O espetáculo-desportivo (artigo de Vítor Rosa, 14)

Espaço Universidade 07-03-2019 17:52
Por Vítor Rosa

O espetáculo, sob a forma de desporto, de música, de teatro, de cinema, de publicidade, etc. é, atualmente, permanente. Mas, como escreve Magnane (1964, p. 97), “o teatro atual, e mais ainda o cinema, tendem a isolar o espetador, o espetáculo-desportivo age principalmente pelo ambiente coletivo”. Pela sua dimensão festiva, lúdica e carnavalesca, os grandes eventos desportivos levam o indivíduo a se exteriorizar, para se oferecer ao espetáculo e para participar numa efervescência coletiva. O espetáculo, de manhã à noite, e a favor do progresso das tecnologias de difusão, penetra no interior das existências.

 

Ninguém pode ignorar quem é Cristiano Ronaldo, Lance Armstrong, Zinedine Zidane, Lionel Messi, Rafael Nadal, só para citar alguns nomes, de diferentes práticas desportivas. No mais pequeno café, nas pausas de café das empresas, nos encontros fortuitos na rua ou nos transportes, durante as refeições familiares, etc., as conversas giram, muitas vezes, em torno das “estrelas” e dos resultados desportivos.

 

No início deste século XXI podemos chegar a esta conclusão: “ninguém pode escapar ao desporto”. Ele tornou-se uma “prisão” da condição humana. É uma forja. Modelando os homens e as mulheres, o espetáculo-desportivo funciona como uma “antropo-fabricação”, ou seja, “uma fabricação de um certo tipo humano planetário, avatar acabado do homem unidimensional” (Redeker, 2012, p. 23). O desporto enuncia o sentido da existência. A dimensão repetitiva no espetáculo-desportivo une o desporto e a existência quotidiana, que se tornou miserável para muitos (no supermercado, no trabalho, no desemprego, etc.).

 

Como Guttmann (1986) sustenta, o espetáculo-desportivo tem uma antiguidade secular. Mas ele apresenta, nas sociedades contemporâneas desenvolvidas, “uma singularidade cujos traços podem ser referenciados às dimensões estruturais da modernidade, em particular a alguns modos de especificação dos sistemas de regras estruturantes dos complexos institucionais do Capitalismo, do Industrialismo e do Estado-Nação” (Batista & Pires, 1989, p. 16).

 

É possível expor algumas dimensões fundamentais que organizam os espetáculos-desportivos ou o “show sportif”:

 

·      Simbólica guerreira: o desporto é a ocasião de produzir a violência simulada e simbólica sobre os outros (que por vezes se torna real). O uso de metáforas guerreiras, os slogans, os gritos emblemáticos, o uso de vestimentas particulares e o uso de instrumentos musicais, inscrevem estas ações num cerimonial de violência, procurando reforçar a coesão de grupo pelo encontro dos inimigos.

 

·      Simbólica sacrifical: encontramos nas múltiplas ações organizadas pelos “fans”, a necessidade de reforçar a coesão do grupo pelo ato sacrificial e de jogar sobre o destino pela capacidade do grupo se unir contra os inimigos (adversários). A construção de identidades coletivas necessita de uma manifestação sacrificial (queimar as bandeiras, por exemplo).

 

·      Afirmação de valores viris: o espetáculo-desportivo popular apresenta-se, muitas vezes, como o local onde se exprimem as solidariedades sexuais, marcando a pertença a uma cultura masculina. A linguagem bárbara utilizada, os insultos aos árbitros ou aos jogadores, o emprego de invetivas muito carregadas sexualmente e os múltiplos gestos de provocação, fisicamente conotados, dão a presença a esta forma masculina. Como se, no tempo de um jogo, os homens precisem de exprimir a necessidade de renovar a sociabilidade e a bestialidade masculina.

 

·      Participação sensual e corporal: o espetáculo popular é uma ocasião de entrar num alto local (sagrado) onde se deixa de lado a banalidade da vida marcada pelos problemas pessoais, familiares e profissionais e a rotina mortífera do desejo e de aventura. Do reconhecimento, é possível criar calor, o ambiente e a festa. Mascaram-se, pintam-se e colocam-se no ritmo da participação dos cantos, dos hinos, pelo uso de instrumentos musicais, assim como os apitos que produzem o estridente “cimento” social. Esta proximidade nas bancadas e tribunas, e da comunhão de corpos, de vozes, de emoções e de símbolos partilhados, dão forma a um corpo social.

 

·      A participação mágica: o jogo desportivo é uma ocasião de convocar os “espíritos”, de produzir uma religiosidade e de renovar com as ciências mágicas e ocultas. O uso de amuletos fetiches, as orações, etc. lembram a necessidade ancestral de assegurar o futuro e de ter o sentimento de azar controlado.

 

A influência do desporto-espetáculo releva, sobretudo, da psicossociologia das relações interpessoais. A qualidade do espetáculo-desportivo dá-lhe uma audiência excecional. A emoção cresce de intensidade proporcionalmente ao número de espetadores. As aclamações sobem sem tréguas, de admiração, amor ou ódio. “A paixão do espetáculo-desportivo, qualquer que seja a dose de convenção e de improvisação, de simulação ou de autenticidade que ele comporta, se manifesta sempre pela necessidade evidente pela obsessão do visível” (Magnane, 1964, p. 101).

 

Nesta procura do visível, o público “apressa-se” à entrada dos estádios (as catedrais, de vida e de morte, dos tempos modernos) ou recintos desportivos para aplaudir os campeões. Os comediantes (público) e os gladiadores (atletas) se encontram na arena, e eles se encontram na vida quotidiana. Desta confusão imposta, nasce uma “sólida” fraternidade. A imprensa escrita, falada e filmada, amplifica a importância acordada às competições desportivas, dando-lhe o relevo das vitórias e celebrando as novas vedetas. Os dirigentes desportivos, identificando a sua missão aos sucessos da elite, e esquecendo as suas responsabilidades em favor das massas, encorajam o público e favorizam as publicidades e mesmo, de uma certa forma, o exibicionismo.

 

A importância dada ao desporto pelos meios de comunicação social e a globalização fizeram do desporto um elemento poderoso. A televisão por satélite criou um estádio, cujas capacidades de acolhimento são ilimitadas. Num mundo onde a informação é cada vez mais expandida, a proeza desportiva torna-se a forma mais eficaz para suscitar popularidade e atratividade. As vitórias desportivas são uma forma de continuar a guerra por outros meios. É o soft power em vez do hard power. E no soft power o desporto ocupa um lugar importante.

 

Nem todas as práticas desportivas servem para o espetáculo. O futebol moderno, criado em Inglaterra no século XIX, tornou-se um desporto universal que conquistou o mundo. Este império mundial é gerido por um organismo: a Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA). Esta federação de associações foi fundada em 22 de maio de 1904, por delegados provenientes da Bélgica, da Dinamarca, da Espanha, da França e dos Países-Baixos. Sete países, somente. Foi crescendo com o tempo e hoje conta com mais de duas centenas de federações nacionais.

 

Entre os meios de comunicação social e o desporto nasce um “casamento” de interesses. O desporto faz vender e cria audiências. A Carta Olímpica sublinha que o CIO tomará as medidas necessárias, a fim de assegurar aos JO a cobertura mais completa possível, com os diferentes meios de comunicação e informação, chegando a uma alargada audiência. A irrupção dos meios de comunicação social modificou o impacto do desporto nas sociedades. Na origem, era necessário estar nos estádios para estar envolvido nas competições. A imprensa poderia dar conta do evento, mas o sabor era limitado. A rádio permitiu encontrar um público mais numeroso, vivendo em direto as competições.  Nos anos 1960 e 1970, os jogos de futebol do campeonato da primeira divisão, ou as etapas da Corrida de Bicicleta eram seguidas com paixão graças ao transístor. A falta de imagem era compensada pelo entusiasmo dos locutores. A televisão joga um papel importante. Ela criou um estádio gigante onde cada um encontra o seu lugar, mesmo se está a milhares de quilómetros. Os números das audiências televisivas não cessam de aumentar, alargando o público. A multiplicidade das provas permitidas nos JO abrange o público ainda mais alargado. Nos anos 1980, a televisão foi uma das principais fontes de financiamento do movimento olímpico. Depois da televisão, o desenvolvimento das redes sociais e da Internet vêm oferecer um novo modo de acesso ao desporto, acelerando a sua mundialização. De fato, as redes sociais tornaram-se essenciais para os atletas, a fim de federar uma comunidade de “fans”. As redes sociais também são importantes para os patrocinadores: quanto maior o número de “fans”, mais eles ficam contentes. O futebolista Cristiano Ronaldo é mais conhecido do público do que vários primeiros-ministros e presidentes da República. Aliás, como refere Redeker (2012), as pessoas confiam mais nos atletas do que nos políticos. Citámos Ronaldo, por ser mais atual, mas poderíamos citar outros nomes: Pelé (Brasil), Eusébio (Portugal), Maradona (Argentina), Zidane (França), Beckham (Inglaterra).

 

Os meios de comunicação social ajudam os desportos a popularizarem-se. Mas difundem sobretudo os desportos populares para assegurar as audiências. O futebol, como já referimos, fez um grande caminho desde que nasceu da elite britânica no final do século XIX para tornar-se o desporto do povo em todos os continentes.

 

Existe uma rede complexa de inter-relações entre cinco mercados diferentes:

 

·      o mercado da publicidade que explora os “tempos mortos” do desporto (paragens de jogo, meio-tempo, etc.), para os transformar em “tempos fortes” da publicidade.

·      o mercado do espetáculo-desportivo transforma o desporto de duas formas. De um lado, em o metamorfoseando-o em verdadeira “canção de gestos”, na qual a dramatização subordina as taxas de audiências. Por outro lado, adaptando as regras aos constrangimentos da televisão.

·      o mercado dos produtos, cujos nomes são difundidos e conhecidos graças ao desporto. Os produtos desportivos, claro, como os sapatos, vestidos, ténis, objetos técnicos (raquetes, skis, etc.), mas igualmente os produtos não desportivos (bebidas, serviços bancários, aparelhos domésticos, etc.) que fazem objeto de publicidade nos estádios.

·      o mercado dos jogadores profissionais: é claro que o nível excecional atingido pelos salários dos futebolistas, por exemplo, também se deve à televisão. É o “futebol business”.

·      o mercado das disciplinas desportivas, na medida em que o carácter “telegénico” de certos desportos contribuem para o seu sucesso junto dos praticantes. Os exemplos mais marcantes são o futebol e o ténis, que veem regularmente engrossar o número dos seus adeptos no momento da retransmissão televisiva do mundial ou dos torneios de Roland-Garros (Paris) e Wimbledon (Londres). Nem todos os desportos têm o mesmo tratamento de igualdade junto à televisão. Ela escolhe, com precisão, o que oferecer aos telespetadores. As relações de natureza económica entretidas entre o desporto e a televisão não se inscrevem numa lógica jurídica particularmente elaborada.

 

O peso económico dos cinco mercados é colossal. O desporto não pode viver e se desenvolver sem dinheiro e sem mediatização. Na realidade, a televisão impõe novas hierarquias, tanto ao nível da disciplina praticada, como dos atletas. Ela prescreve novas regras, altera os programas e fixa os horários. Esta evolução impõe-se para rentabilizar as escolhas de programação. No seu esforço de desenvolvimento (ser conhecido, ter mais praticantes), as modalidades desportivas, que até aqui estavam afastadas do programa olímpico, não param de se fazer aceitar. É a melhor maneira para aceder à “mania” mediática. A atribuição oficial do “selo de qualidade” de “alto nível” confere um reconhecimento à disciplina desportiva, como uma espécie de oficialização. Este reconhecimento tem um duplo objetivo: reconhecimento social ou mediático e consequências económicas, que as disciplinas procuram a nível mundial. Para as federações, por exemplo, o reconhecimento olímpico permite uma maior ajuda financeira do Estado.

 

Referências:

Magnane, Georges (1964). Sociologie du sport : situation du loisir sportif dans la culture contemporaine. Paris : Gallimard.

Redeker, Robert (2012). L'emprise sportive. Paris : François Bourin Editeur.

Guttmann, Allen (1986). Sports Spectators. New York: Columbia University Press.

Batista, João & Pires, Rui (1989). “O desporto nas sociedades modernas”. Sociologia, n.º 6, pp. 11-21.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa

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