A maçonaria e o desporto (artigo de Vítor Rosa, 21)

Espaço Universidade 29-03-2019 10:38
Por Vítor Rosa

Em que medida a maçonaria influenciou o desenvolvimento do desporto: a organização desportiva, a criação de clubes, o desenvolvimento de algumas práticas desportivas, etc.? Originária das ilhas britânicas, onde se estrutura no decurso do século XVII, a maçonaria é uma sociedade iniciática, uma escola de perfeição moral individual e coletiva, na qual os seus membros estudam temas sociais, filosóficos e simbólicos dos rituais (e não só!), que eles praticam e que marcam a sua progressão iniciática (Dachez, 2008). Assenta as suas bases éticas, morais e espirituais num conjunto de valores (coexistência pacífica, tolerância, respeito, fraternidade universal entre os povos), nesta Era global.

 

No século XVIII, o sucesso da maçonaria é fulgurante. Ela ocupa, amplamente, o espaço social (Beaurepaire, 2013). Os maçons não praticam apenas os mistérios da Arte Real, termo que designa a maçonaria. No passado, eles reúnem-se também para os momentos de convívio, com idas à caça, bailes e festas, a prática amadora ou profissional de música e teatro, etc. As suas Ordens estão no coração da vida da sociedade. Não é, portanto, de estranhar que os Irmãos se interessem pelos jogos de sociedade.

 

O tiro ao arco foi particularmente visado. Praticado inicialmente pelos nobres, ele foi, progressivamente, se emancipando e foi entrando no mundo das confrarias (Santo Sebastião para o tiro ao arco, na medida em que foi morto, trespassado de flechas. Encontramos também Santa Bárbara para os cavaleiros de arco-besta e Santo George para os seus confrades de arco-besta) e as milícias urbanas à medida que o arco perdia a sua capacidade militar.

 

Vários encontros entre Lojas maçónicas e nobres jogos de arco foram realizados. Em 1784, em Clermont-Ferrand (França), a mais importante das três Lojas da cidade, Saint-Maurice, se une aos cavaleiros do jogo do arco. A boa sociedade que se encontra nas colunas do templo de Saint-Maurice frequenta, assiduamente, o jardim do arco, onde se pratica o tiro, e leva à necessidade oficial de redigirem os estatutos e regulamentos. Dois anos mais tarde, em Dunquerque, terra de eleição do tiro ao arco, o Grande Oriente de França (GODF), uma das principais Obediências em França, recebe uma carta da confraria dos cavaleiros de arbaleta (besta, balestra) sob o nome de Santo George desta vila, que deseja legitimar os seus trabalhos maçónicos, constituindo uma Loja com o mesmo nome. No mesmo ano de 1786, o nobre jogo de arco de Paris é reformado pelo duque de Montmorency-Luxembourg, que não é mais do que o Administrador-Geral do GODF.

 

No Reino Unido, onde nasce a maçonaria, o golfe é outra das atividades lúdicas e depois desportiva adotada pelos maçons. Como o tiro ao arco e as suas variantes, trata-se de um jogo de etiqueta e um local de sociabilidade festiva (Webb, 1995).

 

Em meados do século XVIII, o golfe encontra-se em crise devido ao desinteresse da dinastia reinante (Hannover). Como não é moda, ele vê o afastamento das elites e sofre um défice de enquadramento regulamentar e organizacional. As regras não são fixadas e o golfe não se pratica no seio das sociedades bem estabelecidas. É, neste contexto, que os maçons vão se interessar por esta prática desportiva. Eles procuram se divertir entre eles, praticando golfe, e prolongando nos clubes os ágapes (banquetes) no fim dos trabalhos em Loja. O primeiro clube autêntico é o Honourable Company of Edinburgh Golfers, fundado em 1744. A primeira pedra foi colocada por William St. Clair of Roslin, em presença da Comissão da Sociedade dos Maçons. O discurso de cerimónia designa todos os membros da comissão e os seus estatutos são influenciados pelos da maçonaria. William não é nada mais, nada menos do que o Primeiro Grão-Mestre da Grande Loja da Escócia, eleito em 1736. A fundação do clube tem assim um relevo particular. Outros prestigiosos clubes são igualmente de origem maçónica, como o Royal Burgess Golfing Society of Edinburgh (1735) e o St. Andrews Club (1754).

 

Em 1743, David Deas, Grão-Mestre da Grande Loja da Carolina do Sul (EUA), decide ele também criar um clube de golfe, em Charleston. Ele influencia-se nos clubes do Reino Unido e encomenda as bolas de golfe de Leith, na Escócia. De notar que este exemplo de existência de uma autêntica comunidade maçónica atlântica atravessa importantes correntes de trocas, propicias às mediações culturais.

 

Nos clubes de golfe, as receções de novos membros fazem-se segundo o modelo maçónico, com o apadrinhamento, aceitação que é depois submetida ao voto por bolas (brancas para o voto favorável; pretas para o voto de rejeição). Os candidatos devem enfrentar as provas iniciáticas e o clube entoa frequentemente os brindes e as saudações com a bateria maçónica “três vezes três”.

 

Como os golfistas se devem apresentar em uniforme no clube, os membros da Royal Burgess Golfing Society decidem comprar aventais maçónicos e de os decorar para estas ocasiões. Atualmente, a Amigável Fraternidade Internacional de Golfe mantém esta tradição.

 

Vários maçons tiveram também um papel ativo na promoção dos Jogos Olímpicos de Londres, em 1908. William Henry Greenfell, barão Desborough, Grande Vigilante da Grande Loja Unida, preside à organização dos JO e veio dar depois o seu nome a uma Loja: “the Greenfell Lodge n.º 3077”. Desportista conceituado, foi ilustrado a nadar nas quedas do Niágara e na Mancha, e nos campeonatos realizados no Tamisa com as cores da Universidade de Oxford contra Cambridge.

 

Existe uma relação estreita entre a maçonaria e o desporto. Um estudo aprofundado sobre este tema em Portugal precisava-se.

 

Referências:

Dachez, R. (2008). L’invention de la franc-maçonnerie. Paris : Véga.

Stirk, D. (1974). Golf, histoire d’une passion. Paris: Gallimard.

Webb, J. (1995). Freemasonry and sport, Prestonian Lecture 1995, Quatuor Coronati Lodge n.° 2096, Addlestone: Lewis Masonic Books.

Beaurepaire, P-Y. (2013). Franc-maçonnerie et sociabilité au siècle des Lumières. Paris: Edimaf.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa.

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