Judo: o caminho da suavidade (artigo de Vítor Rosa, 28)

Espaço Universidade 19-04-2019 23:18
Por Vítor Rosa

O judo (o caminho da suavidade) é uma disciplina criada no Japão em 1882 por Jigoro Kano (1860-1938). Ele serviu de protótipo de uma nova forma de artes marciais japonesas. A novidade, se assim podemos dizer, não é a capacidade de realização dos gestos técnicos. Ela surge pelas finalidades pretendidas. Trata-se de um desporto inventado a partir de uma reflexão racional, visando responder a uma necessidade particular, por um japonês influenciado pela ideologia desportiva ocidental, mas desejando realizar uma síntese entre Oriente e Ocidente. O próprio Kano dizia que seguia um método científico, selecionava os melhores aspetos das escolas mais antigas de jujutsu, eliminava outras, e construía um novo sistema mais em consonância com a sociedade moderna.

 

 Enquanto encontro privilegiado entre o Oriente e o Ocidente, o judo ilustra a forma mais marcante da reciprocidade da difusão cultural. Ele implementou-se no Ocidente quando o Japão, num contexto de derrota e de ocupação militar, se recompunha da destruição da Segunda Guerra Mundial.

 

As modificações das técnicas do judo correspondem à “ocidentalização” da prática. O judo deveria ser, segundo Kano, uma forma de educação. Ele insiste sobre o “dô” (via) em vez do “jutsu” (técnica). A sua ideia foi a de combinar as dimensões desportivas, intelectuais e espirituais, a fim de assegurar um aperfeiçoamento físico e moral do indivíduo.

Não é correto pensar-se que a ação isolada de Kano permitiu o desenvolvimento do judo. Alguns dos seus precursores, considerados como os mais importantes ou os mais mediáticos, foram certamente influenciados pela sua própria história e a conceção da sua prática. As suas posições pessoais e institucionais permitiram favorecer ou, pelo contrário, travar um processo de desportivização.

 

Para os homens, esta disciplina foi incluída nos Jogos Olímpicos (JO), na edição de Tóquio de 1964. Entre a sua fundação (1882) e o seu reconhecimento (1964), várias dinâmicas plurais e contraditórias marcam o seu percurso. Talvez, por isso, ficou ausente na edição seguinte, em 1968, vindo a ser integrado quatro anos depois. Em 1992, nos JO de Barcelona, tornou-se disciplina olímpica para as mulheres, mas com vários preconceitos e discriminações.

 

As regras do judo foram adaptadas para que fosse reconhecida disciplina paraolímpica, em 1988. Atualmente, divide-se em várias categorias (masculinas e femininas) e formas (judo de competição, judo educativo, judo de lazer, judo de defesa pessoal, etc.).

 

O judo é hoje um desporto muito popular. A referência à tradição deixa lugar às questões relativamente desportivas. A progressão dos dans (graduações), materializada pelas cores dos cintos (inovação inglesa de 1927), faz-se com base em critérios quantitativos, explícitos, públicos e formalizados. As classes de pesos (introduzidos em 1965), reforçam a igualdade de oportunidades. O instrutor funda a sua autoridade mais em dimensões técnicas do que em dimensões carismáticas. As referências ao budismo desaparecem. A federação europeia, contra a federação japonesa, impôs o uso do kimono azul para um dos combatentes, por forma a distinguir melhor o adversário. No fundo, os grupos organizados têm a necessidade de se afirmarem, distinguindo-se dos outros pelas marcas visíveis. Esta formulação leva a imaginar uma certa proximidade com os princípios da diferenciação social.

 

Existem duas conceções do judo: i) um “judo tradicional”, que representa uma ética marcial renovada ou educativa, segundo a inspiração de Kano. Os praticantes procuram realçar os seus valores morais tradicionais. O progresso de um é o progresso do outro; ii) um “judo desportivo”, cuja ética é da competição. Procura se afirmar em relação ao adversário (comparação social), no respeito pelas regras desportivas. O outro é visto mais como um adversário do que como parceiro.

 

Vários autores procuram explicar o sucesso e a notoriedade do judo. Cremos que o sucesso se baseia na originalidade “técnica e ética” do “produto” (e do seu refinamento), em relação aos desportos de combate ocidentais e aos sistemas de representação social, político e de excelência corporal. Ele é também um espetáculo, que a televisão, com ou sem razão, torna familiar aos olhos do público. A sua notoriedade deve-se também aos atletas e a alguns dirigentes.

 

Em Portugal, mais concretamente em Lisboa, a Academia de Judo foi o primeiro clube de artes marciais. Foi fundado pelo António Hilmar Schalch Corrêa Pereira, em 1946, com o objetivo de se aperfeiçoar o “judo marcial”. Corrêa Pereira é considerado o primeiro português com o cinto negro 1.º dan do judo Kodokan, mas isso nunca foi reconhecido pela Federação Portuguesa de Judo, na medida em que esta sempre privilegiou o judo desportivo. Com a adesão de vários praticantes (numa primeira fase, essencialmente engenheiros e militares), o clube viria a ser transferido, em 1958, para Entrecampos. Atribuíram-lhe o nome de “Academia de Budô”. É neste espaço que viriam a ser promovidos vários treinos e estágios com mestres japoneses e são introduzidas novas disciplinas marciais (karaté, aikido).

 

A participação de Portugal nas Olimpíadas, com o judo, data de 1964. Nuno Delgado conquistou em Sidney, em 2000, a primeira medalha olímpica (bronze). Os resultados obtidos por Telma Monteiro, e outros judocas menos conhecidos, têm contribuído para o desenvolvimento e reconhecimento do judo nacional.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

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