As práticas desportivas das mulheres (artigo de Vítor Rosa, 9)

Espaço Universidade 23-02-2019 20:59
Por Vítor Rosa

Historicamente, o desporto é uma prática masculina. No século XIX, as mulheres são pouco numerosas a praticar uma atividade física ou desportiva. A sua “condição feminina”, que contribui para a organização da vida social da época, não lhe permitia. De fato, a sua presença era proibida nos clubes desportivos, nomeadamente na Grã-Bretanha, e elas, muitas vezes, consideravam que não tinha que se exibir neste género de prática, conformando-se às representações sociais da mulher então em vigor. O espaço desportivo é um espaço da dominação masculina, permitindo aos homens “provarem que o são” e demarcando-se do feminino, associado ao sexo fraco.

 

Nos dias de hoje, segundo os inquéritos realizados, a proporção das mulheres aumentou claramente, mas ela continua a ser inferior às dos homens. Comparado aos homens, as mulheres investem de forma diferente o universo desportivo. As atividades físicas preferidas recaem sobre a marcha, a natação, a bicicleta, a ginástica ou a dança. Elas parecem pouco atraídas pela competição. O ensino de educação física também é pouco feminizado.

 

O investimento do desporto pelas mulheres, que se efetua por pequenos passos, contrasta muito com a evolução das normas, a aspiração à igualdade entre os sexos e a diversificação dos modos de vida.

 

Interrogadas sobre o que pode ser um obstáculo para elas para a prática de um desporto, as mulheres, mais do que os homens, respondem com um mesmo argumento: “a falta de tempo”. Se elas estão afastadas dos estádios, das piscinas, etc., é porque pesa o tempo para se consagrarem ao domicílio, às crianças, ao trabalho doméstico, que se junta a um tempo profissional. As mulheres, mais do que os homens, provam um sentimento de “compressão” na vida quotidiana. Profissionalmente ativas ou não, elas consagram mais tempo ao trabalho doméstico do que os homens.

 

As práticas físicas e desportivas inscrevem-se no tempo livre dos indivíduos, ou seja, o tempo que sobra uma vez realizadas as tarefas familiares, domésticas e profissionais. Mas a profissão e o tipo de trabalho, os volumes e os modos de organização horária, a que se junta os tempos de transporte para o trabalho, são elementos que, um a um, combinados e acumulados, desenham o “tempo” absorvido pela atividade profissional.

 

Cremos que a “falta de tempo”, ressentido a nível pessoal, resiste mal, a termo, como o verdadeiro motivo explicativo da ausência de práticas físicas de certas categorias de mulheres e de homens. Neste sentido, como explicar que certas mulheres encontram tempo, não apenas para o desporto, mas para a leitura, ida aos museus, cinema, etc., quando têm uma ocupação profissional absorvente? O tipo de “socialização feminina” pode pesar muito sobre a “falta de tempo” e na ascensão à prática desportiva, através da relação ao corpo que ela infere. Por outro lado, muitos homens preferem praticar desporto ao fim de semana, sobrepondo-se ao tempo familiar, enquanto as mulheres preferem fazê-lo durante a semana e à hora do almoço. As mulheres programam as suas atividades, enquanto os homens dão espaço à “improvisação”.

 

Vítor Rosa
Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa.

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