Quando os superclubes Benfica e Porto interessam à Europa como globetrotters do futebol (artigo de Fernando Tenreiro, 1)

Espaço Universidade 20-05-2019 19:34
Por Fernando Tenreiro

Os governos nacionais pecam por inação na defesa do futebol. Os maiores clubes estão sozinhos quando existem parceiros internacionais interessados na captura de lucros que o Modelo de Futebol Europeu cria.

 

O Modelo de Futebol Europeu

 

Nos anos 80 do século passado ao perguntar a um dos mais conhecidos economistas do desporto americano o que pensava da hipótese do Benfica ter a capacidade de acompanhar o sucesso do futebol europeu, a sua resposta foi que se devia tornar um clube como os Harlem Globetrotters que dão espectáculos de malabarismos de basquetebol com antigos jogadores e enchem pavilhões como acontece quando vêm a Portugal.

 

O grande economista, reconhecendo internacionalmente o SLB, já não o considerava apto para a competição lucrativa do seu modelo e o Benfica deveria passar à história como um circo ambulante do futebol. A ignorância do economista americano acerca do Modelo de Desporto (Futebol) Europeu levou-o a fazer extrapolações desajustadas eliminando, por exemplo, o mecanismo de subidas e descidas dos clubes nos campeonatos de futebol. Este mecanismo é essencial para a competitividade do modelo europeu porque, em primeiro lugar, permite aos campeonatos de futebol terem resultados incertos e, por esse motivo, obrigarem os clubes a praticarem o seu melhor futebol para assegurarem a vitória que os adeptos adoram e não descerem de divisão o que os adeptos detestam. Em segundo lugar, os campeonatos europeus ligam no topo da pirâmide os melhores clubes de todo o continente europeu.

 

Ou seja, no Modelo de Desporto Europeu os clubes dos pequenos países podem ganhar os campeonatos de clubes e de selecções. O critério de decisão no futebol europeu é o da qualidade de jogo jogado por uma equipa que possui os melhores jogadores de um determinado nível de competição, jogo jogado, esse, que foi pensado por um bom treinador e cujas condições de trabalho são decididas por líderes íntegros e dedicados ao clube na oferta de actividades que cativam os praticantes da modalidade e os levam a associar-se no clube e a assistir aos seus espectáculos desportivos com os seus melhores praticantes.

 

A racionalidade do Modelo de Desporto (Futebol) Europeu é a da vitória do melhor clube com um percurso coerente, desportiva, económica e socialmente. A racionalidade do Modelo de Desporto Americano é o lucro gerado pelo espectáculo desportivo.

 

Os superclubes Benfica e Porto

 

Desde há muito o Benfica, o Porto e o Sporting são incluídos no selecto grupo dos superclubes europeus. Actualmente os ordenamentos de clubes europeus feitos segundo o critério do volume de negócios demonstram que muitos clubes europeus estão a ultrapassar os portugueses e que os regulamentos e leis europeias valorizam os critérios lucrativos e prejudicam os critérios desportivos.

 

Esses critérios lucrativos não têm de ser absolutos e assumidos como os mais correctos. Aliás os clubes alemães recusaram uma das propostas da UEFA mostrando que não são apenas os pequenos e os médios países que podem ser prejudicados e que há um país grande em que existe solidariedade entre os 36 clubes das competições profissionais que recusam alterações destrutivas do Modelo de Desporto Europeu.

 

A persistência dos grandes capitais na captura dos rendimentos do futebol profissional é crescente e mantêm a pressão sobre os clubes intermédios dos grandes países. A sua táctica é agora descartar-se de grandes clubes europeus dos pequenos e médios países como o SLB e o FCP. O desporto português necessita de uma estratégia de desenvolvimento para poder defender os seus interesses no seio do Modelo do Desporto Europeu e não embarcar na destruição que começando no futebol alastrará a todas as outras modalidades cortando aos países de média dimensão o acesso ao sucesso desportivo e europeu. O desporto europeu é competitivo, rico e invejado pelo mundo porque é diverso, complexo e popular envolvendo a maior percentagem de praticantes do desporto mundial através do seu Modelo de Desporto.

 

Wladimir Andreff e Paul Staudohar, em 2000, constataram a transformação de clubes sem finalidade lucrativa em empresas lucrativas como um racional irreversível. De facto alguns clubes transformam-se em empresas mas o sucesso do futebol profissional não tem de ser feito a partir da captura da riqueza associativa dos clubes que é pertença dos seus associados. O Barcelona é o exemplo da excelência de um clube sem finalidade lucrativa e pertencente exclusivamente aos seus associados para obter vitórias do futebol profissional graças à excelência da gestão dos seus dirigentes. Neste movimento europeu de privatização e esbulho dos activos sociais das populações locais, as SAD’s criadas em Portugal são actualmente a forma de todas as aventuras e marginalidades que já levaram à ruína muitos clubes nacionais que eram bandeiras das suas cidades, concelhos e regiões. É incompreensível que se passem legislaturas sem que se protejam estas matérias de interesse público para as populações, autarquias e parceiros locais. 

 

Mais tarde, em 2015, o investigador de Harvard Matt Andrews procurou compreender a realidade dos maiores clubes europeus que podem ser superiores às maiores empresas de desporto profissionais americanas. Discorreu sobre a relevância dos mecanismos económicos, mais do que os desportivos, para explicar o surgimento dos superclubes à imagem das maiores multinacionais. Apontou duas fases. Na primeira, os clubes tornam-se complexos, altamente criadores de valor de produtos consumidos globalmente. Na segunda, os clubes acumulam novos conhecimentos catalisadores de mecanismos de envolvimento como capital, infraestruturas e liderança adaptativa. Tal como a análise do economista americano a actual filosofia do desporto português sugere que o futebol é um mercado de concorrência perfeita onde o Estado não se deve imiscuir por ser um grande negócio global. 

 

Talvez o futebol português deva compreender que o futebol global é maravilhoso para alguns muito grandes empresários e que no modelo de futebol global também se desaparece como acautelam os clubes alemães.

 

As instituições do desporto

 

O desporto deve ter instituições que o promovam, que nomeiem líderes íntegros, leis simples que promovam a eficácia desportiva, a democracia social e a eficiência económica, organizações com valor científico e técnico, relações mutuamente desafiantes e equilibradoras e que todas tenham o reconhecimento nacional.

Estarão as instituições do desporto a proteger o feito extraordinário da existência de superclubes portugueses ou com a sua ineficácia política estarão a contribuir para a degradação e possíveis fracassos destes expoentes nacionais? A resposta é: os governos evitam a complexidade desportiva por estarem despojados de boas instituições desportivas e refugiam-se na vacuidade dos discursos e nos actos de política, inconsequentes durante legislaturas inteiras.

 

O futebol necessita que os governos actuem em 3 áreas: Primeiro: A Visão. Necessita-se do consenso para a estratégia nacional de promoção do futebol da base ao topo, sem as confundir e contribuir para o inferno do mexilhão e a soberba dos camarotes. Segundo: A Regulação. Há que melhorar a regulação de todos os clubes e SAD’s assegurando o cumprimento dos princípios do Fair-Play Financeiro criado pela UEFA e aplicado pela FPF com desenvolvimentos nacionais como os relacionados com a qualificação das unidades locais de produção do futebol. Terceiro: O Programa. Olhar para o todo nacional exige medidas visando o aumento da competitividade dos campeonatos nacionais promovendo condições económicas que permitam aos clubes e aos campeonatos de menor dimensão crescerem desportivamente e aproximar-se dos primeiros. Nas condições actuais de política desportiva pública o Sporting e o Braga terão uma distância cada vez maior para alcançarem o topo. 

 

Neste ponto final, realce-se a importância do Governo, eventualmente com o conhecimento e aceitação da Presidência da República, preparar para os eurodeputados nacionais a estratégia de defesa dos superclubes portugueses, para que os nossos representantes articulem com os representantes dos países pequenos e médios a estratégia europeia face a parceiros globais que actuam a partir dos maiores clubes dos maiores países que já adquiriram.

 

Referências:

• Andreff, W., & Staudohar, P. 2000. The evolving European model of professional sports finance. Journal of Sports Economics, 1, 257–276.

• Andrews, M., 2015, Being Special: The Rise of Super Clubs in European Football, CID Working Paper No. 299, Center for International Development, Harvard University.

 

Fernando Tenreiro é especialista em Economia do Desporto

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