Fim de temporada – A traição das imagens

O Mundo dos Guarda-Redes 06-06-2019 17:40
Por Roberto Rivelino

René Magritte deixou-nos a contemplar uma pintura a que lhe deu o nome ‘A traição das imagens’ [1929]. O que intriga não é a imagem de um cachimbo, mas sim a legenda: «Isto não é um cachimbo». A obra e o seu significado quiçá subliminar, quiçá concreto, descreve na perfeição a temporada 2018/2019 dos guarda-redes em Portugal.

Caracterizo-a como uma época anormal, razão principalmente atribuída à análise de que tanto Benfica, Sporting ou FC Porto não apresentaram um nome com rendimento notável ou até imaculado quando comparado com anos anteriores, em que se discutia nomes de Ederson Moraes, Rui Patrício ou Iker Casillas – que neste exercício se mostrou mais duro, menos gigante e menos decisivo (ver peça à parte).

Olhando para Vlachodimos, Renan Ribeiro ou para Iker Casillas em 2018/2019 não se consegue apontar para qualquer um como o exemplo a seguir por outros guardiões ou por não registar prestação exemplar do que deve ser o guarda-redes do contender ao título. A linha, navegando pela tabela classificativa, não se mostrou a alto nível e é um desafio encontrar um guardião que se tenha consolidado como «o melhor» da temporada.

Houve a natural curiosidade para se acompanhar as progressões e o rendimento de guarda-redes como Léo Jardim (Rio Ave), Ricardo Ferreira (Portimonense SC), Tiago Sá (SC Braga), Jhonatan (Moreirense), ou Cláudio Ramos (CD Tondela – que parece merecer desafios mais complexos e pode cair na estagnação se não fora exigido a isso mesmo), mas também a valorização de intervenções de menor qualidade mas de maior espetacularidade como surgiu na baliza do Boavista, com Helton Leite (o caso mudou de figura com Rafael Bracali), ou CS Marítimo, com Charles Marcelo (menos absorvedor de jogo do que Amir Abdezadeh e mais intempestivo), e que acaba por mostrar a existência de um critério menos qualificado para a elevação dos guardiões até patamares maiores – precisamente a chegada aos três clubes principais, onde o investimento está no número um enquanto as soluções aparecem em saldo (veja-se o Sporting sem diferença acentuada de qualidade entre Renan e Romain Salin ou as alternativas a Iker Casillas, no encontro de Vaná ou Fabiano com o decréscimo de capacidades).

Nesta ‘traição das imagens’ temos de pensar o jogo e o que ele exige. Seguinte, encontrar guarda-redes capacitados para o que os momentos de jogo exigem – desde o controlo de profundidade ao um-para-um, passando pela abordagem a cruzamentos ou bolas áreas. Ter guarda-redes conhecedores do jogo e com mentalidade pró-ativa para a sujeição adequada aos desafios propostos durante 90 minutos (todos eles devidamente preparados durante a semana com o treinador de guarda-redes), irá obrigar a outra leitura por parte de quem observa, de quem treina, de quem dirige e de quem é capaz de elevar ou dignificar as prestações do guarda-redes. Sentir-nos-emos menos traídos se conseguirmos perceber se o guarda-redes percebe o jogo e se não responde só fisicamente (ou com o físico).

 

 

O que deve mudar na baliza dos grandes

 

A temporada que se concluiu ofereceu um denominador comum às três balizas dos primeiros classificados: não se consegue elevar aos níveis de topo do futebol Europeu as performances de Iker Casillas, Odisseas Vlachodimos ou Renan Ribeiro.

O guarda-redes do FC Porto não se conseguiu exibir ao nível de temporadas anteriores, algo notório principalmente nas suas capacidades físicas: distante da velocidade de reação e de execução que lhe valeu um lugar na história, mais preso e mais pesado. Longe do centro das decisões, valeu pontos frente ao Santa Clara – defesa notável a um cabeceamento de Guilherme Schettine -, e teve aí o seu momento de maior glória. Pelo bom do futebol, esperemos que não fique por aqui e que volte a exibir-se como outrora.

Na baliza da Luz, Odisseas Vlachodimos oscilou entre momentos de espetacularidade e outros de displicência, notórios de várias temporadas em ritmos competitivos distantes dos pedidos para tamanho desafio (e pressão). Campeão e com evidentes lacunas para assumir o jogo que Bruno Lage quer impingir no futebol do Benfica (remeto para a entrevista de final de temporada) – contudo, antecipo-o (isto, imaginando a sua progressão), como um guarda-redes capacitado para cobertura a um potencial titular neste nível.

Pelo Sporting, ora com Renan Ribeiro ou Romain Salin, imaginava-se o que acabou por ficar desenhado nas intervenções de qualquer um dos guardiões utilizados: menor tranquilidade, menos metros de abrangência e decisões mais intempestivas. Pode-se debater o equilíbrio das capacidades ou qualidades de ambos, contudo penso que os penaltis decididos por Renan vão cobrir as incapacidades para assumir a número um dos Leões – entrega e dedicação não se traduz necessariamente em rendimento e a (possível), evolução não se adivinha suficiente para a qualidade, exigência e regularidade que esta baliza requer.

 

 

Luva de Ouro – Cláudio Ramos (CD Tondela)

Mesmo sendo guarda-redes consegue ser a alma mater da sua equipa, algo só possível ao se isolar da catadupa de lacunas que o obrigam a sujar o equipamento por inúmeras vezes por encontro. Coroou a temporada com estreia na seleção e com importância na manutenção.

 

Luva de Prata – Léo Jardim (Rio Ave FC)

Temporada de estreia e marcada por altos e baixos. Por termos visto mais positivos do que negativos (especialmente na primeira metade da época), o guarda-redes brasileiro manteve o clube ligado aos objetivos com notáveis intervenções – na vertigem do último grito ou a absorver situações de chance reduzida.

 

Luva de Bronze – Muriel Becker (Os Belenenses SAD)

Fez-se valer em várias situações de aperto (como na vitória frente ao SL Benfica na oitava ronda), e conseguiu apagar momentos atribulados (erros com golo sofrido em lances de aparente menor dificuldade), graças a uma envolvência física e mental de nível destacável.

 

Menções honrosas: Marco Rocha (CD Santa Clara); Ricardo Ferreira (Portimonense); Douglas Jesus (Vitória SC); Quentin Beunardeau (CD Aves); Jhonatan (Moreirense FC)

 

 

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