Ticha Penicheiro na elite do basquetebol feminino (artigo de Eduardo Monteiro, 40)

Espaço Universidade 21-05-2019 14:19
Por Eduardo Monteiro

Está marcada para o próximo dia 8 de Junho a cerimónia de consagração da basquetebolista Ticha Penicheiro (n. 1974), a maior referência portuguesa no basquetebol internacional, na “Women´s Basketball Hall of Fame” (WBHF). Esta instituição, criada em 1999, está localizada na cidade de Knoxville, no estado federal do Tennessee (USA). Tem como principal missão honrar o passado, celebrar o presente e promover o futuro do basquetebol feminino. Nesse sentido, anualmente, são premiadas as individualidades que mais contribuíram para o desenvolvimento do basquetebol feminino à escala mundial em diversas categorias: treinador(a), treinadora veterana, jogadora, jogadora internacional, jogadora veterana, dirigente e juíz.

 

Este ano, para além da Ticha Penicheiro também passarão a pertencer à  WBHF as seguintes personalidades:

 - Beth Bass (Dirigente): - Diretora Executiva (2001 a 2014) da Women´s Basketball Coaches Association (WBCA), - (2004) Prémio Presidencial da National Association of Girls and Women in Sport (NAGWS);                                           

 - Joan Cronan (Dirigente): - Athletic Director de Mérito da Universidade de Tennessee após ter exercido as funções de Women´s Athletic Director durante 3 décadas, - (2005) Athletic Director do Ano, - (2016) Prémio Carreira Notável da Women´s Leaders in College Sports;

 - Nora Finch (Dirigente): - (1981 a 1988) Presidente  do comité inicial da Women´s Basketball (I Divisão) da NCAA; - Membro de diversos comités da NCAA com realce para o da Gestão, - primeira mulher na Atlantic Coast Conference (ACC) a ser nomeada Assistant Athletic Director;

 - Ruth Riley (Jogadora USA): - (2001) Jogadora do ano (Naismith Player of the Year) e campeã nacional com a Universidade de Notre Dame, - (2004) Medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas com a selecção dos EUA, - (2003 e 2006)  bi-campeã da WNBA com a equipa das Detroit Shock e MVP das finais de 2003;

 - Carolyn Roddy (Jogadora veterana): - Duas vezes “All American” da National Junior College Athletic Association (NJCAA) em representação do Hiwassee Junior College, - Liderou a equipa  de Wayland Baptist Flying Queens (pontos e ressaltos) na conquista de 2 campeonatos nacionais na Amateur Athletic Union (AAU), - (1975) Jogadora do ano (Player of the Year) da região de Panhandle ( estado federal do Texas); 

- Valerie Still (Jogadora USA): - (1982) Recordista absoluta em pontos e ressaltos  da Universidade de Kentucky e lider da equipa que venceu as competições da Southeastern Conference (SEC), - (1982 e 1983) jogadora eleita “All American Kodak/WCBA”, - primeira jogadora de  todas as modalidades desportivas da Universidade de Kentucky a ser premiada com a retirada da sua camisola das competições desportivas.

Para além dos títulos honoríficos, a “Women´s Basketball Hall of Fame” está, também, fortemente envolvida na promoção do basquetebol entre as jovens americanas. A cidade de Knoxville tem imensas tradições no basquetebol feminino através da equipa da Universidade de Tennessee, cuja treinadora, Pat Summitt (1974 a 2012) foi considerada a melhor de sempre nos Estados Unidos e, como tal, também foi eleita para o “Hall of Fame” logo no ano inicial da instituição (1999).Ticha Penicheiro nasceu na Figueira da Foz uma cidade com enormes tradições no basquetebol

 

nacional. Afirmo-o com conhecimento de causa uma vez que, enquanto jogador nos anos sessenta e treinador nos anos setenta, tive a oportunidade de participar na, então, principal prova do basquetebol nacional (campeonato da I divisão). Ao tempo, na equipa do Ginásio Figueirense jogava um jovem, de seu nome João Penicheiro que, mais tarde, foi pai de uma menina, a Patrícia que, desde muito cedo, mostrou possuir excelentes capacidades motoras (skills) e uma enorme vocação para o jogo da “Bola ao Cesto”. Assim,  com o apoio dos pais, Ticha foi encaminhada, aos seis anos de idade, para a escola de basquetebol do Ginásio, clube onde fez toda a sua formação inicial como praticante da modalidade.

 

Entretanto, em 1990, na qualidade de Adjunto (na área do desporto) do Ministro da Educação, Roberto Carneiro, tive a oportunidade de acompanhar a criação e implementação do primeiro Centro de Treino da Federação Portuguesa de Basquetebol, então liderada pelo General Hugo dos Santos. O projecto visava concentrar e preparar as jogadoras do escalão de cadetes (das quais a Ticha fazia parte) sob a orientação do Eng. José Leite, então selecionador nacional, tendo em vista a participação no europeu da referida categoria. O local escolhido para a utilização como centro de treino foram as excelentes instalações desportivas de Rio Maior e, em termos académicos, a actividade curricular decorria na Escola Secundária da cidade, a curta distância do referido centro de treino. Após esta primeira experiência no âmbito da especialização desportiva a Ticha representou o União Desportiva de Santarém tendo contribuído para a conquista de um Campeonato nacional (1992/93), duas Taças de Portugal (1992/93 e 1993/94) e uma Supertaça.

 

Finalizado o percurso académico no ensino secundário, a Ticha foi convidada para ingressar na equipa da Universidade de Old Dominion (I divisão) da National Collegiate Athletic Association (NCAA) onde, através da atribuição de uma bolsa de estudo na qualidade de estudante/atleta, concluíu uma licenciatura em Comunicação e Estudos Interdisciplinares. No novo percurso desportivo nos Estados Unidos (1994-1998), efectou 233 jogos oficiais tendo a sua performance técnico desportiva sido notável uma vez que se tornou na grande líder da equipa de basquetebol  da referida universidade.

 

Durante a sua carreira desportiva universitária marcou 1.304 pontos, foi lider em roubos de bola 591 (record da universidade) e fez 939 assistencias (segunda melhor marca de sempre), o que corresponde a uma média de 9.8 pontos, 7.1 assistências, 4.7 ressaltos e 4.4 roubos de bola por jogo, o que define bem a sua versatilidade como praticante de excelência. Como reflexo das suas exibições e pelo facto de ter sido a grande responsável por conduzir a sua equipa até à final nacional do campeonato da NCAA em 1997, Ticha foi selecionada para o cinco ideal (melhores jogadoras por posição) das quatro equipas que participaram na “Final Four” da competição. Na Colonial Athletic Association, conferencia regional em que está inserida a Universidade de Old Dominion, a Ticha foi a novata do ano (Rookie of the Year) em 1994/95, melhor jogadora do ano (Player of the Year) em 1995/96 e 1996/97 e eleita anualmente para o cinco ideal da CAA. Foi selecionada como jogadora “All American” (prémio Kodak) por duas vezes (1997 e 1998) e foi a primeira jogadora internacional a receber o prestigioso “Lifetime/Wade Trophy” atribuído pela Universidade de Old Dominion. Em 2006 foi eleita para o Hall of Fame da sua Universidade de sempre (ODU).

 

Concluído o ciclo universitário (1998), entrou no draft da liga profissional norte americana, Women`s National Basketball Association (WNBA) tendo sido recrutada pela equipa das Sacramento Monarchs. Representou as Monarchs  até 2009 (12 épocas seguidas) tendo conquistado o título da liga profissional em 2005. Nas épocas seguintes (2010 e 2011) actuou na formação das Los Angeles Sparks e terminou a sua carreira desportiva profissional, em  2012, na equipa das Chicago Sky. Conhecida pelos adeptos da WNBA como (Lady Magic) é recordada como uma das melhores organizadoras do jogo (playmaker) de todos os tempos. Foi selecionada quatro vezes (1999 a 2002) para o “WNBA All Star Game”, por duas vezes  (1999 e 2000) escolhida para a equipa  ideal da liga profissional e integrou o melhor quinteto defensivo em 2008. Foi lider em assistências, em sete épocas (1998 a 2003, 2010). Eleita, em 2011, entre as 15 melhores atletas da história da WNBA e, em 2016, entre as 20 melhores de sempre.

 

Atendendo a que a época desportiva na WNBA decorre no período de Maio a Setembro  e na Europa as competições começam em outubro e finalizam em Maio, as jogadoras que actuam na liga profissional norte americana têm a possibilidade de conciliar a sua actividade desportiva com as de outras ligas do continente europeu. Deste modo, enquanto atleta profissional e após o final dos campeonatos na WNBA, a Ticha representou diversas equipas europeias tendo conquistado os seguintes títulos:

 - 2000/2001 - Lotos Gdynia (Polónia) -  vencedora da Liga Polaca;

 - 2001/2002 - Basket Parma (Itália) -  vencedora da Taça de Itália;

- 2003/2004 - UMMC Ekaterinburg (Rússia);

- 2004/2005 – Valenciennes Olympic (França) -  vencedora da Liga Francesa; 

- 2005/2007 - Spartak Moscovo (Rússia) - vencedora da EuroCup (2006), da      Liga Russa (2007) e da Euroleague (2007);

- 2008 - TTT Riga (Letónia) -  vencedora da Liga da Letónia;

- 2009/2010 - Geas Basket (Itália);

- 2010 - PF Umbertide (Itália);

- 2010/2011 - Sport Algés e Dafundo (Portugal);

- 2011 - USK Praga (República Checa) - vencedora da Liga Checa; 

- 2012 - Galatasaray (Turquia) -  vencedora da Taça da Turquia.

 

Trata-se de um currículo desportivo internacional notável com inúmeros títulos conquistados em representação de diversos clubes de distintos países do velho continente. Campeonatos nacionais em Portugal, Polónia, França, Rússia, Letónia e República Checa e Taças de Portugal, Itália e Turquia. Se a tudo isto juntarmos os títulos da Eurocup e da Euroliga e, ainda, a cerca de uma centena de internacionalizações pelas diversas selecções nacionais, dos diferentes escalões etários, temos que concluir que se trata duma façanha desportiva sensacional. A carreira da Ticha foi extraordinária e, infelizmente, hão-de passar muitos anos até que surja alguém capaz de a igualar.

 

A carreira desportiva da Ticha Penicheiro também foi seguida, em Portugal, pelos nossos desportistas e eficientemente divulgada pela comunicação social. Os seus êxitos foram comungados por todos aqueles que gostam de basquetebol e sentiram orgulho nas exibições da jogadora portuguesa. As entidades oficiais estiveram atentas às suas façanhas desportivas e prestígio internacional alcançado e, por isso, foi justamente agraciada com:

- Medalha Olímpica Nobre Guedes (1997) pelo Comité Olímpico de Portugal;

- Grau de Oficial da Ordem do Infante D.Henrique (1999) pela Presidencia da República Portuguesa;

- Medalha de Honra de Mérito Desportivo (2005) pelo Governo Português.

 

Para além dos excepcionais sucessos da Ticha, ressalta do seu êxito que não é por falta de portugueses com potencialidades superiores para atingirem um nível de prática desportiva de excelência que o basquetebol, em Portugal, não evoluiu para além do insofrível nível em que se encontra. Por isso não é de admirar que a sua influência como ídolo do desporto no desenvolvimento desportivo do país só tem sido, esporadicamente, aproveitado pela Federação Portuguesa de Basquetebol e, mesmo assim, em projectos sem dimensão nacional, quer dizer, limitados no tempo e no espaço.

 

É pena que a grande maioria dos atletas portugueses de alto nível como Ticha Pinheiro, acabada a vida competitiva, em função das suas disponibilidades não sejam devidamente integrados num projeto de desenvolvimento do desporto nacional. Só posso concluir que a única razão que pode justificar tal desconsideração é o facto de os dirigentes desportivos poderem temer que o brilho das suas figuras possa empalidecer perante a presença dos antigos atletas de alto rendimento.

 

Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais

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