A desconstrução, na ciência atual (artigo de Manuel Sérgio, 295)

Espaço Universidade 02-06-2019 15:50
Por Manuel Sérgio

O que vou escrever toda a gente o conhece: uma profissão é respeitada, a partir do que produz, da qualidade do que produz, da utilidade do que produz e, sobretudo, da postura crítica diante do que produz. Atualmente, o questionamento é o primeiro momento da investigação científica, em particular de um conhecimento que se pretende inovador. E, como inovador, desconstrutivo. De facto, quem inova começa por desconstruir. Recordo Gilles Deleuze (1925-1995). O seu pensamento cresceu e frutificou à sombra de Nietzsche e assim participou na desconstrução da modernidade de Descartes a Hegel. Derrida (1930-2004) rejeita liminarmente o logofonocentrismo da cultura ocidental. Trata-se (diz ele) de um puro idealismo. E, porque idealismo, uma ditadura. O determinismo científico positivista acompanhava a ditadura do racionalismo filosófico. Há na ciência e na filosofia uma indiscutível concordância, pois que as “verdades” científicas não são independentes das crenças e dos valores. No caso do determinismo científico, ele sofre um telúrico abalo, com a admissão da estatística, para explicar o comportamento macroscópico da matéria e da energia – abalo que atingiu mesmo o “corte epistemológico”, com a incerteza e a ambiguidade onda/corpúsculo da Mecânica Quântica. Por isso, é tão analfabeto o que nada sabe, como o que julga que sabe tudo e que desconhece que a aplicação prática dos conhecimentos é uma arte e portanto, na passagem da teoria à prática, no próprio conhecimento científico, há mais do que ciência. Michel Serres, em diálogo com Bruno Latour (cfr. Michel Serres, Diálogo sobre a Ciência, a Cultura e o Tempo, Instituto Piaget, p. 74): “O século das Luzes contribuiu fortemente para remeter, para o domínio do irracional, toda a razão não formada pela ciência. Ora, eu defendo que existe tanta racionalidade, em Montaigne e em Verlaine, como na física e na bioquímica e, reciprocamente, há por vezes tanta irracionalidade dispersa nas ciências, como em certos sonhos”. Ou seja, a razão encontramo-la, estatisticamente igual, nas ciências e na literatura e não só nas ciências.

 

Bohme e Stehr, em livro célebre, The knowledge society – The growing impact of scientific knowledge on social relations, sublinham que a sociedade hodierna pode intitular-se a “Sociedade do Conhecimento” e um Conhecimento que radica na ciência e na tecnologia, as quais se apresentam como a força produtiva imediata e de grande poder desconstrutivo/reconstrutivo. De salientar ainda, na Sociedade do Conhecimento, a emergência dos intelectuais, como nova classe social. E portanto uma classe aberta à desconstrução/reconstrução permanentes do conhecimento. Embora a obra, que correu mundo, de Daniel Bell, sobre a sociedade pós-industrial, afirmando a centralidade da teoria, no conhecimento científico, para mim o intelectual, na Sociedade do Conhecimento, é um teórico de grande experiência prática. Ele deverá saber que uma invenção, ou uma descoberta, no mundo das ciências, desvenda, ao mesmo tempo, ciência e cultura. Na Sociedade do Conhecimento, a ciência, por si só, não poderá percecionar-se, como um “conhecimento completo”, porque a realidade, qualquer que ela seja, é bem mais do que ciência, é bem mais do que tecnologia. Conta-se que o célebre criador dos “Ballets Russes”, Serguei Diaghilev, suplicava ao dramaturgo, ao cineasta, ao escritor, Jean Cocteau: “Étonne-moi”. Alguns novos cientistas do Desporto também não se fazem rogados, para nos espantar, quando afirmam, publicamente e sem quaisquer problemas, que a tecnologia, de que dispõem, lhes permite a formação de campeões de invulgares qualidades. Sem dispensar o contributo inestimável da tecnologia (seria ridículo, já em pleno século XXI) o ser humano não desenvolve as suas qualidades, com tecnologia tão-só. Ainda há pouco, o treinador de futebol do Benfica, Nuno Lage, confessava à Imprensa: “Querem saber o segredo da nossa vitória, no campeonato nacional?”. E, quase escandindo as palavras, adiantou: “Fomos uma família!”. Fazendo minhas as palavras do grego Sócrates, “só sei que nada sei”, não devo esconder que já dialoguei com grandes treinadores desportivos, que fizeram o favor de responder às minhas dúvidas e demarcando-se de um entendimento generalizado, entre jovens académicos, me ensinaram que têm no cérebro verdadeiras abstrações da realidade os que fazem da tecnologia a primeira das causas de um modelar treino desportivo. De facto, assim como alguns que se julgam astrónomos não fazem mais do que astrologia, também alguns que se julgam cientistas do desporto não passam de cartomantes. Há qualidades, no praticante, que são verdadeiros atributos humanos e não se trabalham, unicamente (nem principalmente) com tecnologia.

 

Do que venho de escrever se infere da necessidade do contributo da tecnologia, no Desporto, mas de uma tecnologia humanizada. O sujeito, o tempo, a história, a cultura têm uma participação substantiva no processo de construção da ciência contemporânea. Thomas Kuhn, depois de ter estudado, com diligência e originalidade, a História da Ciência (dando especial relevo à Física) interpretou-a como uma atividade que resulta, não de um crescimento linear e contínuo, mas de revoluções científicas. Não esqueço que Lakatos defende a hegemonia de um paradigma, mais pelo sucesso do que pelo confronto, mais pelo diálogo do que pela competição. Seja como for, só com tecnologia não se formam homens (e mulheres), tanto na área do desporto, como no âmbito da educação. Na década de 30, a Alemanha era o país, tecnologicamente, mais avançado da Europa e, no entanto, criou o nazismo onde se descortinavam mais palavras do que ideias e com um líder (aplaudido por massas descabeladas, capazes dos maiores atropelos à dignidade humana) em que a loucura assumiu a forma de estupidez. Atualmente, a ciência e a tecnologia têm um poder tal que, sem filosofia, sem teologia, sem cultura, podem colaborar na destruição do próprio planeta. Como dizia o velho Esopo a respeito da língua, a ciência e a tecnologia podem tornar-se na melhor e na pior das coisas. Dizia-me, fraternalmente, há poucos dias, o António Simões, extraordinário jogador de uma extraordinária equipa, o Benfica da década de 60: “O meu amigo, para mim, tem um método: passa da prática à teoria e das ciências à filosofia e da vida à sabedoria. Por isso, o estar tão perto de nós e compreender-nos tão bem, a nós os que vivemos anos e anos, como jogadores de futebol”. E eu: “Por isso, a vossa competência, sempre renovada, de o meu amigo e outros dos seus colegas, antigos jogadores de futebol, poderem questionar o saber teórico de um modesto aprendiz da filosofia, como eu”. O ser humano é um ser inquestionavelmente biológico, mas também um ser inquestionavelmente cultural que, pela transcendência, vive num universo de consciência, de linguagem e de ideias. E, no ser humano, biologia e cultura são inseparáveis, quero eu dizer: a biologia desenvolve-se pela cultura e a cultura encontra uma raiz biológica em tudo o que faz.

 

E uma questão, neste momento, me nasce no cérebro: E as máquinas, ajoujadas de tecnologia, mas sem emoções, podem ser inteligentes? “Na concepção de Damásio, as emoções primárias podem, numa fase inicial, ser vistas apenas como meras reacções fisiológicas. Mas, num momento imediatamente seguinte, essas emoções associam-se aos sentimentos primordiais e transformam-se em sentimentos emocionais. Por conseguinte (…), os sentimentos primordiais surgem necessariamente associados a uma forma elementar de “eu”, o “proto-eu (ou proto-self), É este “eu” que, ao surgir associado aos sentimentos primordiais, está na origem das primeiras formas de consciência” (Artur Azul, Mente e Consciência – Filosofia e Neurociência, Guerra e Paz Editores, Lisboa, p. 145). Atualmente, parecem inexatas as opiniões dos que desconhecem que as emoções são parte (e ativa) da inteligência. Aliás se, no ser humano, tudo está em tudo, por que não estariam as emoções, na razão? Por isso, para mim, os computadores não aprendem, porque não se emocionam. Acabo de escrever um erro de palmatória? De facto, o computador pode armazenar uma incontável quantidade de informações, mas não erra e, porque não erra, não descobre, nem inventa. E a sabedoria, quero eu dizer: a serena lucidez de quem sente todos os problemas, como se a todos já os tivesse vivido? A palavra “sabedoria” suscita inúmeros comentários, nas várias áreas do saber. Aí deixo o resumo de uma definição a este propósito: a sabedoria é uma filosofia de vida de alguém com larga tarimba de experiência e de informação. E, também aqui, há que saber desconstruir os vários textos de certos cientistas do desporto, doentiamente agarrados aos números, à tecnologia, ao homem-máquina. Alguns deles até são professores e ainda não entenderam a ligação essencial (eu diria mesmo: dialética) entre o estudo continuado do professor como fundamento da aprendizagem permanente dos alunos. Embora eu reconheça que é a esclerose em boa parte do sistema que sustenta uma docência reduzida ao mero ensino de coisas que já não servem para nada.

 

C. P. Snow, em conferência célebre, na Universidade de Cambridge (conferência intitulada Duas Culturas) deu um novo impulso à tese de que o saber universitário se encontra dividido em dois grupos, aparentemente inconciliáveis: de um lado, documentados e argutos nas investigações, os cientistas incapazes de uma crítica a um acanhado positivismo (ou neopositivismo)); do outro, os “intelectuais”, com um extenso saber literário, mas sem ponta de interesse por uma prática científica, ou pelo máximo de consciência possível de uma “revolução científica”. Não esqueço o que Ortega y Gasset escreveu: “A ciência experimental desenvolveu-se, em grande parte, graças ao trabalho de pessoas inquestionavelmente medíocres”. Se bem penso, eu direi que, tanto as ciências, como as humanidades, crescem, evoluem, universalizam-se, graças ao trabalho diligente de pessoas fabulosamente medíocres, universitárias ou não. A competência na cátedra e a genialidade na criação científica (e, se possível, a honradez na vida pessoal): são poucos e, quando existem, ainda têm que suportar a inveja, o ressentimento de uns certos pigmeus, intelectualmente muito limitados  e praticamente impotentes e sem rumo. A desconstrução tem de chegar à frieza intelectual dos cientistas e ao analfabetismo científico de certos cultores das ciências sociais e humanas. Des-construir para re-construir. Desconstruir uma área científica, pensada e promovida por “tecnocientocratas” que olham com velada antipatia para a síntese ciência-cultura, ciência-arte, ciência-filosofia; e desconstruir ainda os literatos retóricos, há muito divorciados de um sério convívio com a tecnologia (incluindo a tecnologia digital) e a ciência, passando pelas energias renováveis ou pela computação quântica. E, depois de desconstruir, reconstruir todo o conhecimento científico, incluindo as ciências sociais e humanas, onde não deixe de escutar-se a recomendação de Rousseau a Emílio: “Quero ensinar-te a viver”. Porque é de viver (e não só durar) que se trata, quando se trata das ciências e das humanidades.

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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