O aikido: uma arte ou um desporto? (artigo de Vítor Rosa, 27)

Espaço Universidade 16-04-2019 14:03
Por Vítor Rosa

Legítimo herdeiro da tradição marcial japonesa, o aikido (o caminho da harmonia) foi criado por Morihei Ueshiba (1883-1969), um homem de “fraca constituição física, muitas vezes doente e muito nervoso” (Hamon, 1992, p. 17). Considerado o pai desta disciplina marcial, que faz a sua aparição na Europa (em França, nos anos 50, e em Portugal essencialmente a partir dos anos 1960), Ueshiba, em 1903, alista-se como um simples soldado da armada imperial, onde se faz notar pela sua grande habilidade no manuseamento da baioneta, arma correntemente empregue na época nos combates de corpo a corpo. Durante a guerra russo-japonesa (1904-1905), ele faz prova de bravura. Dois anos depois desta guerra, o Governo japonês decidiu agrupar as principais escolas marciais numa organização chamada “Botokukai”, no seio da qual as disciplinas poderiam salvaguardar a sua tradição e manter o seu espírito.

 

A partir de 1926, Morihei começa a chamar a atenção de importantes personalidades japonesas do mundo político e militar, fazendo-lhe algumas visitas e para treinar com ele na via da “harmonia e da unidade”. Em 1931, vai instalar-se num bairro de Tóquio, onde cria um centro de prática chamado Kobukan, e que, uns anos mais tarde, assumirá o nome de Aikikai. Enceta contactos com Jigoro Kano, considerado o pai do judo. Em 1946, os americanos, temendo pela sua segurança, vão proibir a prática do aikido e de todas as artes marciais.

 

O “Sensei” (mestre) para os praticantes de aikido é quase um mito, uma fonte de reflexão e de inspiração. Grande parte dos alunos de Ueshiba no Japão eram filhos de famílias da alta nobreza e de oficiais militares de um Império do Sol Nascente saído vencido da Segunda Guerra Mundial.

 

Com o seu falecimento, em 1969, é o seu filho que assume o “testemunho” e prossegue a arte do seu pai, assegurando, assim, uma continuidade. Com a vinda de mestres japoneses para a Europa, como uma “espécie de missionários”, foram sendo criados vários centros de prática e promovidos estágios (treinos mais intensos, variáveis em número de dias), tendo a adesão de praticantes à procura de um desporto de combate e ávidos do exotismo que ele proporcionava.

 

Ainda que o aikido tenha assumido um lugar importante na Europa, para alguns instrutores avançados na prática ele ainda continua a ser uma “arte misteriosa”. Refutando a lógica competitiva (desportiva), o aikido coloca a tónica na “arte corporal”. Ele propõe a quem o pratica regularmente uma regra de vida moral e física. Os exercícios do corpo e morais são, de certa forma, inseparáveis. Para os praticantes, e seguindo a vontade extrema do seu fundador, “é uma arte de paz”. Reivindica-se uma “ética do combatente”, uma “ética cavalheiresca”.

 

Tal como no judo ou no karaté, a obtenção da graduação permite avaliar o nível técnico, e assume-se como uma luta simbólica. Assumindo uma perspetiva bourdiana, podemos dizer que a obtenção do cinto negro e ulteriores, simboliza o “poder simbólico” ou “capital simbólico” (estatuto social). Na realidade, o “prémio” (a graduação) resulta de um crédito. Não é o dinheiro, mas as recompensas asseguradas pela avaliação dos pares, reputação, cargos e funções nos clubes, associações ou federações. Este “crédito honorífico” (honorific credit) é pessoal e intransmissível (propriedade privada, não pode ser transmitido por contrato ou por testamento).

 

Como pudemos testemunhar com a nossa observação-participante, o espírito aikidoca diz muito: o praticante não está lá para propor ou impor as suas ideias aos outros e desvirtuar o ensinamento do Sensei, mas para progredir e trabalhar. O mestre está lá para ajudar os “desiludidos” com a prática (as técnicas difíceis de assimilar), os reconfortar e os ajudar a ultrapassar as dificuldades do treino. O praticante experimentado, mesmo se ele pode ensinar ou corrigir os mais inexperientes, pode não ser um instrutor. Para se ser instrutor, é preciso uma credencial, obtida após fazer uma formação da federação de aikido. A dificuldade principal, tendo em conta os diferentes níveis de expertise, é explicar que, para uma mesma prestação técnica, pode-se dar cumprimentos a um jovem iniciante e desiludir se é realizada por um praticante avançado. Existe uma distância entre o que um praticante pode projetar e o que ele pode viver. Quando um praticante não realiza as performances que ele se julga capaz, ele coloca em causa a sua preparação física e habilidade para a modalidade escolhida.

 

O aikido é percebido como uma arte estética e como complementar ao judo, permitindo a (eventual) possibilidade de defesa contra um ataque de arma branca. Como uma tripla ação da lâmina de barbear com três lâminas (a primeira tira o pêlo, a segunda corta, retirando mais um pouco e a terceira vai a um nível que as duas primeiras não permitem), para os praticantes, as técnicas podem ser “analisadas, estudadas, harmonizadas”. Analisadas separadamente, como de um fator educativo. Estudadas sistematicamente, pois tornam-se um gestual psicossomático. Harmonizadas interiormente, porque se tratam de exercícios privilegiados de conduta de energia. Para muitos, o esforço é centrado para uma eficácia que se deseja imediata. Os treinadores (ocidentais e orientais), treinados nas modas atuais, propõem técnicas que satisfazem os ávidos sentidos. Outros têm técnicas “avançadas”, nas palavras dos praticantes. Podemos ouvir: “ele tem um aikido que mata”, expressão paradoxal quando sai da boca dos cintos negros, que se referem especialistas, e que conhecem os preceitos de Ueshiba.

 

No aikido prevalece uma vaga sentimental anticompetitiva, rejeitando-se o desporto e a instrumentalização corporal, tendo em vista o recorde. Bourdieu (2008, p. 27) chama a atenção para a questão das lutas em cada disciplina (como campo), da sociologia, mas também se pode aplicar nos desportos de combate: “cada protagonista desenvolve uma visão clara desta história, sendo as diferentes narrações históricas orientadas em função da posição daquele que as faz, não podendo portanto aspirar ao estatuto de verdade indiscutível”.

 

Em suma, cada disciplina é definida por um nomos particular, um princípio de visão e divisão, um princípio de construção da realidade objetiva.

 

Referências:

Bourdiue, P. (2008). Para uma sociologia da ciência. Lisboa : Edições 70 (trad.: Pedro Duarte).

Hamon, M. (1992). Aikido : une tradition, un art, un sport. Paris : Editions Amphora.

Peyrache, A. (1999). Le dojo. Paris. L.G.M.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

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