A identificação desportiva (artigo de Vítor Rosa, 10)

Espaço Universidade 26-02-2019 22:39
Por Vítor Rosa

“Uma equipa, uma nação”. A vitória desportiva é um meio eficaz para sublimar o sentimento nacional. Todos os Governos recorrem ao desporto para reforçar, no interior, os laços de uma comunidade ou adquirir, face ao exterior, uma dignidade coletiva ou nacional. Nos países em vias de desenvolvimento, o desporto é uma arma política que serve os poderes instalados, mas também pode assumir uma forma de contestação. Ele é, muitas vezes, utilizado como um meio de pressão diplomática, em particular pelo boicote de países ou de competições internacionais. Submetido ao político, o desporto não será uma ideologia?

 

O desporto disciplina e “domestica” o sentimento identitário. E torna-se vão abordar-se a questão do desporto contemporâneo sem ter em conta este aspeto crucial, amplificado pela televisão. O desporto-espetáculo surge como uma mercadoria de massas e a organização dos mesmos como um ramo do “show business”. O valor coletivo reconhecido pela prática dos desportos, sobretudo depois que as competições desportivas se tornaram uma força relativa das Nações, esconde o divórcio entre a prática e o consumo. Por consequência, das funções do simples consumo passivo.

Em regra geral, a identificação conduz à formação das multidões. Mas com a diferença de outras multidões (políticas, religiosas, militares), a multidão desportiva não é subjugada, salvo algumas exceções, pelo carisma dos leaders que poderiam levar a cometer atos irreparáveis. Nesta eventualidade, os atores do relvado (futebolistas) esforçam-se para jogar um papel moderador.

 

A multidão desportiva tem um caráter particular: o seu primeiro objeto é de identificação – a equipa, o campeão, que é a ideia diretriz da nação. Quando se ouve dizer pelas pessoas “estou triste por Portugal”, quando se perde um jogo da Seleção, é como se fosse um “atentado” à secularização da identidade. Quando a equipa representada é eliminada de uma competição, o espetador reporta a seu favor segundo a regra de proximidade nacional ou cultural. Os Europeus do Norte apoiam a Holanda quando da final do Mundial de Futebol de 1978 contra a Argentina. Os argelinos apoiam a equipa da França quando da eliminação do país no Mundial de 1982, em Espanha. Os austríacos apoiam a Alemanha, etc.

 

No fundo, a identificação no desporto é uma modalidade social, coletiva, específica, que permite a manifestação de um sentimento de pertença grupal. A nação permite a cada um de se situar, de uma forma geral, no mundo ou, em todo o caso, relativamente aos outros, sejam eles espaços ou povos. Este sentimento de pertença é uma construção fundamental derivada da História, isto é, de uma história no decurso da qual os Estados dão forma, diferente, às nações, que se dotam de formas estruturantes. A identificação pode ser difícil, sobretudo quando é preciso escolher entre as suas origens e a vontade de integração social noutro país, como foi o caso do Euro 2016, com os luso-descendentes divididos emocionalmente entre os seus dois países: Portugal-França (um de coração e outro de residência). Entre uma velha e nova pertença, que são sobrepostas, entre raízes e enraizamentos. As identificações não cessam de se recompor, de ser um movimento interno e de se reconfigurar em ordem da batalha, o tempo que dura uma competição com concorrentes múltiplos.

 

* Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa.

 

 

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