Nuno Delgado: um Desporto de Ideias (artigo de Manuel Sérgio, 296)

Espaço Universidade 16-06-2019 18:28
Por Manuel Sérgio

Num acendrado culto da ciência, num constante apego ao desporto como pedagogia humanista, numa ânsia de transcendência física, mental, espiritual – é assim que eu conheço o Nuno Delgado, um dos maiores atletas portugueses da sua geração; com a justa auréola de uma das mais destacadas figuras da história do nosso judo; e um desportista que é um acabado exemplo do que, no ser humano, mais deslumbra e encanta.

 

Praticou, com indiscutível sucesso, um desporto altamente competitivo (campeão nacional, campeão europeu, individual e de clubes, medalha de bronze, nos Jogos Olímpicos, campeão de múltiplos torneios) mas nem por isso perde a serenidade, a compostura, a elegância. E, depois de um desporto de forte pendor individualista, funda a “Escola de Judo Nuno Delgado”, a maior Escola de Judo do País, que diz realizar-se a formar campeões para a vida. Isto é, quem a escolhe escolhe-se,  porque nela tudo o que se faz transcende o desporto, não deixando de ser uma Escola de “práxis” profundamente desportiva, uma galáxia onde se movimentam os mais autênticos daqueles valores que o Desporto assume como seus. “Professor (dizia-me, há poucos dias, o Nuno Delgado, sempre de palavras de uma concisão lapidar) acredito na sua frase: não há desporto, há pessoas que fazem desporto. E portanto, para mim, o desporto é o que os desportistas são”. O aspeto axiomático, breve e sentencioso das palavras do Nuno reflete o muito que, discretamente, estudamos e dialogamos, acerca do fenómeno desportivo. O debate entre o determinismo e o indeterminismo, ou entre a ordem e o caos, para retomar Ilya Prigogine, ou O Acaso e a Necessidade, como escreveu Jacques Monod, continua a ser interrogação fundamental, no conhecimento hodierno. Segundo o pensamento de Prigogine, o Universo é percorrido pela “flecha do tempo” e, assim, “nunca os fenómenos se reproduzem de uma forma idêntica e tornam-se imprevisíveis por definição”.

 

Embora aduzindo uma série cada vez maior de argumentos, os cientistas já não convencem ninguém de  que o progresso tecnocientífico será a causa de um progresso moral autêntico. O ideal positivista, com todas as suas certezas, em grande parte faliu, ou vive hoje o transe de algum descrédito. Às grandes descobertas dos anos 20, como a relatividade e a mecânica quântica, sucedeu a incerteza, na “ciência do caos” de Prigogine (que o René Thom prefere chamar o “caos da ciência”). Beneficiamos da proficiência dos progressos tecnológicos, mas de quase nenhum progresso qualitativo. Continuam atuais as palavras do Padre Manuel Antunes: “O triunfo da ciência é pois ambíguo. Como aliás todos os triunfos. Pode conduzir a uma real promoção da humanidade, nos vários planos em que a sua vida se desenvolve, e é um bem. Pode conduzir à sua total destruição ou, se essa hipótese, menos provável não se der, pode conduzir a um estancamento das suas energias criadoras, a uma atitude de extrapolação, tomando como ciência aquilo que não é ciência, e então é um mal” (Compreender o Mundo e Atualizar a Igreja - Os grandes textos do Padre Manuel Antunes, coordenação de José Eduardo Franco e Luís Machado de Abreu, Gradiva, Lisboa, 2018, p. 284). Aprendi, com Prigogine, que a noção de probabilidade já não deverá considerar-se um sinal certo de ignorância, como no caso da mecânica laplaciana, pois que se trata de uma propriedade intrínseca de qualquer sistema aleatório. De súbito, a ignorância transforma-se e eis que surge uma nova representação da ciência. Numa lógica de desequilíbrio, se bem entendi Prigogine, estabilidade dinâmica e instabilidade estrutural são compatíveis e complementam-se. Edgar Morin (julgo ter estudado as suas obras mais relevantes) considera urgente acrescentar ao pensamento que separa um pensamento que una, que relacione, de acordo com os principais objetivos do pensamento complexo, o qual procura distinguir, sem separar e ligar sem confundir.

 

Tenho para mim que, nos cientistas e literatos, que fizeram História, sobressai sempre um conhecimento comprometido com uma visão do Homem e da Vida, como as figuras de Egas Moniz (figura multifacetada da vida científica e cultural, prémio Nobel da Medicina) e Almeida Garrett (dois exemplos, entre muitos mais) que sempre defenderam uma ciência e uma arte, comprometidas com a ação política. A conceção esteticista da “arte pela arte”, uma ciência que se apresenta num agnosticismo político infuso, difuso e confuso, ambos pretendem impedir o circular das ideias, o diálogo crítico e autocrítico, uma análise concreta da Cultura donde a Literatura e a Ciência nascem. Ninguém de bom senso pode legitimar a vocação para a escrita, ou para uma prática científica, excluindo o pensamento filosófico e político. Ilya Prigogine, na sua conhecida obra La Nouvelle Aliance, afirma que um ser complexo, qualquer que ele seja, é constituído por uma pluralidade de tempos “ramificados uns sobre os outros, segundo articulações subtis e múltiplas. A história, tanto de um ser vivo, como a de uma sociedade nunca mais poderá ser reduzida à simplicidade monótona de um tempo único”. Por isso, a fecundidade das relações entre a ciência, a filosofia (e a própria teologia) é por demais evidente. Só em ambientes de bloqueamento cultural e fundo obscurantismo o fenómeno não se torna visível. Contempla-se o trabalho da “Escola de Judo Nuno Delgado” e saboreia-se com o que nos é dado ver um bálsamo simultaneamente apaziguador e tonificante. Trata-se de uma Escola de Desporto, mas de um Desporto, ao serviço de um certo número de valores. Ao invés de Max Weber, n’A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, onde  a origem do Capital se remete, principalmente, para uma ética do trabalho, de  matriz evangélico-protestante,  Nuno Delgado nega o princípio de uma causalidade única no Desporto, identificando, nele, com igual importância, raízes de várias ordens e condições. Ultrapassando também, dialeticamente, o pessimismo histórico da Teoria Crítica, ele (e os restantes professores que o acompanham) fazem do Desporto uma escola aberta aos outros, ao mundo e à transcendência e portanto uma escola sem a presença, ou a promoção, do “homo mechanicus”, resultado de um positivismo (ou neopositivismo) que tudo reifica e simplifica, em adoração ao deus-lucro.

 

O século XXI (digo isto discorridamente e sem cuidados de estilo) pode descambar numa inesperada contradição: por um lado, nunca o efémero, o provisório, o superficial, o formalismo sem conteúdo foram tão valorizados; por outro, com a emergência da Quarta Revolução Industrial, sob o império das novas tecnologias e da revolução informática, a vivência e atualização e questionamento da prática desportiva tradicional, é tema a desenvolver, o mais  breve possível. Durante 28 anos, vivi intensamente a vida do C.F.”Os Belenenses”, isto é, de 1964 a 1992. E confesso que, hoje, no gigantismo, no economicismo e no jurisdicismo dos maiores clubes desportivos, tudo se encontra matematicamente certo, planeado, normalizado, normatizado – mas pouco desporto há! Não, não sou contra o espetáculo desportivo – sou a favor! Todos os que me conhecem sabem que assim é. Mas não o reduzo à mundialização de um certo mercado, à especulação, ao modelo do valor bolsista. Nem aos caprichos subjetivos dos novos deuses. Eu sei que é mais fácil proclamar princípios do que, no comportamento diário, estar à altura dos princípios proclamados. Mas como é consolador encontrar “agentes do desporto”, como o Nuno Delgado,  que sabem encontrar, no Desporto, não só meros factos desportivos, mas também amplos (e humanizantes) fenómenos culturais (que o mesmo é dizer: sociais, políticos, paidêuticos, filosóficos e pedagógicos). Na partilha universal dos conhecimentos, que o mundo atual permite, sem qualquer pessimismo de desistência do trabalho de transformação social e política, é preciso, imperioso e urgente informar as pessoas que o Desporto não se circunscreve ao desporto dos Ronaldos e dos Messis e dos Neymares, nem este desporto alguma vez contribuirá à diminuição do fundo fosso, que separa os países pobres dos países ricos. Sem a generalização de uma educação (onde se integra a educação desportiva) com a lucidez e a energia de uma crítica ao neoliberalismo hodierno, como erradicar a pobreza absoluta, como promover os valores democráticos, como construir sociedades do conhecimento? Que existam os Ronaldos, os Messis e os Neymares, bem é! Mas, como já o escrevi, há mais de 50 anos: que não adormeçam as pessoas à recusa da sociedade injusta estabelecida! Um abraço sobre o coração, Nuno Delgado! Muito obrigado, pelo seu Desporto… com determinadas ideias!                        

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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