A educação pelo desporto: utopia ou realidade? (artigo de Vítor Rosa, 39)

Espaço Universidade 01-06-2019 11:57
Por Vítor Rosa

A tese de Norbert Elias e Eric Dunning é conhecida: o desporto é fruto da civilização dos costumes, da aprendizagem das regras através da competição, que leva a uma canalização controlada da violência e das emoções e da interiorização das normas de comportamento.

 

O desporto, como se sabe, nasce na Inglaterra. Tem um período específico: o vitoriano, ou seja, do desenvolvimento industrial e de forte urbanização. Os jogos de exercícios (que não são ainda desporto) foram codificados e utilizados segundo uma solução pedagógica, respondendo a uma preocupação educativa: disciplinar a juventude, não pela vontade impositiva de uma autoridade superior, mas pela aceitação voluntária de regras comuns, que ultrapassam o quadro de um terreno de jogo para se aplicar na vida quotidiana, cultivar e canalizar o gosto pela ação, para forjar os homens de carater, dotados de qualidades morais úteis para o país: espírito empreendedor, lealdade, perseverança, mentalidade de lutador e de vencedor. Foi este modelo de educação que os promotores da educação liberal quiseram depois importar para França, como foi o caso de Pierre de Coubertin.

 

A questão que podemos colocar é a seguinte: em que medida os valores educativos do desporto, herdados de Inglaterra vitoriana, são de atualidade?

 

O desenvolvimento das práticas desportivas, o seu lugar e o seu papel na sociedade oferecem imagens contrastadas para não dizer contraditórias. As relações que o desporto promove com a violência nos estádios e nas bancadas, com o dinheiro e a droga ou o doping, parecem negar toda a pretensão de o edificar a algo supremo. Os “advogados” do desporto puro e do desporto educativo pretendem ilustrar que ele foi desviado do seu objetivo inicial, tornando-se uma presa dos mercadores do templo, um lugar de lutas políticas, ideológicas e sociais. Pode ser verdade. Mas o número de praticantes não cessa de aumentar. Se o desporto não assumisse um valor educativo, os encarregados de educação não desejavam que as suas crianças praticassem uma ou mais modalidades desportivas e de as praticar eles mesmos.

 

Os atletas estão muito longe de ser virtuosos. Para ganhar, é preciso agressividade, é preciso “destruir” o adversário. Não é isso que se ouve nos balneários ou fora deles?

 

Não faltam instituições educativas que propõem a prática de um ou mais desportos. Entre elas, temos a Escola. Uns vão me dizer que eles não fazem desporto, mas sim educação física. Distingo subtil, mas incompreendido pelos alunos e pais, e que pede um “tratamento didático” sofisticado.

 

O desporto é um incontestável meio de educação. Ele favorece os comportamentos responsáveis, pacíficos e democráticos e contribui para o desenvolvimento positivo da personalidade. Mas os valores desportivos não devem ser considerados como objetivos ou condutas que podemos prever ou avaliar, mas como algo a construir, organizando as condutas de cada um.

 

Referência:

Elias, N. & Dunning, E. (1994). Sport et civilisation, la violence maîtrisée. Paris: Fayard.

 

Vítor Rosa

Sociólogo, Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no Centro de Estudos Interdisciplinares de Educação e Desenvolvimento (CeiED) e Centro de Estudos e Pesquisa Social (CPES), da Universidade Lusófona de Lisboa

Ler Mais
Comentários (4)

Últimas Notícias

Mundos