Os Jogos Olímpicos Modernos (artigo de Vítor Rosa, 25)

Espaço Universidade 08-04-2019 21:05
Por Vítor Rosa

25 de novembro de 1892, Sorbonne (Paris):

 

“Quinze séculos passaram depois da destruição do templo sagrado Olímpio (395 depois de Cristo) por um cristão fanático, Imperador Romano Teodósio. Mas a lembrança dos Jogos Olímpicos sobreviveu no coração dos ferventes de uma Antiguidade sempre renascente. No decurso do século XIX, a educação do corpo foi conhecendo um novo impulso sob o impulso de um coronel espanhol, de um oficial alemão e de um oficial sueco e de um reverendo inglês. A educação física se desenvolveu e os estudantes franceses fundaram clubes… É assim que um homem jovem sonha em restaurar os Jogos Olímpicos. Era um barão com gosto pela história e a pedagogia. Ele tinha as ideias muito audaciosas, era eloquente e inteligente. Ele viajava muito, enviava cartas para o mundo inteiro, multiplicava a suas visitas às universidades, aos embaixadores, aos ministros, mas sobretudo aos barões, aos condes, aos duques, do qual ele fez aliados do seu ideal. Ele adorava envolver-se os seus atos em cerimónias que lhe custaram muito caro, mas que permitiu passar as suas ideias. No entanto, faltava-lhe o humor, ele tinha apenas 29 anos quando resolveu fazer da Sorbonne o berço do que ele chamava “o seu bebé: o olimpismo” (Magnane, 1952, p. 71).

 

Uma noite de novembro de 1892. Exatamente uma sexta-feira, dia 25. O grande anfiteatro da Sorbonne foi palco da cerimónia do quinto aniversário da União dos Desportos Atléticos. Para terminar o seu discurso de forma sensacional, o barão Pierre de Coubertin, nascido em 1863, em Paris, propõe a restauração dos Jogos Olímpicos (JO). Oposição? Protestos? Ironia? Indiferença? Nada disso. Recebeu alguns aplausos, desejaram-lhe bom sucesso, mas ninguém percebeu a mensagem. Foi a incompreensão total e absoluta. Assim começou. E durou muito tempo. Em 16 de junho de 1894, ainda na Sorbonne, Coubertin decidiu organizar um grande congresso, tendo na ordem de trabalhos o restabelecimento dos Jogos Olímpicos. Perseverou e ganhou. Dois anos depois foram realizados os primeiros JO Modernos, em Atenas.  

 

A primeira Olimpíada contou com 285 atletas oriundos de 13 nações para se afrontar em 9 desportos. 70 mil espetadores assistiram ao espetáculo. O vencedor do disco lançou 29 metros e 15 centímetros e o americano Burke foi consagrado campeão olímpico dos 10 metros em 12 segundos. Outras provas foram “legendárias” (Magnane, 1952, p 79). Nos quartos JO, em 1908, em Londres, já participaram 23 nações e 2085 atletas. Os JO ganharam em autonomia e força. O cerimonial agradou a Coubertin, mas o espetáculo ainda estava longe do que ele sonhara. Os JO de 1936, na Alemanha, impressionam de forma grandiosa e inquietante, pelo desvio nacionalista, traindo o caráter universal e pacífico dos JO. Os alemães construíram um estádio com cem mil lugares. O barão não deixará de enaltecer o projeto conseguido e de agradecer ao povo alemão, como demonstra um raro áudio do INA (Institut national de l’audiovisuel).

Ele coloca o papel do desporto como um meio de educação. Afirmou sempre que o desporto não era nada se fosse separado da educação; só assim se poderia resolver todos os males individuais e sociais.

 

Os “deuses dos estádios” continuam com as suas proezas e os JO continuam a fazer o seu caminho. Os últimos tiveram lugar no Rio de Janeiro (Brasil), em 2016. Este evento internacional instalou-se no quadro moderno, mas com o espírito antigo que os anima. Inúmeros são os problemas de ordem técnica, negociações, concessões recíprocas e legislação imposta. As aberturas e os encerramentos, com aspeto solene, são desejáveis. Fazem parte do espetáculo. A lei fundamental dos JO mantém-se: “para que 100 se entreguem à cultura física, é preciso que 50 façam desporto. Para que os 50 façam desporto, é preciso que 20 se especializem. Para que os 20 se especializem, é preciso que 5 sejam capáveis de proezas surpreendentes” (Coubertin, 1972 [1922]).

 

Para o grande público, o barão de Coubertin é o renovador dos JO. Ignora-se, geralmente, que ele fundou, em 1906, e presidiu a Associação para a Reforma do Ensino Francês; que, em 1910, fundou a Liga de Educação Nacional; que, em 1917-1918, em Lausanne, com o nome de “Instituto Olímpico”, organizou e animou um centro de educação; e que consagrou vários anos da sua vida a escrever a História Universal em 4 volumes. Muitos só veem os aspetos negativos, nomeadamente o de ter sido contra a participação das mulheres no desporto.

 

Será que o Olimpismo triunfa segundo a vontade de Coubertin? Será que é exaltado o desporto desinteressado e o desporto praticado apenas pelo prazer e o desenvolvimento de si próprio? Infelizmente, não.

 

De divertimento aristocrático na origem, o desporto conheceu desde o século XIX uma evolução prodigiosa, sendo um dos fenómenos sociais mais marcantes da atualidade. A sua prática democratizou-se e abrange toda a população. O seu caráter internacional continua a afirmar-se com força. Se é certo de que o desporto continua a ser uma distração, à mão de um grande número de indivíduos, ele é também uma atividade de compensação indispensável ao Homem maltratado pelos múltiplos constrangimentos da vida moderna.

 

O desporto é mais necessário do que nunca. Os progressos da ciência e da técnica, o desenvolvimento da máquina, da divisão do trabalho, a concentração urbana e as condições de alojamento, o aumento dos tempos de lazer e a melhoria dos níveis de vida transformaram a existência dos indivíduos. A civilização tecnicista fez nascer nele a necessidade crescente de movimento, da necessidade de uma atividade física compensadora, de um jogo e fonte de descontração e de distração.

 

Referências:

Magnane, Georges (1952). Regards neuf sur les Jeux Olympiques. Paris : Éditions du Seuil.

Coubertin, Pierre de (1972 [1922]). Pédagogie sportive : histoire des exercices sportifs technique des exercices sportifs action morale et sociale des exercices sportifs. Paris : Librairie J. Vrin.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

 

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