Uma breve reflexão sobre o Benfica… (artigo de Manuel Sérgio, 295)

Espaço Universidade 08-06-2019 13:05
Por Manuel Sérgio

Encontrei, num texto de João Bigotte Chorão, uma página autobiográfica de Almada Negreiros, onde colhi: “A pintura era, na minha infância e mocidade, primeiro que tudo o pintor e depois o quadro (…). Hoje (…) penso exatamente como em criança: para mim, em pintura, primeiro o pintor e depois o quadro” (in Brotéria, Lisboa, Março de 1994). Eu venho dizendo o mesmo, há mais de 40 anos, acerca do desporto (e do futebol, portanto). Trata-se de uma especialidade de uma ciência humana, onde necessariamente o ser humano é o fundamento da prática desportiva (e da prática do futebol, portanto). Com mão pródiga e apaixonada, foram muitos os que escreveram sobre a vitória retumbante do Benfica, no Nacional de Futebol da época de 2018/2019.  Mas eu dou especial relevo às afirmações de Bruno Lage, sobre todos o que mais se mostra merecedor da minha confiança, até porque as sua palavras não me parecem simples lugares-comuns, para ludibriar a opinião-pública, designadamente o povo laborioso e humilde, que constitui grande parte da massa associativa do Benfica. Ora, julgo poder resumir a quatro os pilares onde assenta (segundo o Bruno Lage) a vitória benfiquista: Luís Filipe Vieira e a ampla e generosa massa associativa, ambos com a justa auréola de poderem considerar-se  as ”causas das causas”; Jaime Graça, que eu vi jogar inúmeras vezes e (ainda segundo Bruno Lage) um “homem do futebol” de rara envergadura intelectual, na análise do jogo; os jogadores e a equipa técnica e a de saúde que, em penhorantes termos, estabeleceram, no departamento de futebol, uma constante racionalidade comunicativa e dialogante; e, para mim, “finis coronat opus”, a sabedoria de Bruno Lage, que o levou a declarar: “Sabem qual foi o segredo da nossa vitória? Fomos, em todas as circunstâncias, uma família”. Demarcando-se por temperamento, formação e gosto de qualquer assomo de narcisismo, de exibicionismo, de vaidosa intemperança verbal, são visíveis, nele, as características de uma conceptualização de sabedoria: é um profissional de indiscutível competência (dimensão que se sobrepõe à inteligência lógica ou à habilidade técnica); distingue-se por um conhecimento pragmático da vida e do futebol; superior funcionamento intelectual e pessoa de um admirável comportamento ético; a suficiente capacidade reflexiva, que lhe permite extrair lições dos erros já cometidos.

 

                Portanto (foi o Bruno Lage a dizê-lo) um elevado sentido de pertença a uma família fez, sobre o mais, da equipa um todo indestrutível, onde palavras, intenções, ideias, sentimentos, expectativas, valores eram os mesmos em todos, queriam dizer o mesmo para todos. Trabalhei treze meses, com o treinador Jorge Jesus, no S.L.Benfica. E cheguei à conclusão seguinte: principalmente pelas paixões que o pressionam, que o condicionam, o futebol é um jogo de erros e, por isso, quem errar menos mais próximo se encontra da vitória. Só que o erro não se combate tão-só técnica e taticamente, antes de tudo combate-se moralmente. Um jogador que faz da competição um palco das suas vaidades, do seu individualismo, do seu exibicionismo, que não obedece a um ideal coletivo de jogo, pratica erros sem conta – é um jogador pernicioso à equipa. Costuma dizer-se que, depois de Marinus Michels, de Arrigo Sachi, de Cruyff, de Guardiola, de José Mourinho, de Rafa Benitez, o futebol não é o mesmo. Nasceu, se não erro, o futebol à zona, onde a zona é da responsabilidade de vários e não de um só. Ou seja, sempre a valorização do todo, em relação às partes. Desde o guarda-redes ao extremo-esquerdo, todos atacam e todos defendem, todos se sentem responsabilizados pelo ataque e pela defesa. E aqui, no meu modesto entender, os jogos ganham-se com jogadores, superdotados, supertreinados, psicologicamente supermotivados e sabiamente moralizados. Cito de cor o Karl Marx da Introdução à Crítica da Economia Política: “O concreto é concreto, porque é a reunião de muitas determinações. É portanto a unidade da diversidade”. Luís Filipe Vieira, por ele e pelos órgãos sociais; a massa associativa e todos os que vivem o ideal benfiquista; Jaime Graça, o treinador do treinador Bruno Lage; os jogadores, a equipa técnica, os médicos, os enfermeiros, os fisioterapeutas, etc., etc.; a sabedoria de Bruno Lage – todos, solidariamente, tornaram verdadeira, concreta a vitória do Benfica, no Nacional de Futebol da época de 2018/2019. Embora o Bruno Lage tenha mostrado, na mutabilidade constante em que o futebol se movimenta, as qualidades ideais para dar expressão orgânica e eficaz ao efémero e fugaz deste espetáculo desportivo. E o Luís Filipe Vieira a sagacidade, digo mesmo: uma rara sagacidade, na escolha do treinador.

 

                Há muitos anos já, o José Maria Pedroto, nos diálogos fraternos que me permitiu, teceu um dia algumas considerações acerca das qualidades necessárias a um treinador de futebol. E chegou a inquirir-me: “Sabe quem é, para mim, o melhor treinador de futebol?”. Não fazia ideia, de facto. E ele continuou: “O antigo jogador da linha média”. De inteligência penetrante, argumentou: “É que é na linha média que mais se pensa o jogo. Quem dominar o meio-campo tem normalmente as chaves do êxito, num jogo de futebol”. E, ao longo da nossa conversa, não tardou ele em concretizar o que pensava: “O João Alves e o Manuel José, por exemplo, têm todas as condições para triunfar, como treinadores de futebol”. E tanto João Alves, como Manuel José, são hoje dois treinadores de futebol que, diga-se em abono da justiça, muito respeito e admiração merecem, pelo trabalho que têm desenvolvido, como treinadores de futebol. A propósito das ideias de Pedroto, não escondo o meio-campo Busquets-Xavi-Iniesta do Barcelona de Guardiola. “A fórmula mágica do sistema blaugrana encontrava-se no meio-campo. Os jogadores que ocupavam esta zona e que eram formados no futebol das camadas jovens do clube tinham uma relação especial com a bola. Quando a tinham, sorriam mas, quando não a tinham, sofriam. Ficavam frustrados quando sentiam a impotência de saboreá-la” (Ricard Torquemada, A Fórmula Barça, Prime Books, p. 55). Busquets-Xavi-Iniesta, acompanhados por um falso 9 da craveira ímpar do Messi, não são as sombras de um passado morto, porque formam a melhor linha média que os meus olhos viram e que pude saudar, nos meus escritos, com palavras efusivas. Jaime Graça jogava também na linha média e era jogador internacional de múltiplos talentos. Não me surpreende tenha sido o “treinador do treinador” de Bruno Lage. E que, nas palavras e no talento de Jaime Graça, Bruno Lage tenha encontrado o caminho para um melhor clima emocional da sua equipa. Jorge Araújo sublinha, no seu livro O Treino do Treinador (TeamWork, Porto, 2016) que a Liderança pode (e deve) ser ensinada… para que se possa liderar com sabedoria! (pp. 83/84).

 

                Há quem prefira à verdade dos princípios o oportunismo da glória fácil. E, como já vimos, numa perspetiva de totalidade, Luís Filipe Vieira é o líder de todo este processo em devir, de toda esta totalização em curso. Foi ele que deu conteúdo e anunciou a forma à historicidade constitutiva desta vitória, no Nacional de Futebol. De facto, o futebol benfiquista parece desperto e atuante e foi L. F. Vieira o primeiro a dizê-lo. Aguardemos, agora, pela historicidade do processo. Aguardemos pelo Futuro da instância prática de intervenção do presidente do Benfica. Com efeito, ainda numa perspetiva de totalidade a relação Vieira-Lage é fundamental, nas macro-decisões de Vieira, na liderança antropológica e técnica de Lage. Volto a Jorge Araújo: “O treinador precisa que os jogadores e os dirigentes assumam como seus os desafios com que a equipa se defronta, o que naturalmente exige um impacto comunicacional, que surpreenda e emocione, tal como também uma autoridade reconhecida e não imposta” (op. cit., p. 15). Michel Serres faz da fraqueza o motor da História: “Avançamos por problemas e não por vitórias, por insucessos e recuperações e não por superações” (Diálogo sobre a Ciência, a Cultura e o Tempo, I. Piaget, Lisboa, p. 251). Eu faço da consciência da fraqueza e da subsequente transcendência o “motor da história”. Numa perspetiva de totalidade, sem a transcendência, sem uma instância prática, bem humana, de intervenção, o processo histórico não acontece. Por isso, para mim, não há “periodização tática”, mas “periodização antropológica e tática”. Por esta razão muito simples: sem o homem, não há tática. Na formação de um jogador de futebol, a formação moral está antes da cultura tática. Sem aquela, esta não se concretiza com generosidade e espírito de equipa e vontade imparável de vitória. Como admiramos, em Cristiano Ronaldo (o maior jogador português que os meus olhos já contemplaram – e eu vi jogar, entre outros, o Rogério Lantres de Carvalho e o José Travassos e o Fernando Peyroteo e o Coluna e o Matateu e o Rui Costa e o Luís Figo e o João Vieira Pinto) faz sempre falta um génio a completar os talentos que o acompanham, numa equipa. E o Benfica, hoje, não tem um Ronaldo.

 

                Já na minha tese de doutoramento eu escrevi que “a ciência alimenta-se da dúvida e vive da incerteza”. Por muitas razões e mais esta: a ciência nunca é totalmente científica, ou seja, totalmente objetiva. Nela encontramos sempre, para além de ciência, ideologia, filosofia, religião e muito mais. Por isso, no termo das suas investigações, o cientista sabe que não encontra a Verdade mas “verdades” provisórias e datadas. Cito agora Hilton Japiassu: a ciência deverá definir-se como “um processo inacabado de busca de verdades provisórias. Nesta perspectiva, a evidência só pode ser um engano ou um dogma. E a certeza só pode ser credulidade ou cegueira” (Questões Epistemológicas, p. 31). Por isso, sentindo com naturalidade a provisoriedade desta minha afirmação, adianto (embora possa enganar-me, repito) que o João Félix pode não ser o génio que o Sr. Luís Filipe Vieira procura. Talentoso é, sem sombra de dúvidas; genial não é, assim julgo. Desmistificar a genialidade do João Félix é, hoje, a melhor prova de amizade, em relação a este “menino”, dos dirigentes, dos treinadores, dos seus familiares, dos seus amigos mais próximos. O génio é o Outro, o Inesperado, o génio é a suprema Diferença, o que o João Félix não me parece ser. No entanto, porque, no ente, o seu ser é o devir, oxalá eu me engane e no João Félix , pelo seu trabalho, pela sua persistência, pela sua honestidade, ainda se veja crescer a singularidade do génio. Messi, com 17 anos, começou a jogar e a deslumbrar, na equipa do Barça. No Ajax dos nossos dias, não se vislumbram génios. Trata-se de uma equipa de talentos, informada e formada, para o ataque, de acordo com a tradição mais radical desta equipa, mas nunca uma equipa preparada, para o ataque, defendeu com tanta perfeição. Como? Não dando tempo ao adversário, para pensar o jogo! Nas dimensões integrais do campo, onde está a bola, está um jogador do Ajax. Defender não é esperar pelos jogadores da equipa rival, é tirar-lhes a bola, onde a bola se encontrar. Anarquizar o jogo dos adversários significa não deixá-los pensar. Só que o génio lança uma luz ao seu redor que o mundo não tem, sem ele. E a este já é muito mais difícil subjugar o seu futebol. No génio, descobre-se uma arqui-razão que é desconhecida para o conhecimento vulgar. Arqui-razão que eu julgo ter vislumbrado em Bruno Lage…

                                  

 

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