Os fatores diferenciadores na prática desportiva (artigo de Vítor Rosa, 13)

Espaço Universidade 04-03-2019 17:38
Por Vítor Rosa

O Sexo

 

Se recuarmos a nossa análise até à Idade Média, verifica-se que as mulheres medievais não fazem verdadeiramente desporto. As jovens raparigas não têm uma adolescência e ocupam precocemente o lugar que é lhe imposto pela sociedade medieval. O ‘desporto’, que os homens praticavam (luta, natação, tiro com arco, torneio, etc.), não foi feito para elas. O esforço físico não podia estar totalmente ausente das ocupações femininas, mas ele não era valorizado em termos de proeza, nem mesmo no tempo limitado como a aprendizagem ou a iniciação. Atividades em recintos fechados, uso restrito do corpo no espaço público, vestuário impondo um mecanismo restritivo do corpo, tabus ligados à menstruação e perdas pós-parto, ou ainda controlo da sexualidade, foram sempre observados. Elas passam diretamente da infância ao estatuto de esposa ou de mãe. As mulheres, intimamente persuadidas da sua “diferença”, evocam: “a lei irrevogável da sua natureza”, o “seu destino”, “a lei da criação”. A costura e os bordados são fortemente recomendados para elas. Em qualquer meio social, uma mulher deve saber cozer e bordar. Os valores da virgindade e de maternidade, que a ideologia religiosa investiu no corpo feminino, não abriram perspetivas para elas quanto às atividades de lazer, centradas nos exercícios físicos. À fraqueza da Eva corresponde à força de Adão, à passividade a ação, à submissão a autoridade, à dependência a liberdade, ao sofrimento o vigor, ao sentimento a inteligência, à graça a grandeza. Até então, é preciso reconhecer que a natureza fêmea é inferior à natureza macho. É, sobretudo, importante às mulheres saber obedecer! E é aí que reside a sua verdadeira fonte de felicidade.

 

No seu livro sobre a educação das jovens raparigas no século XIX, Bricard (1985) sublinha que estamos longe de proibir as jovens de toda a atividade intelectual ou artística, mas a prudência recomenda de se limitar ao estudo da história, da geografia, do desenho e da sã moral. Nada de literatura, de poesia, e sobretudo de música, mas, pelo contrário, muito exercício para combater a exaltação nervosa: passeios a pé, equitação, dança, etc. O campo é o quadro sonhado para a eclosão tranquila de importantes funções.

Para os homens, existem tratados de esgrima, de caça, arte militar. Eles são encorajados a desenvolver as suas capacidades físicas no espírito de apropriação do espaço social. O “homem medieval” dedicava-se aos divertimentos que procediam do jogo (liberdade de escolha, gratuitidade, gosto pelo risco, submissão às regras), de combatividade (pelo confronto voluntário com o adversário ou obstáculo) e de paixão (pela intensidade de compromisso e de exaltação da performance). O desporto é uma arena masculina que, não somente exclui as mulheres, mas faz da dominação masculina uma relação natural.

 

O desporto foi e continua a ser um produto de homens e controlado pelos homens. Ele permite aos homens de mostrar as qualidades viris, tais como a força, a combatividade e a audácia. Os desportos a que dão grande preferência são os especificamente masculinos, tais como o râguebi, o futebol, o hóquei em patins ou gelo. No seu comportamento como desportivos, os homens adotam facilmente uma postura enérgica e dura. Eles fazem dos seus clubes desportivos os locais onde se encontram “entre homens” e utilizam o desporto como o meio de sublinhar a sua independência das mulheres. O aspeto masculino dominante do desporto exprime-se também ao nível das instâncias dirigentes. A dominação masculina conduz também a perceções e a modelos culturais determinando a forma como o desporto é dirigido e praticado.

 

Como mostraram Louveau e Davisse (1991, p. 288), o desporto é um “conservatório das identidades”. É “o local, por excelência, onde se pereniza a distinção entre os sexos, como o conservatório de uma masculinidade e de uma feminidade tradicional” (Louveau e Davisse, 1991, p. 111). As desigualdades mulheres/homens objetiváveis no desporto são plurais: desigualdades intra e inter sexos no acesso à prática de uma atividade física ou de um desporto; desigualdades no acesso às diversas disciplinas desportivas. Estas duas formas têm uma ancoragem na história e perduram nos dias de hoje.

 

Durante muito tempo, a instituição desportiva foi um território reservado aos homens para eles adquirirem e manterem a sua virilidade. O universo desportivo está cheio dos atributos da virilidade que são a força, a potência, a velocidade, a capacidade de infligir a violência, o culto do corpo musculado e dominador, de estigmatização das mulheres e da homossexualidade. Mesmo se a impressão viril não despareceu da instituição desportiva, as mulheres, em nome da igualdade, amplamente investiram nas práticas reservadas aos homens.

Originalmente, as mulheres não acederam às mesmas modalidades desportivas nem às mesmas condições que os homens. Para limitar a sua participação desportiva, utilizou-se muitas vezes os argumentos de ordem médica, estética e social. Da “fragilidade física” à falta de “naturalidade” de combatividade, passando pela “virilidade” de certas disciplinas desportivas, não raras vezes ela era (e continua a ser, por vezes) motivo de chacota.

 

No decurso dos anos a mentalidade não mudou muito relativamente à mulher e a sua participação no mundo desportivo, pelo menos até à década de 60. Em 1965, em França, é publicado um relatório da Comission de la Doctrine du Sport (1965, p. 29). Nele pode ler-se que, para a jovem rapariga e para a mulher, “a prática de certos desportos coletivos é impossível ou mínima”. Sobre o pretexto de serem mais adaptadas à sua condição física, sugere-se “a dança, a natação, o ski, as corridas de velocidade muito curtas, a ginástica harmónica, o ténis” (Comission de la Doctrine du Sport, 1965, p. 29). Como “princípio absoluto”, deveriam ser propostas às mulheres as “atividades desportivas que respeitem os imperativos da harmonia estética, da graciosidade, da feminidade e que fazem apelo à flexibilidade, à agilidade e ao ritmo” (Comission de la Doctrine du Sport, 1965, p. 30). Na alta competição, “deveriam ser rejeitadas as disciplinas desportivas estressantes para o corpo e que são opostas às caraterísticas gerais da feminidade” (Comission de la Doctrine du Sport, 1965, p. 75).

 

Os desportos, considerados violentos e ‘masculinizantes’ (de tradição masculina), são interditos às mulheres. E quando elas “invadem” estes desportos têm que fazer prova da sua feminidade e redobrar a sua vigilância para se colarem à imagem associada ao corpo feminino, que deve seduzir. É preciso ser bela para se ser útil. As atletas, redirigidas para os espaços de prática convenientes ao seu sexo, são, assim, colocadas sob a tutela masculina.  Se as federações as integram progressivamente, algumas resistem.

 

O campo desportivo integrou as mulheres, mas engendrou correlativamente os seus próprios meios de controle para perpetuar um modelo preservando o masculino. O teste da feminidade é um exemplo. Por detrás do discurso de igualdade de oportunidades para atingir o pódio, o desporto entretém mecanismos de reprodução que a toda a sociedade acompanha. Homens e mulheres não evoluem da mesma forma na prática desportiva.

 

As mulheres são muitas vezes minoritárias no seio das federações uni-desporto, mas elas são mais numerosas nas federações multidesporto. A razão é que essas federações propõem práticas viradas para o lazer, a saúde, o bem-estar, em vez da competição. As federações uni-desporto têm uma vocação competitiva muito marcada e, por isso, uma tendência para excluir os menos performantes. Por consequência, uma grande parte das mulheres se encontram excluídas. Por outro lado, as mulheres mudam mais, frequentemente, de atividade desportiva.

 

O fundador da “exposição universal do músculo” (JO modernos), o barão Pierre de Coubertin, não queria que as mulheres participassem. Confirmando a sua posição negativa, declarou que “uma olimpíada com a participação de mulheres seria pouco prática, desinteressante, pouco estética e incorreta” (Coubertin citado em Bressan, 1981, p. 34). Para si, elas estavam lá apenas para aplaudir e coroar os vencedores. Apesar do seu desacordo e os seus discursos, as mulheres entraram, progressivamente, nos JO e aí permaneceram. É inseparável da realidade do desporto moderno. A participação das primeiras mulheres desde os primeiros JO aumentou substancialmente. De 20 nos JO de 1900, em Paris, passou-se a 4700 no JO de 2016, no Rio de Janeiro, ou seja, 45%.

 

O universo desportivo não se conjuga mais sobre o investimento (nos sentidos económico, psicológico e de ação) dos homens. O crescimento da escolaridade das raparigas e a atividade socioprofissional das mulheres, induzem a um reforço da prática desportiva. Apesar dos indiscutíveis avanços, ainda existem muitos obstáculos para aumentar a participação das mulheres no desporto a todos os níveis (lazer, escolar, amador, competitivo, etc.), funções e papéis, e para desenvolver a democracia no seio das organizações desportivas. Na sexta conferência europeia, dedicada às “mulheres, desporto e democracia” (2004), concluiu-se:

 

que existe um acesso desigual das mulheres nas instalações desportivas;

a questão da educação física continua insuficientemente desenvolvida em muitos países, o que penaliza as mulheres.

o desenvolvimento do comunitarismo de toda a ordem podem ser um obstáculo ao desenvolvimento das práticas femininas.

o pequeno número de mulheres nas estruturas de decisão dos organismos desportivos;

a imagem degradada e parcial do desporto feminino dada pelos meios de comunicação social.

existem dificuldades na concretização concreta e real de todas as resoluções que vão sendo adotadas sobre as mulheres e o desporto aos níveis regionais, nacionais, internacionais, e olímpicos.

 

Existe hoje um desfasamento importante entre as práticas propostas pelos clubes, virados essencialmente para a competição e as aspirações das mulheres, mais diversas e orientadas para a convivialidade, as práticas familiares, a saúde e o lazer. Este desfasamento, explica, em parte, o número insuficiente de mulheres no desporto. Resulta daqui também a fraca presença nos centros de decisão (federações, por exemplo). O progresso desejado de maior participação das mulheres no desporto passa pela educação.

 

Com a participação das mulheres no desporto, interessantes domínios de investigação se abrem. Como é que a prática desportiva pode afetar as mulheres? Como é que a expansão do desporto feminino pode modificar a forma como a sociedade entende o desporto e como este entendimento influencia sobre o número de mulheres atraídas pela experiência desportiva? A prática desportiva constitui uma aprendizagem do “viver em conjunto”, que é de valorizar, num momento, e nalguns bairros do nosso país, os valores e os princípios da república e da democracia, que são seriamente ameaçados.

 

A idade

 

As assembleias dos JO aparecem como verdadeiras festas da juventude do mundo. Do ponto de vista psicológico, os jovens são admiravelmente aptos à prática desportiva. Existem desportos e maneiras de praticar que se acomodam com a idade. De fato, assiste-se a um movimento crescente de práticas desportivas nas faixas etárias para além da juventude. As provas de veteranos (que alguns chamam “antigos”), que começa com trinta e cinco anos de idade, não é coisa rara. O que leva a uma prática em detrimento de outra, numa determinada idade, é a intensidade da prática, a natureza das motivações, os objetivos, os valores (e o “sentido dos valores”) etc. A massa de praticantes, segundo a idade, orienta-se diferentemente. E a forma de se praticar muda da juventude à idade madura ou de idade. De fisicamente mais intensa passa a menos intensa.

 

Ao mesmo tempo, o ardor competitivo se faz sentir menos fogoso e menos imperioso. Para Bourdieu (2002, p. 192), “a relação entre as diferentes práticas desportivas e a idade é mais complexa”, pois não se define por intermédio da intensidade do esforço físico reclamado, mas de uma dimensão do “ethos de classe”. Faz notar ainda que “a propriedade mais importante dos desportos ‘populares’ é que eles sejam associados à juventude, que se exprime pelo dispêndio de energia física e abandonadas muito cedo (a maior parte das vezes no momento do casamento que marca a entrada na vida adulta)” (Bourdieu, 2002, p. 192). Ao contrário, os desportos ditos “burgueses” são praticados, principalmente, pelas suas funções de manutenção da forma física e “pelo proveito social que eles proporcionam, tendo em comum aumentar a idade da prática para além da juventude, quanto mais prestigiosos e mais exclusivos (como o golfe) forem” (Bourdieu, 2002, p. 192).

 

A profissão

 

A profissão pode ser um fato de não prática ou de menos prática desportiva. As pessoas que trabalham em espaços interiores participam mais nas atividades desportivas de competição e de recreação. A taxa de desportistas em meio rural é fraca. A resposta dada é que já fazem muito movimento, em razão da sua profissão. Se deixarmos de lado as profissões da terra, o tipo de profissão influencia sobre o desporto praticado. No caso da classe operária, pratica-se, sobretudo, os desportos de equipa, como o futebol, onde o espírito de equipa é muito desenvolvido, na medida em que grande parte do trabalho é feito em equipas de trabalho. Eles veem-se na continuidade dessas tarefas, discutem, e prestam assistência mútua. Quando praticam um desporto de equipa, eles transpõem certos comportamentos e certas qualidades profissionais.

 

A adesão a uma profissão pode levar também à escolha de uma prática desportiva: desportos de combate (polícia, militares, etc.); parapente (aviadores profissionais); tiro e equitação (militares, polícias); yoga (professores), etc. A formação e o treino numa determinada prática desportiva podem ajudar no desempenho da profissão. De uma maneira geral, os representantes de uma profissão podem dominar num clube, o que pode importar maneiras, atitudes, representações, preocupações vindas do meio profissional e impregnar-se no grupo desportivo.

 

O meio socioeconómico

 

Entende-se por meio socioeconómico um conjunto de elementos que parecem coincidir com a classe social. Eles entram em combinação de uma forma complexa, como vários estudos o sublinharam. São as categorias socioprofissionais, o estatuto ou a situação numa profissão e tem um papel importante na produção. Depois, é o rendimento, a fortuna, a propriedade, e o emprego que provoca os recursos, levando a um nível de vida e a um estilo de vida (a quantidade de tempo livre e a distribuição do tempo de lazer tem muita importância no que diz respeito à prática desportiva). Neste somatório, temos ainda a rede de relações pessoais que se tem com pessoas de um determinado meio socioeconómico. A pertença a um meio socioeconómico implica uma educação, uma cultura, usos, costumes, gostos, atitudes políticas.

 

A influência do meio socioeconómico atinge o desporto, fenómeno essencialmente social. É assim que a riqueza permite praticar desportos onerosos como é o golfe em muitos países, ou como o “yachting” (iate). Há desportos chiques e há desportos populares. Várias pesquisas permitiram obter dados precisos sobre a realidade da estratificação social no domínio do desporto e os seus efeitos.

 

O local de residência

 

Quando os sociólogos procuram compreender os fatores que conduzem os indivíduos escolher uma prática desportiva, cruzam muitas dimensões da “identidade” da pessoa: idade, origem social, género, origem nacional ou étnica, capital cultural, mas esquecem-se o local de habitação. De uma maneira indireta, alguns geógrafos analisam as variações territoriais do desporto e tentam analisar as culturas desportivas. Investiga-se pouco o “efeito do bairro” sobre as práticas desportivas.

 

O desporto nos bairros carateriza-se pela diversidade das práticas, do estatuto dos organizadores e dos intervenientes. Pode ser uma oportunidade para os habitantes frequentarem um clube. Em França, existe os ringues móveis, o que permite aos jovens se iniciarem no boxe educativo. Outros desportos, como o basquetebol, o judo e as danças são também muito procurados, permitindo promoverem-se competições entre bairros. As práticas desportivas, de competição ou lazer, podem ajudar os praticantes a sair do bairro para investirem noutros espaços e encontrarem outros indivíduos, criando uma rede social. Estas práticas desportivas podem ajudar, evitando a exclusão social e transformando os modos de socialização.

 

Referências:

Bourdieu, Pierre (2002). Questions de sociologie. Paris : Les Editions de Minuit.

Bressan, Serge (1981). Le sport et les femmes. Paris : Editions de la Table Ronde.

Bricard, Isabelle (1985). Saintes ou pouliches : l'éducation des jeunes filles au XIXe siècle. Paris : Editions Albun Michel.

Comission de la Doctrine du Sport (1965). Essai de la doctrine du sport. Paris : HCC.

Louveau, Catherine & Davisse, Annick (1991). Sports, école, société : la part des femmes. Joinville-le-Pont : Editions Actio.

 

Vítor Rosa

Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa.

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