O “dôjô” (centro de prática) - artigo Vítor Rosa, 43

Espaço Universidade 17-06-2019 23:25
Por Vítor Rosa

Os praticantes de artes marciais e desportos de combate (AM&DC) evoluem num espaço próprio, espaço esse que impõe um código normativo e um conjunto de condutas. É apelidado, pelos praticantes, de “dôjô”, que podemos traduzir como dô, caminho ou via, e jô, lugar de treino.

 

No conceito processual de Merton, os centros de prática são um “lugar estratégico de investigação”. O dôjô insere-se nas chamadas instalações desportivas de base formativa. Mesmo que seja um ginásio, o dôjô tem um significado mais abrangente. Para os praticantes de AM&DC marciais, “o dôjô não é apenas um ginásio, mas um lugar sagrado” e de “iluminação”, onde, sem hierarquia de classes sociais, se vai treinar o corpo e o espírito, segundo a via (dô), desenvolver, através da dura aprendizagem das técnicas, as qualidades físicas e morais (endurecimento, vontade, perseverança, lealdade, força de carácter), combater os defeitos como as vaidades, orgulho, preguiça, etc. Um treinador de judo disse-me, em entrevista, em 2017, o seguinte: “surge nas artes marciais uma distinção. O desporto treina-se no ginásio. As artes marciais treinam-se no dôjô, no local de iluminação. A diferença é de atitude mental. Para quem inicia a prática, isso não faz sentido. Tem que ser educado. No desporto não educam. Para nós, quando alguém entra é logo ensinado a fazer uma saudação. Para nós, é o local onde vamos evoluir. Temos que mostrar respeito”.

 

O dôjô pode ser uma sala de treino privada, equipada com espelhos e sacos de boxe, ou uma sala de um clube público devidamente apetrechada. É o local onde os entusiastas partilham os seus treinos e conhecimentos. É o espaço longe do ambiente familiar. Os rituais (conjunto de signos – fórmulas, sinais e palavras – destinados a regular certos atos) praticados no dôjô mergulham os praticantes no tempo dos samurais, dos mestres, cujos retratos, “totens do grupo” figuram no local.

Para além de ser um local de prática e de ensino de artes marciais e desportos de combate, onde se encontram homens e mulheres de direita e de esquerda, ateus, agnósticos e crentes, idealistas e oportunistas, outros acontecimentos ritmam o dôjô: organização de almoços e jantares entre amigos, organização de passeios, festas, colóquios, seminários, etc. É frequente escutar durante os aquecimentos musculares (“warm-ups”) os praticantes falarem sobre temas societais variados: política, religião, relação familiar, sexualidade, vida quotidiana, entre outros. No fundo, os centros de prática são as células base deste desporto e funcionam como “empresas” concorrentes.

 

A adesão a um centro de prática não é, por vezes, um critério satisfatório. Os membros-praticantes não estão no mesmo plano. Alguns pagam a sua mensalidade e dão-se conta que não gostam da disciplina que eles imaginavam diferente à partida (ou seja, a um plano sonhado pode não corresponder a um plano prático); outros acabam por deixar a atividade (aborrecem-se ou têm impedimentos familiares ou profissionais); outros, apesar de gostarem, são “alérgicos” aos esforços físicos. Querem fazer o menos possível. Existem “corpos ativos” e “corpos preguiçosos”.

 

Para frequentar os treinos, os praticantes têm que pagar, para além de uma mensalidade (entre os vinte e cinco e os trinta e cinco euros), um selo anual, que se coloca num cartão pessoal (quando existe), permitindo-o ir a estágios e a treinos especiais. Para além disso, e caso o praticante não tenha, é exigido o pagamento de um seguro desportivo na ordem dos cinco euros (valor variável). Com tantos pagamentos, muitos jovens são forçados a renunciar à prática das AM&DC (e de outras práticas desportivas) por falta de recursos financeiros.
 

A observação da realidade da vida quotidiana de um dôjô permite verificar que a frequência de um centro de prática implica um “conjunto de regras/normas básicas”, que poderão ser de comportamento, de saúde e de higiene, quer pessoal, quer das instalações. No caso do karaté e aikido, por exemplo, antes de começarem a treinar, os praticantes devem alinhar de frente para o instrutor/treinador (da esquerda para a direita) por ordem de graduações; os praticantes devem envergar corretamente o “keikogi” (também chamado de kimono) durante a prática da modalidade; os praticantes devem conservar o fato limpo e em bom estado; os praticantes devem respeitar os superiores e os colegas; os praticantes devem estar atentos aos ensinamentos do instrutor/treinador; os praticantes devem manter o silêncio no dôjô; é “proibido” o excesso de adornos; a assiduidade e a pontualidade para os treinos são factos muito importantes; sempre que um praticante chega atrasado à sua aula deve procurar obter do respetivo instrutor autorização para tomar parte do mesmo; os alunos mais antigos devem procurar ajudar os mais novos; todos os interessados que queiram observar um treino devem pedir licença ao instrutor apresentando-se no dôjô no mínimo dez minutos antes do treino começar, e comprometer-se a permanecer, sempre que possível, até ao final do mesmo.
 

O dôjô é também uma realidade mutável. Como muitas associações não têm dôjôs próprios, vêem-se obrigadas a praticar em espaços alugados ou emprestados. Isso leva a que fechem e abram com alguma facilidade. Claro que o encerramento de um dôjô não implica muitas vezes a diminuição do número de praticantes. Eles podem transitar para outro dôjô que esteja a funcionar. No caso português, existem associações que têm dois ou três dôjôs a funcionar e outras que têm dezenas.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado do Centro de Estudos Interdisciplinares de Educação e Desenvolvimento (CeiED), da Universidade Lusófona de Lisboa

Ler Mais
Comentários (0)

Últimas Notícias

Mundos