Estado, Olimpismo & Sociedade (artigo de Gustavo Pires, 102)

Espaço Universidade 08-06-2019 13:07
Por Gustavo Pires

Para Agustina “a competição é só civilizadora enquanto estímulo; como pretexto de abater a concorrência, é uma contribuição para a barbárie”. Esta metáfora tanto se deve aplicar à vida de cada um, como às mais diversas instituições incluindo as do mundo do desporto. Por isso, se do ponto de vista pessoal, como referiu João Rodrigues (presidente da Comissão de Atletas Olímpicos), na cerimónia de apresentação da Missão aos II Jogos Europeus, ao dirigir-se aos 99 atletas selecionados, os valores olímpicos são a amizade, o respeito e a excelência, seria bom que os dirigentes políticos e desportivos também entendessem que  os referidos valores devem, igualmente, orientar os seus próprios comportamentos e as escolhas políticas que fazem uma vez que são eles os primeiros responsáveis pelo desenvolvimento do desporto no País. Porque, o desporto, sob pena de poder vir a desaparecer, não deve, olimpicamente, continuar a ser um factor criador de inimizades, de ódios e de assimetrias sociais geradoras de subdesenvolvimento. Quando tal acontece, bem podem os dirigentes pedir aos deuses que envolvam os portugueses nas Missões Olímpicas porque isso nunca acontecerá enquanto o desenvolvimento do desporto não estiver clara e inequivocamente, não ao serviço de alguns privilegiados que, pelas mais diversas razões, a ele tiveram acesso, mas ao serviço da generalidade das populações independentemente do seu género, da sua condição social, do local onde habitam ou do grau de escolaridade, entre outras. Assim, parafraseando Agustina, direi que as medalhas olímpicas só serão promotoras de desenvolvimento e progresso enquanto estímulo; como criadoras de mais e novas assimetrias sociais serão sempre uma contribuição para a barbárie que, infelizmente, é para onde está a ser dirigido o desporto moderno. Neste sentido, e porque o futuro nunca surge por acaso, recordamos que, aquando da queda do muro de Berlim, entre a multidão que se manifestava, viam-se cartazes que diziam: “abaixo os privilégios dos artistas e desportistas”.

 

Em 2016, Vítor Serpa director d’A Bola, relativamente à desilusão que foram os resultados nos Jogos Olímpicos, cunhou a seguinte metáfora no título de um artigo publicado no jornal que dirige: “Importante não é participar … é ganhar”. A bem ver, embora, certamente, a metáfora tenha escandalizado muita gente, ela replica a ideia de uma outra utilizada por Pierre de Coubertin num artigo intitulado “Une Campagne Contre l'Athlète Spécialisé”, publicado no número de Julho de 1913 da Revue Olympique, que diz: “Para que cem se dediquem à cultura física, cinquenta têm de praticar desporto; Para que cinquenta pratiquem desporto, vinte têm de se especializar; Para que vinte se especializem, é necessário que cinco se mostrem capazes de realizar proezas extraordinárias”. Apesar desta metáfora, que ficou para a história como a Pirâmide de Coubertin, o que é facto é que o pensamento de Coubertin é, geralmente, associado a uma outra frase que, para além de não produzir o espírito do seu pensamento, também nunca foi por ele proferida. Estou-me a referir à frase que fez história: “o importante nos Jogos Olímpicos não é ganhar, mas sim participar” que, ao longo dos últimos mais de cem anos, tem sido utilizada das mais diversas maneiras, com o objetivo de fazer crer que Coubertin sobrepunha o valor da participação nos Jogos Olímpicos ao valor da superação e da vitória.

 

Desde a sua origem na era moderna que Coubertin sempre manifestou a ideia de que os Jogos Olímpicos deviam ser realizados com a máxima liberdade competitiva sob regulamentos perfeitamente definidos. Porém, nos Jogos da IV Olimpíada (Londres 1908), embora tenham sido considerados os que, até então, melhor foram organizados, ocorreram diversas situações de conflito entre atletas americanos e ingleses devido à falta de clareza das regras que permitiam “interpretações caseiras” por júris presididos por entidades locais. Os americanos, que estavam na disposição de “chegar, ver e vencer”, ao sentirem-se prejudicados por regulamentos que não compreendiam, protestaram ao ponto de provocarem conflitos. E foram tais os conflitos que deram origem à metáfora proferida por Ethelbert Talbot, Bispo da Pensilvânia quando, num sermão dirigido aos atletas numa cerimónia religiosa realizada na Catedral de Saint Paul, disse: “… o importante nos Jogos Olímpicos não é ganhar, mas sim participar, tal como o essencial na vida não é conquistar, mas lutar bem”.

Muito embora a metáfora do Bispo tenha passado despercebida à maioria, como se veio a verificar pelos incidentes, entre ingleses e americanos,  acontecidos, posteriormente, na corrida dos 400m barreiras e na da Maratona, o que é facto é que Coubertin não deixou de a aproveitar para, ao seu estilo e de acordo com o seu pensamento, a esclarecer. E, assim, no discurso proferido a 24 de julho, aquando do banquete de encerramento dos Jogos, disse: “Domingo passado, durante a cerimónia organizada em São Paulo em honra dos atletas, o Bispo de Pensilvânia referiu em termos muito felizes: O importante nos Jogos Olímpicos é menos ganhar do que participar. O importante na vida não é o triunfo, mas o combate”. Coubertin aproveitou para esclarecer a situação e alterou a palavra “participação” pela palavra “combate” e expressou uma interpretação pessoal relativamente à frase proferida pelo Bispo descontextualizando-a relativamente aos Jogos Olímpicos. E disse: “L' important dans la vie, ce n'est point le triomphe mais le combat; l'essentiel, ce n'est pas d'avoir vaincu mais de s'être bien battu” /  “O importante na vida não é triunfo, mas o combate; o essencial não é ter conquistado, mas ter lutado bem”. Note-se que, Coubertin nem sequer adotou a frase do Bispo Talbot, limitou-se a aproveitar a ideia e reconstruiu-a: Em primeiro lugar não fez  referência aos Jogos Olímpicos a fim de, de acordo com a ideia do Cristianismo Muscular, acentuar a problemática da luta que é a vida; Em segundo lugar, trocou a palavra participação pela palavra combate o que atribuiu à frase um sentido completamente diferente.

 

Nesta perspetiva, a frase de Vítor Serpa – importante não é participar … é ganhar – expressa o Citius, Fortius, Altius do lema olímpico proposto por Coubertin.

Ora, perante o tamanho da Missão Olímpica e os fraquíssimos resultados nos JO do Rio (2016), a pergunta que devia ter ocorrido aos dirigentes políticos e desportivos devia ter sido a seguinte: A quantos atletas de base devem corresponder aos 92 atletas portugueses que participaram nos JO do Rio (2016)? Ou, a mesma pergunta colocada de outra maneira: Existe alguma correspondência entre os 92 atletas olímpicos dos Jogos do Rio (2016) e a base da prática desportiva no País?

Esta é a grande questão que os portugueses, sobretudo os mais desfavorecidos, excluídos da prática desportiva, devem começar a fazer aos dirigentes públicos e privados que chefiam o desporto nacional à custa do dinheiro dos contribuintes.

Atentemos na seguinte analogia: Nos JO do Rio (2016) a Coreia do Norte, com uma população de 25,368,620 habitantes e um PIB per capita de US$ 506, apresentou-se com uma missão composta por 31 atletas a competirem em 9 desportos para ganhar 7 medalhas (2;3;2) e ficar na 34ª posição no ranking dos países; Portugal, com uma população de 10,374,822 habitantes e um PIB per capita de US$ 29,239, apresentou-se com uma missão composta por 92 atletas a competirem em 16 desportos para ganhar (in extremis) uma medalha de bronze e ficar em 78º lugar. Isto significa que, enquanto a Coreia do Norte obteve uma excelente taxa de sucesso de 23%, Portugal obteve uma miserável taxa de sucesso de 0.84% mesmo expurgados da contabilidade os 18 jogadores de futebol.

 

Nestes termos, perante a Missão portuguesa constituída por 99 atletas que vão participar nos II Jogos Europeus a realizar de 19 a 30 de Junho em Minsk capital da Bielorrússia, para além dos maviosos discursos oficiais e das promessas de uma chuva de medalhas que pouco ou nada significam para o Nível Desportivo do País, as perguntas que temos vindo a formular voltam a colocar-se: (1ª) A quantos atletas de base devem corresponder os 99 que vão competir em Minsk? (2ª) Quantos dos 99 atletas presentes em Minsk vão lá estar para participar e quantos vão lá estar para vencer?

O grande problema do modelo de desenvolvimento do desporto nacional instituído em 2004/2005 é, na sua mediocridade, ser uma espécie de “Linha Maginot”. É caro, pesado, pouco eficiente e, ainda menos, eficaz na medida em que, se, por um lado, não consegue resultados olímpicos que justifiquem os recursos humanos, materiais e financeiros disponíveis, por outro lado, também não está sustentado numa prática desportiva de base que justifique a constituição de Missões Olímpicas com cerca de cem atletas.

 

Nestes termos, a afirmação de Vítor Serpa – importante não é participar … é ganhar –, em 2019, volta a estar na ordem do dia. E porquê? Porque, na sua simplicidade, ela levanta questões complexas e questiona o modelo de desenvolvimento do desporto nacional instituído em 2004/2005.

À semelhança da histórica “Linha Maginot”, o atual modelo de desenvolvimento do desporto nacional pode conferir aos dirigentes políticos e desportivos um falso sentimento de eficiência e eficácia. Contudo, não passa de uma estrutura burocrática que, na realidade, não responde nem aos resultados que os recursos aplicados devem exigir às Missões Olímpicas, nem às necessidades de prática desportiva de base de que o País necessita. Em consequência, se as prestações das Missões Olímpicas têm tem vindo a piorar desde 2004, em termos de prática desportiva de base, Portugal ocupa os últimos lugares entre os países europeus.

 

Quanto ao rendimento, nos JO de Atenas (2004) foram conquistadas três medalhas, duas de prata e uma de bronze e a 60ª posição. Nos JO de Pequim (2008) uma medalha de ouro e uma de prata e a 47ª posição. Nos JO de Londres (2012) uma medalha de prata e a 69ª posição. Finalmente, no Rio (2016) uma medalha de bronze e a 78ª posição. Resumindo, de há quatro Ciclos Olímpicos a esta parte as prestações nos Jogos Olímpicos têm vindo a piorar.

Quanto à prática desportiva de base, segundo o Relatório “Special Eurobarometer 472 - Sport and Physical Activity – 2017/2018” da Comissão Europeia (EU28), enquanto que na Bulgária, na Grécia e em Portugal, 68% das pessoas com 15 e mais anos de idade dizem não praticar regularmente qualquer atividade física ou desportiva, na Finlândia (69%), na Suécia (67%) e na Dinamarca (63%) dizem praticar. Em Portugal 79% dizem não ter praticado nenhuma atividade física vigorosa na semana anterior. Na Finlândia (66%), na Holanda (63%) e na Suécia (62%) disseram ter realizado uma atividade física vigorosa em pelo menos um dia na semana anterior.  A proporção que praticou uma atividade física vigorosa em pelo menos quatro dos últimos sete dias é a mais baixa na Itália (5%), Portugal (7%), Bulgária, Grécia e Malta (9%).

Num país com pouco mais de 10 milhões de habitantes, com uma prática desportiva de base insignificante e em que só 7% da população com 15 ou mais anos de idade diz ter praticado uma atividade física vigorosa pelo menos em quatro dos últimos sete dias, ao constituírem-se Missões Olímpicas com uma centena de praticantes significa que estamos na presença de uma espécie de “linha maginot” isto é, perante um modelo de desenvolvimento do desporto que transmite uma falsa imagem de eficiência e eficácia na medida em que não produz, nem a montante (Efeito de Volume), nem a jusante (Efeito de Ídolo), resultados que justifiquem os recursos que consome. Quer dizer, o actual modelo de desenvolvimento do desporto nacional está suportado numa estrutura artificial de prática desportiva intermédia que não decorre da base do sistema nem, salvo uma ou outra exceção, origina, verdadeiramente, resultados de excelência a nível do vértice da pirâmide de desenvolvimento. Na relação massa / elite que fundamenta o conceito de Nível Desportivo, estamos perante um modelo de desenvolvimento em que, por paradoxal que possa parecer, existe Estado a mais e Sociedade a menos. Trata-se, por isso, de um modelo em que o Estado se apropriou do próprio Movimento Olímpico pelo que, em matéria de desenvolvimento do desporto, o Estado e a Sociedade  “abateram a concorrência” que se devia expressar na dialética de mútuo controlo. Em consequência, em termos práticos, em matéria de desenvolvimento do desporto, o Estado e a Sociedade estão transformados numa mesma e única entidade, o que resulta numa espécie de Olimpismo de Estado.

 

O desporto, nos últimos quarenta anos, mudou radicalmente. Hoje, requer soluções que, em tempo útil, ajustem de forma sinergística a sua estrutura e a sua dinâmica: (1º) A um tempo de volatilidade porque muda de forma, com facilidade e frequentemente; (2º) A um tempo de incerteza porque desencadeia um estado de dúvida constante; (3º) A um tempo de complexidade porque as variáveis em equação não são de fácil apreensão; (4º) A um tempo de ambiguidade porque sugere caminhos opostos para a resolução dos mesmos problemas.

E, assim, voltamos ao Citius, Fortius, Altius de Coubertin, à metáfora de Agustina: “a competição é só civilizadora enquanto estímulo; como pretexto de abater a concorrência, é uma contribuição para a barbárie” e ao “importante não é participar … é ganhar” de Vítor Serpa. Assim estejam os nossos dirigentes políticos e desportivos disponíveis para o entenderem.

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