Quem são os campeões? (artigo de Vítor Rosa, 5)

Espaço Universidade 09-02-2019 23:53
Por Vítor Rosa

Quem são os campeões? Será que eles encontram o seu espaço no mundo moderno? O desporto, em geral, e o mito do campeão, em particular, são um poderoso meio de identificação e de gratificação dos indivíduos e grupos sociais. O universo desportivo está povoado de heróis, no sentido etimológico do termo. O culto do campeão atinge uma eficácia de indústria graças à mediatização atual do desporto. O campeão simboliza o sucesso social. A alta competição, ou a alta performance, é o modo de expressão natural da elite desportiva. Ela permite designar o melhor, isto é, o campeão, enquanto “ator de múltiplos teatros”. A qualidade deste último, diretamente mensurável, não é discutida, mas a sua necessidade e sua utilidade não são reconhecidas por todos. Alguns constatam a sua existência, mas recusam-se a dar-lhe uma grande importância. Outros negam o seu papel de campeão e da alta competição no desenvolvimento do desporto, vendo apenas os excessos e os perigos. A querela não é nova. A psicologia fala das suas motivações. A sociologia, que procura “explicar o social pelo social”, segundo Durkheim, elucida o seu contexto de vida e as condições da sua inserção no desporto. Os meios de comunicação social apresentam os fatos e os gestos.

 

Em 1914, quando já havia uma abundante literatura desportiva, Georges Rozet, no seu livro Les Fêtes du Muscle, profetizava que os campeões são os precursores do amplo movimento desportivo do futuro, referindo que são personagens fora do comum, pois são “vendedores” de sonhos. Eles realizam proezas e ganham títulos. O campeão torna-se um arauto porque ele é um herói. Não é por acaso que ele é comparado a Hércules. O herói é aquele que se eleva à altura dos deuses, que soube igualar o seu pai. O culto do herói desportivo (receções oficiais, decorações, mensagens de encorajamento, felicitações dos chefes de Estado, dos ministros, e dos homens políticos de todo o género) ilustra a sua importância contemporânea. A atenção fixa-se neles. Fica-se contente com os seus sucessos (e o campeão ilustra a felicidade na vitória). Retemos os seus estados de alma, os objetivos que prosseguem, as suas alegrias, as suas deceções, as lesões, os sofrimentos. Nesta sociedade pós-moderna, os campeões dão um sentido. Eles são o limite extremo dos desafios e dos confrontos. Eles são a expressão da excelência. Como arte, o desporto tem os seus talentos, os seus virtuosos, os seus génios. Eles incarnam uma racionalidade, a aquisição de técnicas e assimilam estratégias. Eles têm uma vontade, uma determinação, trabalho, disciplina de vida, veiculam valores morais e físicos, desejos de vencer. O campeão constitui um horizonte, a projeção de experiências e de ambições. Ele é a norma, a referência. Os campeões continuam a ser os heróis populares porque eles são quase sempre de origem modesta. É o “self-made man”.

 

Convencida do papel desenvolvido pelo campeão, a Commission de la Doctrine du Sport (1965) escreve:

“O campeão deve ser ajudado e guiado durante a sua vida desportiva, mas não se trata de esmagar a sua personalidade ou de lhe evitar todo o esforço inútil, os problemas maiores. É preciso, ao contrário, acordar as suas possibilidades, de lhe aprender a confrontar e a resolver as dificuldades encontradas no seu caminho. É preciso lhe deixar exprimir livremente, é preciso preservar a sua espontaneidade e o seu entusiasmo. Só com estas condições é que ele poderá melhorar sobre o plano desportivo e que ele conhecerá, sobre o plano humano, um verdadeiro enriquecimento pessoal”.

 

Como a maior parte dos sociólogos do desporto notaram, os campeões, enquanto manifestação concreta da lógica do desporto, representam para as massas uma figura típica, um “Deus”. Eles são idolatrados pelas multidões. Os sportsmen e as sportwoman fazem “reais progressos”, no “avant-garde” da tecnologia desportiva. São modelos a seguir. Atraem os jovens e preenchem-lhes os imaginários. Nas previsões do humanista olímpico, Coubertin sublinha que os campeões são os educadores.

 

O campeão está longe de ser um exemplo de homem ou mulher perfeitos. Ele só representa o grupo, uma espécie de porta-estandarte. É um herói da animalidade grupal. E os atletas famintos, malnutridos, com os seus pobres ombros desencarnados, não saem de um campo de concentração. São os homens propostos à nossa admiração. O campeão é um viajante de identidade. Ele representa o clube, a marca comercial ou a Nação à qual pertence.

 

Muitos campeões deixam-se enveredar pela importância desmesurada da sua atividade desportiva. Muitos deixam-se cegar pelo sucesso e a pretensão. A carreira do atleta não pode dissociar-se da vida do homem ou da mulher. Não se pode esquecer que os campeões envelhecem. Ao procurarem a vitória a todo o preço, muitos recorrem a meios menos limpos (exemplo: a dopagem). O perigo não está tanto ao nível da competição ou da performance, mas da inadaptação possível do atleta à intensidade do seu esforço. A vida desportiva quotidiana dá múltiplos exemplos.

 

Vítor Rosa é Doutor em Educação Física e Desporto, Ramo Didática. Investigador Integrado no CPES – Centro de Pesquisa e Estudos Sociais, da Universidade Lusófona de Lisboa.

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