Quem ‘matou’ a mudança? Suspeito nº 16 – A ‘Chicotada Psicológica’ (artigo de João Oliveira)

Espaço Universidade 20-03-2019 11:53
Por João Oliveira

“Detetive Colombo” – começou por dizer o Presidente do F.C. os Galácticos, o Sr. Mark Angie – “estou com um enorme problema em mãos”. “O que se passa?” – perguntou o Detetive Colombo.

 

“Ao longo de todos estes anos, como dirigente, sou recorrentemente colocado perante uma situação extremamente desconfortável, difícil e exigente” – continuou o Presidente Angie, enquanto o Detetive Colombo se inclinava para a frente, para o escutar melhor.

“Os resultados da equipa deixam a desejar, mas pior do que isso, o clima da equipa é muito mau e a equipa está dividida” – prosseguiu o Presidente Angie. “O que quer dizer com dividida, Presidente?” – perguntou o Detetive Colombo.

“Tenho uma parte da equipa que contesta, desafia e detesta o Treinador e outra parte que o apoia e defende. No início, a disputa ficou entre estes dois subgrupos, mas com o tempo, umas pessoas começaram a comportar-se como se odiassem o Treinador e outras idolatrando-o e defendendo-o. Normalmente, a parte que o detesta aborda-me e “pede-me” para o despedir e, se não o faço, passam a pressionar-me e a sabotar a própria equipa. Isto, voltou a acontecer, esta semana” – descreveu o Presidente Angie.

“Como é que tem resolvido estas situações?” – indagou o Detetive Colombo.

“No início” – começou por dizer o Presidente Angie – “despedia o Treinador, o elo mais fraco, pois não podia despedir quase metade da equipa. Contudo, esta forma de lidar com o problema não só não o resolvia, como o tornava recorrente.” “Recorrentemente, como assim?” – questionou o Detetive Colombo, ao que, de imediato, o Presidente Angie clarificou – “tem a ver com ver-me novamente confrontado com o mesmo problema, uns quantos jogadores a pedirem uma reunião, para despedir o Treinador, passados uns meses, pois nada melhoraram.”

O Detetive Colombo fez uma pequena pausa e, para perceber melhor, perguntou – “como se sentia nessas situações?” O Presidente parecia estar a olhar para o horizonte, parecia recordar várias situações, e respondeu – “tinha uma sensação de mal-estar, que estava a trair o Treinador, naquelas reuniões, e várias vezes, acabava por despedi-lo, concretizando a conhecida chicotada psicológica. Embora o fizesse para melhorar a equipa, o que normalmente acontecia nas primeiras semanas, depois quer o clima, quer os resultados voltavam a não satisfazer e voltava a ser confrontado com os mesmos problemas. A solução de despedir o treinador, frequentemente, acabava por voltar a repetir o problema e não era solução. Parecia um boomerang que lançava para longe, mas que regressava sempre. Se isto não bastasse, ainda prejudicava a tesouraria do Clube, com os milhões a pagar nas indemnizações aos Treinadores.”.

“Essa foi a solução que experimentou no início, mas fiquei com a sensação de que já experimentou outras formas de lidar com esses desafios?” – verificava o Detetive Colombo.

“Certo Detetive Colombo” – adiantou o Presidente Angie e esclareceu – “depois, passei a ignorar esses pedidos, os de despedir o Treinador, e quando se tornavam recorrentes, acabava por suspender o jogador mensageiro do desconforto ou mesmo a transferi-lo de Clube.”

“Essa solução resolveu-lhe o problema do mau clima e resultados da equipa?” – perguntou o Detetive Colombo.

O Presidente Angie colocou a mão na cabeça, começou a coçá-la e de repente respondeu – “não, pelo contrário, a divisão escalava, a contestação acabava por ganhar o efeito de bola de neve, dado que, quando suspendia ou transferia o mensageiro do desconforto, a parte que detestava o Treinador acabava por jogar como se estivesse a cumprir com o essencial. Portanto, sem entusiasmo, sem compromisso, sem determinação e o mau clima e resultados pioravam ainda mais. Por outro lado, o treinador também não melhorava. Por isso, esta solução, não só não resolvia o problema, como também criava outros problemas, quer à equipa, quer aos jogadores e quer ao Clube, pois acabava por perder, várias vezes, milhões em transferências”.

“Efetivamente, a situação que me conta é, como disse, desconfortável, desgastante e as consequências ao nível do respeito, da justiça e da integridade são devastadoras para a moral e clima da equipa e, por conseguinte, também para os resultados desportivos, para a tesouraria e para a imagem do Clube, tanto no imediato, como no futuro. Se compararmos uma equipa a um barco e estes momentos de conflitos a uma tempestade, este momento da vida das equipas equivale a um barco a superar uma tempestade com ondas como as da Nazaré. Contudo, este tipo de situação é normal em qualquer tipo de organização, seja ela uma família, uma equipa, um Clube, um hospital, uma fábrica, (…)” – começou por tranquilizar o Detetive Colombo, enquanto o Presidente Angie perguntou – “normal, como assim?”

O Detetive Colombo fez uma pequena pausa, parecia que estava a organizar as suas ideias e respondeu – “ao longo do processo de maturação, mudança, crescimento e desenvolvimento das pessoas, mas também das equipas e das organizações, é normal as pessoas cruzarem-se com o que Freud designou de ritual primitivo de matar o líder, com o que a dinâmica de grupo cunhou de assunto da autoridade, com o que o SCT batizou de crise de ódio, com o que a psicanálise identifica como transferência negativa ou com o que a teoria do desenvolvimento dos grupos catalogou como o evento barométrico” e, nesse momento, o Presidente Angie, que estava cabisbaixo, olhou para cima e interrompeu-o – “afinal este problema não é exclusivo deste Clube, nem tem a ver comigo, é normal, mas parece que as duas formas que utilizei para lidar com a situação só provocaram o efeito boomerang, de regressar e repetir-se, e de bola de neve, amplificando-o”.

Ao aperceber-se do seu ar de impotência, como se tivesse feito algo de errado, o Detetive Colombo disse – “Presidente, cada um de nós tem, muitas vezes, a relação que somos capazes de ter e não aquela que queremos ter” – e calou-se, parecia estar a dar tempo para o Presidente assimilar a ideia. Fez-se silêncio. O Presidente pensava naquelas palavras “cada um tem a relação que consegue ter e nem sempre a que quer ter” e, como que em flashback, pela sua mente passaram inúmeras situações com os filhos, com a mulher, com os colegas de direção, com os treinadores e com os jogadores em que tinha tido a relação que tinha sido capaz de ter, mas não aquela que queria ter e, de repente, disse – “se desenvolver as minhas capacidades, para melhorar estas situações, então posso ter mais vezes a relação e resultados que quero ter. Detetive Colombo, o que posso aprender, para melhorar com esta situação?”.

“Comecemos por compreender as razões que podem levar umas pessoas a idolatrarem e outras a detestarem, no caso o Treinador. O que lhe parece Presidente Angie?” e prontamente o Presidente Angie respondeu – “parece-me bem”.

“Frequentemente as pessoas, ao longo da sua história, passam por alguma situação em que as figuras da autoridade, por exemplo os pais, os professores, os treinadores, os gestores, os (…), lhes reprimem os talentos e comportamentos indesejados. No início, essas pessoas podem acabar por abdicar do que desejavam e lhes foi negado/reprimido, mas e com o tempo, podem ter a tendência para projetarem o que foi negado e reprimido, a identificarem e até procurarem outras pessoas que lhes relembrem o que desejavam, mas lhes foi negado, pelas figuras da autoridade e, quando se cruzam com quem representa o que gostavam e foi negado, poderão admirar e idolatrar essa pessoa. Porém, quando se cruzam com quem lhes relembra algo indesejado e inadmissível e que lhes foi reprimido, negado, podem acabar por detestar e odiar essas pessoas. Ou seja, em ambos os casos, projeta-se e transfere-se para os outros aquilo que foi reprimido e negado. Estas situações podem conduzir a uma melhoria quântica ou à sua repetição / amplificação. Na perspetiva da mudança quântica, ambas as situações poderão ser excelentes momentos de melhoria e mudança, descobrindo uns os talentos adormecidos e outros muitas oportunidades de melhoria, mas não só as pessoas os negam, como os projetam e transferem para as outras pessoas e, frequentemente, para as figuras da autoridade, como é o caso dos treinadores.”

 “Está a dizer-me que a parte dos jogadores que admira e idolatra o Treinador poderá estar a ver no Treinador os talentos que têm e foram reprimidos e, por isso, não só não os reconhecem como os desperdiçam, não mudam e que a parte dos jogadores que detestam e odeiam o Treinador por ele refletir aquilo que foi reprimido, em vez de melhorado, negam isso neles mesmos, e, por isso mesmo, não mudam, não melhoram, mas paradoxalmente, tentam mudá-lo ou que o Presidente o mude” – tentou verificar o Presidente Angie.

“Presidente, a situação de projetarmos nos outros – colegas de equipa, treinadores, jogadores, pais, gestores, (…) – o que admirámos ou negámos poderá estar na raiz do problema que me descreveu e, por isso, para obtermos um resultado diferente do boomerang ou da bola de neve, necessitamos de uma solução diferente” – disse o Detetive Colombo.

“Ou seja,” – começou por dizer o Presidente Angie – “quando um pai está na bancada e começa a fazer comentários depreciativos para com o Treinador ou o Árbitro, poderá a estar a ver neles algo que conseguem falar abertamente sobre os outros e querem que os outros mudem, que também têm, mas negam e, por isso, não mudam neles o que querem que os outros mudem. Quando um adepto está na bancada admirar um jogador, poderá estar a relembrar-se das qualidades que também tinha e tem, mas nega. Detetive, o que me está a dizer é que quando olhamos os outros, nomeadamente o que admirámos e o que detestámos, eles poderão estar a refletir os talentos que temos, mas não utilizamos, ou as oportunidades de melhoria que desperdiçámos e que, se colocarmos entre nós e eles um espelho, podemos a aceder a gigantescas oportunidades de melhoria, por reconhecermos em nós, o que os outros nos relembram?”

“Presidente” – começou por dizer o Detetive Colombo – “relembro que esta situação pode acontecer com todos nós. A todo o momento, podemos estar a admirar nos outros um talento aprisionado, que necessita de ser libertado e potenciado e podemos estar a odiar nos outros oportunidades de melhoria reprimidas que, em ambos os casos, poderão desencadear oportunidades de mudança quânticas”.

“Então este fenómeno também poderá ocorrer com os Treinadores. Isto é, quando um Treinador admira um jogador, poderá estar a relembrar-se de algo que gostava de fazer e que lhe foi negado. Quando um Treinador detesta um comportamento de um jogador e perde a cabeça, poderá estar a ver nesse jogador algo que detesta nele próprio. Ou seja, as figuras da autoridade (treinadores, professores, pais, gestores, presidentes, …) também poderão aproveitar este conhecimento para melhorarem imenso” – construiu o Presidente Angie e continuou – “julgo que compreendi a situação e a razão pela qual as minhas duas soluções anteriores não provocavam os resultados que desejava. Detetive, parece que descobrimos mais um “culpado” de estar a “matar” a mudança no Clube – a forma como lidámos (“chicotada psicológica”) com o evento barométrico, negando e projetando ou transferindo e, algumas vezes até procurar nos outros, os talentos que admirámos, mas não reconhecemos em nós, e o que detestamos neles e queremos que mudem e que poderá estar a refletir o que também temos, mas não mudamos.”

“Detetive Colombo, como consigo colocar todo este conhecimento em prática, de forma a conseguir ter uma relação e resultados diferentes, os que quero ter? “ – perguntou o Presidente Angie – enquanto pensava no enorme potencial e recursos que esta alternativa poderia libertar; na sensação de bem-estar que poderia provocar; no envolvimento, entusiasmo, compromisso e contribuição que as pessoas poderiam passar a fazer; no impacto na tesouraria do Clube; que algumas vezes, mais do que mudar AS pessoas ou mudar DE pessoas, podemos QUERER mudar a nossa forma de lidar com o desafio do mau clima e resultados;  no paradoxo de a admiração e o ódio poderem estar a relembrar alguma necessidade e capacidade que limitou a qualidade da relação e dos resultados e que, se as melhorarmos, podemos dar a volta à situação, mas ironicamente e por falta de conhecimento e estratégia, a admiração e o ódio acabam por “matar” essa mudança, nada melhorarmos e tudo piorarmos; nos momentos em que as famílias, as equipas, as organizações parecem estar no meio de uma enorme tempestade, podemos reprimir (através da chicotada psicológica ao “treinador” ou do castigo ao “mensageiro”) ou podemos aproveitar a situação para todas as pessoas (treinadores e jogadores, pais e filhos, colaboradores e gestores, …) poderem fazer melhorias quânticas e acederem a um nível de eficácia e satisfação mágico.

 

João Oliveira

Doutor em Psicologia, Mestre em Ciências do Desporto, Licenciado em Ensino da Educação Física, Treinador de Basquetebol, Treinador de Equipas, professor de Psicossociologia das Organizações e do Desporto no Instituto Universitário da Maia – ISMAI e formador em Desenvolver Equipas Eficazes, Motivação e Gestão do Pensamento em Contexto Profissional, na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.

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