Desporto: identidade e multiculturalismo (artigo de Vítor Rosa, 37)

Espaço Universidade 23-05-2019 23:19
Por Vítor Rosa

Tanto quanto nos foi dado a observar, durante sete anos, para os portugueses que vivem em França o futebol tende a assumir-se como um meio de manter os laços sociais com o país de origem, valorizando-se no seio da sociedade francesa. É um dos raros domínios onde se podem sentir melhores do que os franceses, permitindo, de algum modo, compensar a imagem “pouco atraente” dos portugueses residentes em França.

 

   Nos anos 60/70, muitos portugueses deixaram um país empobrecido dominado por uma ditadura e a braços com uma guerra colonial que mobilizava todos os jovens, entrando em França de forma clandestina (o designado “salto”; ver o filme realizado por Christian Chalonge, “O Salto”, 1967). A maioria partiu das zonas rurais mais pobres do país, tendo-se sujeitado a viver em bairros de lata (“bidonvilles”), como o de Champigny-sur-Marne, e a realizar os trabalhos mais indiferenciados, pouco prestigiantes e mal remunerados.

 

   No contexto histórico da emigração portuguesa, rumo a França, mas não só, os campeonatos internacionais de futebol entre seleções nacionais constituíram, desde cedo, a ligação das comunidades emigradas a Portugal. Com o processo de globalização do futebol e a mediatização em larga escala dos grandes eventos a partir do final dos anos noventa, a juntar ao facto da Seleção portuguesa se ter tornado uma equipa de primeiro plano com presença assídua nos campeonatos, as manifestações de afirmação das comunidades portuguesas emigradas têm vindo a evidenciar-se, como constituiu exemplo as manifestações de apoio durante o Euro 2016. Os bons resultados da Seleção portuguesa em campo, tendem a ser motivo de orgulho nacional, alimentando os sentidos identitários dos portugueses residentes fora do país e seus descendentes, independentemente das nacionalidades adquiridas.

   Poder-se-á pensar que esta ligação a Portugal pode ser uma resposta a uma forma de estigmatização sofrida em França. De fato, não se pode negligenciar que, em França, nas sociabilidades dos adolescentes no colégio e no liceu, ou no trabalho, muitos indivíduos são identificados em função do país de origem dos seus pais. Esta identificação assume formas de brincadeiras e de piadas, mais ou menos de mau gosto, sobre a construção civil, as limpezas ou a pilosidade nas mulheres (o filme de Ruben Alves, La Cage Dorée, 2012, retratou muito bem esta realidade dos portugueses em França, sobretudo os da chamada “primeira geração”).

 

   Deste modo, apoiar a Seleção portuguesa, uma equipa que se tornou uma das melhores a nível mundial, permite uma autovalorizarão que se contrapõe ao estigma não raras vezes sentido. A origem portuguesa deixa assim de ser uma desvantagem para se tornar fonte de orgulho, facto que poderá ser acionado a qualquer momento, ainda que não se possa daí retirar nenhuma outra conclusão do que isso mesmo, pois a realidade social mantém-se nos quotidianos, a depender do grau de inserção na sociedade francesa. Porém, durante os campeonatos podem avivar-se os estigmas, embora com maior capacidade de resposta por parte das comunidades minoritárias quando se sentem ofendidas, pois o torneio é entre Estados-nação.

 

   Exemplo desta realidade, foi o caso da adjetivação de “dégueulasse” [ignóbil, revoltante] a Portugal por um jornalista, após o jogo de apuramento para os quartos de final do torneio da Seleção portuguesa, em 2016. Depois do jogo contra a Croácia, realizado no dia 25 de junho, um jornalista francês do jornal “20 minutes” publicou um artigo no dia seguinte, referindo “Ce Portugal est dégueulasse mais il est en quarts” [este Portugal é ignóbil, mas ele está nos quartos de final]. Levado a título na notícia, esse adjetivo foi considerado ofensivo e provocou fortes reações da comunidade portuguesa residente em França nas redes sociais, chegando mesmo a registar-se ameaças de morte ao jornalista, o que obrigou o diretor da redação a referir que “o nosso jornalista qualificou de forma inapropriada de 'dégueulasse' a prestação da Seleção portuguesa. Mas quando a paixão toca o irracional, o perigo espreita”. O jornalista, autor do artigo, acabaria por pedir desculpa aos portugueses pela escolha do seu título e encerrou a sua conta Twitter. Num outro periódico, o jogo viria mais tarde a ser considerado como “soporífero”, “realista” e “defensivo” (Le Monde, 12/07/2016).

 

   De facto, a multiculturalidade da sociedade francesa tem-se tornado bem evidente quando do acolhimento de grandes eventos de futebol, como foi o caso do Mundial de 1998, em que a França se consagrou campeã mundial com uma Seleção constituída maioritariamente por jogadores franco-descendentes, com especial destaque para o seu capitão Zinedine Zidane, mais conhecido por “Zizou”, o famoso jogador franco-argelino, mas também durante o Europeu de 2016 e o Mundial de 2018.

   Importará a este respeito referir que a integração de três jogadores portugueses nascidos em França na Seleção francesa, em 2016, Raphaël Guerreiro, Anthony Lopes e Adrien Silva, não suscitou nenhuma polémica, surgindo aos olhos da comunidade portuguesa como bons exemplos de luso-descendentes de sucesso, bem evidenciado pelo papel de representação da França na sua Seleção nacional.

 

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

 

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