do seu pai, se penteavam igual ao seu ídolo, marcavam os livres e festejavam os golos igual a ele, faziam o mesmo por todo o país. Sentindo-se enganados, desistiam!  O pai do João, por querer ser o melhor de todos e não apenas ser cada vez melhor e superar-se a si próprio, cometeu um erro e passou de bestial a besta! Acabou assim com a sua carreira, com o orgulho do seu filho e de muitas outras crianças.  Esta é a história do pai do João. Mas podia ser do nosso pai, do pai de um amigo ou de qualquer outra pessoa.  Para não cometerem o mesmo erro do pai do João ou outro que nada tem a ver com a verdade desportiva, todos os intervenientes do desporto devem pensar que, atrás deles, estão milhares de crianças a querer ser como eles. Por isso, é importante que reflitam antes de agir.  A vossa atitude, a vossa capacidade de superação e de sacrifício são inspiração para milhões de crianças em todo o mundo. As vossas atitudes podem aproximar ou afastar milhares de crianças do desporto, que é, para muitas, a única alegria, a única diversão ou até mesmo o único. Essa inspiração é transportada não só para o desporto como para a vida pessoal de cada criança. No desporto como na vida, mais do que vencer importa como o fazemos. E, se tivermos um desporto melhor, teremos, com toda a certeza, uma sociedade melhor. Vocês podem mudar muitas vidas e fazer com que muitas crianças possam sonhar! Sejam verdadeiros convosco próprios e façam o vosso melhor, que para nós chega! 

 

2º Prémio “Há sempre tempo para mudar”, de Júlio Silveira (E.P. Angra do Heroísmo)

 

Há sempre tempo para mudar!

 

A Ética refere-se ao modo de ser, ao carácter, à realidade interior de onde provêm os atos humanos.  A ética define muito quem somos! Seja no desporto, na vida pessoal e profissional ou num grupo mais abrangente, o nosso papel sociedade. Dependendo da nossa ética, podemos ter um papel construtivo ou prejudicial na nossa sociedade e no desporto. Penso que o nosso desporto é o espelho da nossa sociedade. Como tal, todos devemos defender os valores no desporto, tornando-o o mais transparente possível. Contudo, a sociedade mudou! Desenvolveu-se, inovou e modernizou-se e o desporto foi engolido pelo bom e pelo mal dessas mudanças. Muitas foram positivas, mas outras prejudicaram o desporto, pois, no desporto como na vida, o caminho que escolhemos é um género de prós e contras. A maneira como encaramos a modalidade que praticamos, como treinamos, como comemos, determina se vencemos ou se perdemos, se somos um ídolo ou uma fraude. Por exemplo, Louis Armstrong foi um ídolo para milhares de pessoas durante anos a fio, até que se descobriu que era uma fraude porque se dopava para ultrapassar os seus obstáculos. Ou Mike Tyson, um campeão invencível para muitos em todo o mundo, até ser derrotado por Evander Holyfield, no célebre combate em que Mike arrancou literalmente a orelha ao seu adversário. De facto, não era capaz de lidar com a derrota. O que Mike não sabia – ou não sabe – é que nós aprendemos mais com as derrotas do que com as vitórias. Falo por experiência própria. No meu caso, não foi no desporto mas sim na vida: todos os que souberem a origem deste texto perceberão. Como disse anteriormente, a ética ajuda a definir-nos como pessoas. Eu estava num jogo que era a vida. Queria ganhar e atingir os meus objetivos o mais rápido possível e com o menos sacrifício possível. E o que ganhei? Nada! Vivia numa ilusão! Eu sei que não é isto que nos define como pessoas. Por isso, aprendi e mudei como pessoa. O que para mim era o correto, hoje é o errado. Os meus valores e os meus princípios mudaram. A minha ética mudou! Mas tenho a noção que serei reconhecido pelos meus erros, tal como Armstrong e Mike. Tudo farei para mudarem de opinião que voltem a acreditar em mim. O nosso desporto está a afundar-se e os jovens estão cada vez mais a afastar-se, muito por culpa de quem o dirige. Está a tornar-se apenas num negócio onde vale tudo para tirar o máximo de lucro financeiro. Por isso, é o momento de todos juntos refletirem sobre o que querem para o desporto nacional, que já nos deu tantas alegrias e atletas medalhados. Nunca é tarde para assumir os nossos erros! Temos de nos perguntar: Quem somos? O que queremos? Como queremos ser reconhecidos? No desporto como na vida, não vale tudo para vencer. Sendo assim, peço a todos os desportistas e agentes do desporto que, mesmo que tenham cometido um erro, tão grave como o meu, corrupção, fraude, doping ou o que quer que seja, estão sempre a tempo de o corrigir. O desporto precisa de todos e todos precisamos do desporto!

 

3º Prémio: “A Vida é um Jogo”, de Ana Margarida Maia (E.P. Santa Cruz do Bispo)

 

A vida é um jogo

 

 A vida pessoal e social rege-se por regras. É como se fôssemos uma equipa. A prática de uma atividade desportiva coletiva pode ser comparada ao nosso quotidiano enquanto seres sociais. A vida social funciona tanto na vida como no desporto. A Ética é fundamental. O que aprendemos dentro das "quatro linhas" estende-se à nossa vida.  Enquanto elementos de uma equipa, aprendemos a seguir as regras do jogo e pomos em prática um conjunto de valores que nos permitem ser aceites. Tal como na vida também no jogo existe competição. As regras devem ser aceites e cumpridas. As hierarquias devem ser respeitadas, para evitarmos punições e sermos recompensados.  Na vida, assim como no desporto, aprendemos a negociar, a saber qual o nosso papel, a construir a nossa identidade e a estabelecer os nossos limites. Comportamentos e atitudes como a pontualidade, assiduidade e disciplina promovem uma competição leal e saudável, de onde resulta bem estar.  A prática da atividade desportiva proporciona saúde, autoestima, equilíbrio emocional e uma mais fácil gestão de conflitos. No campo e na vida eu sou como os outros!  A competição saudável desenvolve a entreajuda, a cooperação, a resiliência e motiva-nos para a superação de obstáculos. Ensina-nos igualmente a ser humildes, mas também ambiciosos… O suficiente para nos valorizarmos nas quatro linhas do campo e nas da vida.

 

Menção Honrosa:

 

“A força do Desporto”, de Luís Freitas (E.P. Funchal)

 

A Força do Desporto

 

Desde que nascemos que somos educados a respeitar, conquistar, ser leais e unidos. Também somos sonhadores, dentro de cada um existe um desejo por conquistar, seja pessoal, um relacionamento ou um objectivo qualquer, vivemos baseados em metas e conquistas porque somos aquilo que sonhamos ser. Quando começamos a prática desportiva, muitas vezes não entendemos a essência do que realmente é, e até onde podemos chegar e o que podemos alcançar. Desporto é uma arte que liberta, transforma, reintegra e ensina. Basta olharmos a verdadeira essência do desporto, praticá-lo com dedicação, ética e moral.

 

Ética é o domínio de uma filosofia que determina a finalidade da vida humana, e os meios de alcançar, ciência que tem por objectivo o juízo da apreciação com vista a distinção entre o bem e o mal, com isso temos um conjunto de costumes e opiniões de uma pessoa ou de um grupo, respeitamos comportamentos, normas de conduta consideradas mais ou menos absolutas e universalmente válidas, que se ocupam dos problemas relativos a conduta do homem na sua vida.

 

Para estarmos no desporto é fundamental respeitarmos o próximo, assumir que muitas das vezes não somos os melhores, que atitudes de desrespeito para com o adversário prejudicam a beleza que o desporto nos proporciona. É possível competir respeitando o adversário, reconhecendo-lhe valor e competência e aceitá-lo como um opositor indispensável, sem o qual não existiria competição. Quando aceitamos que o adversário, naquele jogo ou prova desportiva, foi melhor, estamos a praticar a lealdade e a sermos honestos com nos próprios, e em vez de nos entregarmos à derrota, devemos tentar numa próxima competição melhorar o nosso desempenho. Quando entramos na competição desportiva com o intuito de estar sempre a ganhar, nem que para isso tenhamos que fazer batota (doping), aceitar a derrota não é tarefa fácil, no entanto, ética desportiva surge como uma estrutura moral que define alguns limites para o comportamento desportivo de forma a torná-lo civilizado.

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