Entrem num centro de prática (dojo) de karaté (artigo de Vítor Rosa, 24)

Espaço Universidade 07-04-2019 23:38
Por Vítor Rosa

Façam-me um favor. Entrem num centro de prática (dojo) de karaté. Verão os praticantes (karatecas) vestidos com um denominado kimono branco, do qual faz parte um cinto que distingue os praticantes por graduações (kyus, do branco até ao castanho; dans, a partir do cinto negro). O mestre, designado por “sensei”, ou o mais graduado na sua ausência, normalmente cinto negro, é quem dá a aula que se inicia e termina por rituais próprios de saudação. É ele que dá as vozes e ordens de comando do treino. Algumas caracterizam-se por serem em japonês: contagem, nomes das técnicas de defesa e de ataque, movimentos corporais, etc. É ele que decide quando e o momento de ir mais além no treino. As aulas (dois ou três dias por semana) têm, normalmente, uma duração de uma hora e meia. Os treinos seguem um clima de ordem (alinhamento por ordem de graduações e tempo de prática) e de respeito (silêncio, obediência). O mestre corrige a execução dos alunos (feedback positivo ou negativo), exemplificando quando acha necessário (modelo a ser interiorizado). De vez em quando, e à sua ordem, os alunos executam um grito, chamado de kiai. O treino decorre com um aquecimento muscular (designado de taisô) e depois com técnicas de defesa e de ataque isoladas (kihon), ou com um ou mais parceiros (kumité), com movimentos pré-estabelecidos. Também é dada ênfase aos katas (conjunto ordenado e codificado de acções técnico-tácticas de combate, executadas de forma encadeada sem oposição), de dificuldades inegáveis, que caracterizam as “escolas”, normalmente referidas como estilos (ryu) - Shotokai, Shotokan, Wado-Ryu (estilos japoneses), Gojo-Ryu e Shito-Ryu (okinawenses). Os estilos (escolas) pertencem a organizações geralmente tituladas de associações, e estas costumam denominar-se como membros de associações ou até federações nacionais, que se agrupam em internacionais.

Todos estes aspectos exteriores são apresentados como caracterizadores do karaté, aparecendo tal significantes em competições desportivas, estágios de mestres nacionais e estrangeiros, aulas e treinos, filmes, etc. Do ponto de vista sociológico, o karaté moderno, fora da sua instrumentalização militar e policial, integra-se num processo civilizacional, em que a violência se transforma em convenções controladas, como diria o sociólogo alemão Norbert Elias. É veiculado por práticas convencionais, mas expresso através de discursos e símbolos adaptados do Japão para o Ocidente. O karaté constitui, assim, uma linguagem própria e possui uma cultura identitária, partilhando sentimentos de pertença e possui significados estruturadores, concepções de vida e de normas de conduta.

No caso concreto das artes de combate dual, onde o karaté se insere, podemos verificar diferentes usos sociais: desportivos (internacionalização das competições); profissionais (actividade remunerada); integração social (populações consideradas de risco); higienistas (desenvolvimento pessoal ou profissional); segurança (preparação militar, forças de segurança); artísticos (estilos corporais ou de vestuário); gestão/administração (incorporação de preceitos/ensinamentos estratégicos oriundos das “filosofias” marciais e do extremo oriente nos manuais de gestão e de economia); turísticos (visitas aos locais de Shaolin na China ou da Aikikai em Tóquio, entre outros). A noção de uso social, amplamente referida nos trabalhos da Sociologia da Cultura e da Sociologia do Desporto, visa sublinhar que um elemento cultural, qualquer que ele seja, presta-se a usos diferenciados segundo os grupos sociais que o adoptam. Isto sublinha igualmente que uma prática não é efectuada por si mesma, mas que está muitas vezes associada a um objectivo, mais ou menos definido, que visa justificar o tempo, a energia e os meios que lhe consagramos. Falar de uma pluralidade de usos sociais para as actividades físicas e desportivas, sugere que os objectivos e as justificações variam segundo os contextos, os actores em presença e os motivos/compromissos do momento. Bem entendido, estes usos sociais raramente existem no seu estado “puro”. Cada contexto concreto pode cruzar-se e misturar-se com vários outros, criando várias nuances.

Apesar da importância do karaté ser reconhecida internacionalmente, esta modalidade tem sido considerada como um objecto sem dignificação própria das investigações académicas. Rareiam os estudos que tomam esta modalidade como objecto parcial ou integral de análise. Para além dos estudos serem poucos, os dados oficiais estatísticos são confusos e muito incoerentes. Em nosso entender, a escassez de publicações com informação e dados que ajudem a compreender esta modalidade desportiva-marcial é uma das fragilidades mais significativas.

Como me disse um dia o meu amigo João Boaventura, que se encontra em Oriente Eterno, as práticas desportivas constituem um permanente desafio à prática científica. Investigadores e estudiosos, façam-me um favor: entrem num centro de prática.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

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