Ronnie falha UK, Masters e Mundial: só jogará três provas em 2019/20

Snooker 23-05-2019 19:39
Por António Barroso

O inglês Ronnie O’Sullivan, de 43 anos, número um do ranking e pentacampeão mundial de snooker (2001, 2004, 2008, 2012 e 2013), voltou esta quinta-feira a surpreender ao anunciar que não irá jogar qualquer das provas Triple Crown – UK Championship, Masters e Mundial – e irá disputar apenas três competições na época de 2019/2020.

 

Em entrevista ao diário britânico The Telegraph, o Rocket, para muitos o maior predestinado de sempre a já ter agarrado num taco, e que já em 2012 abandonou a modalidade, após vencer o título mundial – para voltar em 2013… e renovar o ceptro com uma semana de treinos -, e que desiludiu no último Campeonato do Mundo, terminado no dia 7 do corrente mês em Sheffield (Inglaterra), ao ser eliminado pelo compatriota amador James Cahill logo na primeira ronda (8-10) foi claro: saturação.

 

«Não quero jogar no Mundial 2020. A importância da prova está sobrestimada», disse O’Sullivan, que na presente temporada (2019/2020), a sua 27.ª no circuito profissional, se tornou o primeiro na era moderna desta variante do bilhar a ultrapassar o milhar de entradas centenárias (100 ou mais pontos sem falhar bola bola nos buracos), e igualou os 36 títulos em provas de ranking do escocês Stephen Hendry, além de estabelecer novo recorde de títulos em provas Triple Crown [Tripla Coroa], com 19: cinco Campeonatos do Mundo – continua a dois dos sete de Hendry, e a um do compatriota Steve Davis e do galês Ray Reardon - sete Masters (recordista absoluto) e agora sete vitórias no UK Championship, novo recorde absoluto.

 

«Esta época, joguei 11 torneios [venceu cinco, Xangai Masters, Champion of Champions, UK Championship, Players Championship e Tour Championship, foi à final de mais dois, Open da Irl. Norte e Masters, e às meias-finais no Open de Inglaterra]; na próxima época, vou jogar apenas três. Só quero jogar alguns encontros para manter um pouco o interesse e a expetativa. E porque me aborreço a ficar em casa. Talvez três, quatro torneios por ano, seja o suficiente. Mas dos de menor importância, onde não haja holofotes dos media ou jornalistas. Por isso, vou falhar o UK Championship, o Masters e o Mundial», disse Ronnie ao repórter Jeremy Wilson.

 

«Nem quero saber de jogar o Campeonato do Mundo, que é tudo o que a imprensa e os media querem que faças. Não estou para isso. É bom para os novos, para quem nunca foi campeão e tem esse como o seu sonho. Para mim, o Mundial está sobreavaliado. É fantástico quando o vences, mas uma semana a competir chega. E já o ganhei cinco vezes. Atualmente, não vale o meu sangue, suor e lágrimas. Por isso, essa prova provavelmente já não será para mim», foi a revelação de O’Sullivan.

 

A sua problemática e constantemente conflituosa relação com World Snooker e o chairman da instituição, Barry Hearn (seu antigo agente) também explica em parte a tomada de decisão de um predestinado dos panos verdes como Ronnie.

 

«É como um casamento que fracassou. Eles não gostam de mim, eu também não os aprecio, realmente. Mas vivemos sob o mesmo teto. Só pelo bem dos miúdos. E ficaremos juntos até eles terminaram a sua educação. Então, para mim, acabou. Poderemos separar-nos e alugar, cada um, um apartamento diferente. Mas se quiserem forçar a nota e infernizar-me a vida, não contem comigo. E todos perdemos, porque deixarei de comparecer e jogar torneios. Também com grande pena minha, porque ainda tenho vontade de jogar. É tudo o que quero, sem espartilhos. Por isso, continuamos a tentar não ferir a suscetibilidade uns dos outros e tentamos tolerarmo-nos mutuamente», afirmou, contundente, o Rocket.

 

 

«Farto desta m****» dos jornalistas

 

«A forma mais fácil de o explicar é fazer como o Kimi Raikonnen [piloto de F1 finlandês]: ele gosta de correr mas não de falar muito sobre isso. E eu também não quero ter de me andar a promover, ou ao jogo. Não é essa a razão por que jogo. Para mim, ajudar as pessoas com o meu snooker é embolsar bolas, fazer 147’s [entradas máximas em pontos, é recordista absoluto com 15]. Não vejo necessidade de me sentar a uma mesa e falar sobe o meu oponente, o torneio, como acho que será o jogo. Estou farto dessa m****! Nada mais tenho a dizer exceto deixar que o meu snooker fale por mim. Não quero ter de trabalhar com gente que só te quer espremer mais e mais até quebrares e lhe dizeres ‘estou fora’», disse o inglês, sem esconder o enfado por antevisões e diálogos com a imprensa.

 

E deu como exemplo o contexto do embate com James Cahill, no Mundial. «Na altura não sabia de que padecia, só que me sentia mal e exausto. Mal me aguentava nas pernas, sem forças, e a perspetiva de ter de fazer 19 frames com aquele miúdo que estava a adorar cada minuto?! Parecia estar drogado, ou outra coisa qualquer», disse.

 

«Uma semana depois, um grande amigo meu ligou-me e disse-me que tinha passado três dias de cama. Só me lembro de pensar ‘ Graças a Deus, também apanhou esta coisa, este vírus, deve ter sido isso’. Eu e ele, inconscientemente, contraímos algo. Um erro de escola. E ambos ficámos doentes. Se tivesse vencido o jogo, depois ter-me-ia restabelecido e ficado bem. Mas foi só o raio de um jogo, não é? Só mais um torneio de snooker, no final do dia», acrescentou o ídolo de milhões.

 

E quanto ao possível domínio do novo campeão mundial, Judd Trump, nos próximos anos, Ronnie foi claro. «No meu caso, tive de me haver com cinco gerações diferentes de jogadores, nada tenho a provar. Profissionais como Steve Davis e Stephen Hendry eram animais diferentes. Impiedosos. Eu, a jogar, sou impiedoso… comigo próprip. Para Hendry e Davis, ganhar era tudo; para mim, é a competição comigo próprio. Nem preciso de defrontar ninguém», disse Ronnie.

 

«Se nada mais me restasse, era uma ótima altura para ir à caixa trocar as fichas, receber o dinheiro e dedicar-me a outra coisa. Mas não vou ao balcão ainda. Cheguei a uma fase da minha vida em que só quero fazer coisas pelas quais tenho paixão. Não me vão apanhar no Dançando com as Estrelas, na selva, ou a saltar de um prédio só pela diversão. Vão, antes, ver-me a cozinhar, a falar de nutrição, saúde e fitness. Porque acho que isso pode ajudar as pessoas», ajuntou Ronnie.

 

«É um pouco injusto [a responsabilidade de ser embaixador maior do snooker] colocarem quase sempre tudo nos meus ombros, mas tive 25 anos de inacreditável paixão por este desporto. Por isso, agora, o resto da minha carreira será sobretudo e para os fãs. Ainda sinto em mim a resiliência de voltar, mas a certa altura terei de pensar ‘não posso mesmo continuar a fazer isto’. Consome-me e a minha sanidade é mais importante. Por isso me tenho dedicado à nutrição e comida saudável, nos últimos tempos e tenho adorado. É uma vibração diferente. E disfruto mais por dar do que por receber», sublinhou Ronnie.

 

Ronald Antonio O’Sullivan (seu verdadeiro nome) continua a recusar ter nascido predestinado e com um dom: há suor na aparente facilidade a jogar. «Para seres bom nalguma coisa, tens de ser obsessivo por natureza. Vi alguns mais talentosos do que eu não chegarem lá. O trabalho árduo acaba sempre por compensar. Talento e trabalho no duro é a fórmula de termos um Lionel Messi. Não é fácil para mim, mas quando estou bem, é ridiculamente fácil: 30 por cento do tempo é fácil, 40 por cento é ‘OK’ e os outros 30 por cento é como se nunca tivesse agarrado num taco antes. Por isso, tens, sempre, de continuar a treinar», afirmou o inglês.

 

O que promete continuar a fazer é ainda mais exibições, «60 a 70 noites por ano». A razão é simples. «Qualquer adepto que quiser pode assistir e prometo tentar protagonizar uma boa exibição. Não gostaria de gastar o meu dinheiro para ver alguém realizar uma porcaria de uma exibição! Vou ser um pouco como Ken Dodd: no palco até ao dia em que morreu. Porque amava o que fazia. E quando atuas ou jogas realmente bem percebes uma certa eletricidade no ar. E alimentas-te dela. Os fãs dão-te energia, eu e os outros damos-lha de volta. E ficas viciado. Impossível deixar! É beber uma chávena de chá e plantar umas flores no jardim. Só prestações ao mais alto nível o dão», disse.

 

«Em muitos jogos em que pensava que não estava a valer o preço do bilhete, e só ouvia ‘Brilhante! Bravo! Espantoso!’ vindo das bancadas enquanto olhava para as bolas e tentava perceber quem estava errado, se o público, se eu próprio. É aí que o meu psiquiatra, Steve Peters, ajudou. ‘Olha para os factos, bons ‘breaks’ e ganhaste o torneio’» recordou o astro do snooker planetário.

 

Mas Ronnie é apegado, mais do que à razão, ao coração. «Os factos não se compadecem com os sentimentos. Foi tudo o que Steve Peters me tentou ensinar. ‘Olha para os factos, cinco torneios ganhos e mais duas finais esta época. Os factos são o mais importante. Mas não para mim: sei que vou magoar-me o tempo todo. Porquê? Porque para mim é tudo, absolutamente, sobre sentimentos», concluiu O’Sullivan.

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