A classificação dos desportos (artigo de Vítor Rosa, 12)

Espaço Universidade 03-03-2019 18:59
Por Vítor Rosa

Tratando-se do mundo social, classificar é classificar indivíduos, que, eles mesmos, classificam. É classificar coisas que têm propriedade de ser classificadas. A questão da classificação, tal como ela nos é colocada em sociologia, obriga a perguntar quem classifica no mundo social? Será que todos classificamos? Esta classificação é instantânea? Como é que nós classificamos? Será que classificamos da mesma maneira que um biólogo, zoólogo ou botânico? Classificamos a partir de que definições, de que conceitos, etc.? O que é uma classificação objetiva (a partir de um conjunto de critérios ligados entre si por graus diversos, que se podem medir estatisticamente, isto é a realidade das coisas no seu estado latente)? Se todos classificam, será que os classificadores têm o mesmo peso social?

 

De uma forma simplista, o sociólogo Yonnet (2004, p. 112) avança com uma classificação dos desportos em duas categorias: perfeitos e imperfeitos. O futebol, o atletismo, o basquetebol, são, para si, perfeitos. O boxe (nobre arte) e o judo são imperfeitos. No primeiro caso, a qualidade da performance julga-se pelo resultado. Existe uma instrumentalização igual: bicicleta, bola, pista, peso. Os adversários confrontam-se para designar um vencedor, um vencido, e romper provisoriamente o equilíbrio, até uma próxima oportunidade. No segundo caso, a classificação tem a ver com a infiltração da qualidade no mundo da quantidade (mensuração e pela rutura das condições de igualdade). Um juiz não é um árbitro. Um decide o resultado, o veredito; o outro, é encarregado de fazer respeitar a regra. Os desportos imperfeitos são sedutores, e muito populares, porque eles rompem com o equilíbrio normal da competição desportiva. Mas não são democráticos. São essencialmente desportos de clientela, onde se satisfaz a hierarquia, onde o inferior se vê a admirar o superior e o dominante o dominado. São também oníricos. O segredo do futebol é a de não ficar nesta ambivalência.

Considerando o aspeto nutricional, a classificação pode ser de desportos de curta, média e longa duração. Um médico francês especialista em desporto (Dr. Dumas), referenciado por Bouet (1968, p. 70), resume-os da seguinte forma:

·         Os desportos de curta duração: breve esforço, que não permite uma alimentação pré-competitiva. É o caso do atletismo, por exemplo, onde se concebe muito mal que o “sprinter” se possa alimentar durante o esforço.

·         Os desportos de média duração: que obrigam a uma alimentação pré-competitiva. É, por exemplo, os desportos de equipa, onde a meio tempo se pode e deve ser utilizada para fins de descanso e recuperação energética.

·         Os desportos de longa duração: que obrigam a uma alimentação pré-competitiva, como é caso do ciclismo, o alpinismo, a espeleologia, etc., que necessitam de um suplemento alimentar durante a competição.

·         Mas estas considerações têm limites. As condições de treino moderno, sobretudo para o alto rendimento, requerem uma especialização nutricional racional.

A alternativa da classificação dos desportos de competição e em não competição foi alvitrada por Staley (1955). Ele distingue:

·         Os desportos de acrobacia (fundamentalmente não competitivos). Exemplos: ginástica, patinagem no gelo (figuras), rodeo.

·         Os desportos atléticos (fundamentalmente competitivos). Exemplos: basebol, futebol, ténis.

·         Os desportos de combate (fundamentalmente não competitivos): Exemplo: esgrima.

·         Os desportos de natureza (fundamentalmente não competitivos). Exemplos: canoagem pesca e vela.

·         Os desportos individuais atléticos (fundamentalmente competitivos). Alguns representam uma forma competitiva de um desporto não competitivo. Exemplos: corrida de bicicleta, corrida a pé, corrida de skis.

Esta classificação encontra-se, em vários aspetos, desatualizada. O filósofo Bouet (1968) classifica as práticas desportivas em cinco grandes grupos:

·         Os desportos de combate (boxe, judo, karaté, aikido, luta).

·         Os desportos com bola (futebol, andebol, basquetebol, voleibol).

·         Os desportos atléticos e de ginástica (halterofilia, atletismo, natação, ciclismo).

·         Os desportos de natureza (alpinismo, canoagem, mergulho, espeleologia, pesca).

·         Os desportos mecânicos (motociclismo, automobilismo).

 

Em suma, não se sabe qual é a força social destas classificações.

 

Referências:

Bouet, Michel (1968). Signification du sport. Paris : PUF.

Staley, Seward (1955). The world of sport. Illinois: Champaign.

Yonnet, Paul (2004). Huit leçons sur le sport. Paris : Gallimard.

 

 

* Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa.

 

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