Da morte súbita (artigo 8 de Armando Neves dos Inocentes)

Espaço Universidade 22-03-2019 23:45
Por Armando Neves dos Inocentes

Fábio Mendes, jogador de futsal do Centro Social de São João, faleceu durante o jogo com o Portimonense no início deste mês. Segundo veiculou a comunicação social, foi vítima de um ataque cardíaco fulminante. Três dias depois somos confrontados com a notícia de que Kenneth To, nadador vencedor de uma medalha de prata pela Austrália nos Mundiais de 2013, morreu aos 26 anos depois de se ter sentido indisposto durante um treino, na Florida, nos Estados Unidos.

 

Chamam-lhe a “síndroma da morte súbita” e reside no nosso imaginário como que acontecendo só de vez em quando no desporto, pois “o desporto dá saúde” e os desportistas são dos seres humanos mais bem controlados e vigiados medicamente.

 

Recordemo-nos que em Junho de 2003, em directo na televisão, Marc-Vivien Foé, jogador camaronês, morreu em campo aos 28 anos, quando alinhava pela selecção do seu país, na Taça das Confederações, no jogo contra a Colômbia. Talvez o primeiro grande caso porque foi possível a milhões de espectadores confrontarem-se pela primeira vez, em cima do acontecimento, com esta realidade transmitida em tempo real.

 

O caso mais mediático em Portugal, também porque transmitido em directo pela televisão, foi o de Miklós Fehér, jogador do Benfica, em Janeiro de 2004, em pleno estádio do Guimarães.

 

A comunicação social, solícita numa retrospectiva, logo repescou o caso de Pavão, jogador do Porto, falecido durante a partida entre este clube e o Setúbal em Dezembro de 1973. E logo tivemos a oportunidade de ver a circular algo parecido com o “entre este caso e o de Fehér nada se passou”.

 

Ora, antes do caso de Pavão, embora menos divulgados, podemos registar as mortes dos futebolistas Rico do Varzim, Mário Ventura do Leixões, Lemos do Marinhense e João Pedro do Vilanovense.

 

Entre Dezembro de 1973 (Pavão) e Janeiro de 2004 (Fehér) faleceram entre nós durante a prática desportiva – treino ou competição – pelo menos 15 futebolistas, 3 basquetebolistas e 3 ciclistas. Depois de Fehér muitos outros casos semelhantes aconteceram em Portugal…

 

Parecem ser casos a mais, alguns dos quais ocorrendo mesmo com crianças, numa actividade que se diz promover a saúde… até porque o próprio Comité Olímpico Internacional registou de 1966 a 2004 a ocorrência de 1101 mortes súbitas. A média é de 29 casos anuais…

 

Na síndroma da morte súbita o coração não suporta o intenso esforço físico a que é submetido e a morte é causada por uma paragem cardíaca. Este desfecho fulminante é a primeira manifestação de uma doença de que não se tem conhecimento, a qual é muitas vezes congénita e indetectável nos exames convencionais – dizem os especialistas… diz a comunidade médica.

O relatório da autópsia de Fehér apontava para uma hipertrofia cardíaca moderada como causa da morte deste futebolista.

 

Mas para além das causas das mortes, imperativo era serem estudadas e divulgadas as origens dessas causas, pois para cada caso o importante seria não ter voltado a acontecer.

 

E não só as causas mas as suas origens por que motivo?

 

Porque enquanto a causa explica o facto, a sua origem explica um processo (André Comte-Sponville, 1998, “Uma moral sem fundamento”, in E. Morin & I. Prigogine, «A Sociedade em busca de Valores», pp. 133-153, Lisboa, Piaget). Porque se um condutor se despista e morre a causa pode ser o excesso de velocidade mas a origem dessa causa pode ter sido o facto de ele ter perdido o seu emprego antes de iniciar essa sua viagem… Porque se um indivíduo se suicida com um tiro na cabeça a causa da sua morte pode ser a falência do cérebro mas a origem dessa causa pode ter sido uma discussão conjugal…

 

Armando Neves dos Inocentes é licenciado em Ensino de Educação Física, Mestre em Gestão da Formação Desportiva, cinto negro 5º dan de karate-do e treinador de Grau IV.

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