O movimento como Arte entrou-me cedo na vida (artigo de José Augusto Santos, 15)

Espaço Universidade 07-01-2019 21:40
Por José Augusto Santos

Na minha meninice sonhava ser anjo umas vezes, outras, demónio; demónio sempre me seduziu mais pois tinha menos constrangimentos morais e obrigações. A opção estava condicionada pelo meu estado de espírito e da porrada com que a minha mãe recompensava as minhas benfeitorias. Só muito mais tarde é que consciencializei que a opção anjo é muito limitada e pouco produtiva a vários níveis e principalmente em termos de gajas. Gajas, são aquelas coisas que andam por aí para nos atazanar as zonas cerebrais abaixo da cintura e que se vestem de anjo quando a sua pérfida alma nada mais exala que fumigações demoníacas. Mas, passemos a diante. Já um pouco mais crescido comecei a pensar noutras profissões mais comuns como advogado, médico, agricultor, polícia, bombeiro e talhante.

 

Com um pouco mais de reflexão escolhi ser advogado pois as outras profissões estão todas relacionadas com mamíferos mortos e, mamíferos mortos não batiam bem, naquela altura, com a minha pulsão mais humanista e ecológica. Mais tarde, verifiquei que embora os advogados não matassem diretamente quaisquer mamíferos eram indiretamente responsáveis por muitos suicídios, homicídios, magnicídios, filicídios, fratricídios, formicídios, fordicídios e deicídios. Muito mais tarde ainda, verifiquei que os advogados passaram de perpetradores indiretos dos mais hediondos crimes a executantes diretos dos mais cruéis crimes contra mulheres indefesas e outros seres humanos. Alguns estão no xilindró à espera do veredicto final da justiça. Por isso, resolvi ser militar que é aquela profissão em que somos preparados para a dádiva aos grandes desígnios da humanidade como a paz, concórdia, tolerância e bondade ecuménica. Mas, também aí não me sentia bem, pois, tanta bondade e tolerância não batiam bem com a minha pulsão hipotalâmica mais primitiva e, com a força dos meus mais íntimos demónios que andavam de volta da minha alma projetando-a para a iniquidade resolvi, mais uma vez, mudar de profissão.

 

Decidi ser banqueiro pensando que a entrada no banco corresponderia à minha familiarização com as avultadas maquias que me tornariam senão milionário pelo menos centilionário (neologismo que inventei agora e que significa que queria somente dinheiro para uma “porcheta” e uns fatos glamorosos). Até a pedir sou modesto. Infortunadamente, em vez de tomar banho na dinheirama, como fazia o Tio Patinhas, meteram-me num cubículo esconso e sombrio no qual tratava do bom rumo das viagens do dinheiro dos outros enquanto eu definhava no corpo e na alma e sem sair da ínfima e pelíntrica condição de mililitrolionário que, segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, significa teso. Após alguns meses de leal serviço na fábrica do dinheiro resolvi saltar para o desconhecido, para a profissão mais bélica que a humanidade criou – ser professor. Temi não ter as armas mais adequadas para entrar nessa guerra. Não sabia se as minhas destrezas mentais e físicas estavam adequadas ao desafio de ultrapassar e vencer todos os apocalipses, “Nows e Não-nows”, que essa profissão acarreta. Já me estava a ver como o capitão Willard a tentar matar todos os coronéis Kurtz que se escondiam sediciosos nos espíritos rebeldes e inconformados dos jovens. Não sabia se teria napalm suficiente para esturricar as incertezas e desconformidades mentais e corporais que o difícil processo de crescimento comporta. Eu não queria que a guerra que assumi fosse para “mostrar os fortes e salvar os fracos” (Almada Negreiros). Decidi, ab initio, que a guerra seria para mostrar os fortes e transformar em fortes os mais fracos. Só assim a beleza do horror e destruição é justificável. Assumi, como missão essencial, matar os vírus do comodismo, facilitismo, demissionismo, recusa, receio e incapacidade.

 

Nem sempre foi fácil, pois as forças refratárias ao movimento absoluto e educativo num país de poetas e teóricos, relegaram as coisas do corpo para o plano das coisas despiciendas. A religião medieval cunhou o corpo com o estigma do pecado. Logicamente que o corpo é sede de pecado, principalmente porque coabitamos com um bicho monstruoso, esquisito, mortal e impiedoso que se chama mulher, mas também é centro de felicidade e elevação transcendental. E os pecados do corpo são sempre tão saborosos. A maldição medieval demorou a ser ultrapassada e, se hoje o corpo já não é locus de pecado é, sem dúvida, território ambíguo que nos permite a ponte entre a transcendência e a mais pura rebaixolice. Como desabafa Vergílio Ferreira, “é tão fácil descer ao porco que está sempre em nós à espera”.

 

Então, como professor, fui procurar a bênção dos deuses. Logicamente que escolhi Hermes que, além de ser o mensageiro do Olimpo, era o patrono da ginástica, dos diplomatas e dos ladrões. Está certo, esses gajos, os profes e destreinas, são do piorio. Fartam-se de roubar e por isso têm Hermes como referência divina. Só que nós somos uns ladrões muito especiais que de tanto roubar, fartamo-nos de dar. Que roubamos? Roubamos as sincinesias, dismetrias, adiadococinesias, descoordenações, associabilidades, intolerâncias, fadigas, inculturas e transformamo-las, com golpes de prestidigitação, em corpo funcional, descoberto e mente ágil e interrogante. Alguém disse que teoria e prática são exceção num só homem. É esse o nosso desiderato como educadores, o nosso desafio existencial. Ao contrário dos ascetas medievais não martirizamos o corpo para elevar o espírito. Elevamos ambos na inteireza inquebrantável que é o existir. Desde sempre rejeitamos a tese que proclama que para o corpo se alimentar o espírito tem de passar fome. Não, rotundamente não. Quando estamos a dar de comer ao corpo já estamos, por arrasto e implicitamente, a alimentar o espírito. Tentamos, cada dia, consubstanciar o ato motor como expressão de cultura.

 

Por muitas viagens que façamos para o inefável de nós existe sempre um momento em que regressamos ao essencial, ao nosso corpo - a realidade primeira. O mito de Sísifo é a metáfora perfeita da vida de um professor. Cada leva que nos chega implica-nos, todos os anos, o esforço da subida. Aí vamos com a carga às costas subindo o monte da incultura e da disfunção. Lá chegados, enquanto a pedra que carregamos ganhas asas e voa na procura de si em novos horizontes nós, cansados mas felizes, deslizamos monte abaixo, aos trambolhões, ansiando por novas pedras e novos castigos. Quem tem Hermes por patrono não pode esperar muito dos deuses -  só canseiras e trabalhos.

Como jardineiros das coisas do corpo temos o tempo da semeadura, da monda e da colheita. Os dois primeiros momentos são duros, difíceis, exigindo pertinácia e resiliência física e mental. É o desabrochar das funcionalidades, a superação das insuficiências e das deficiências e a procura de um corpo potenciado como realidade biológica. Depois temos o momento do usufruto em que o corpo supera a sua realidade biológica e atinge um novo patamar de expressão - a Arte. Temos um corpo desenvolvido e dominado, mas, como os humanistas ricos que perdulários prodigalizam muito do seu Ter para construir o seu Ser, aí vamos nós voando sobre os nossos limites na procura da suprema utopia – o corpo com asas.

 

A arte, na poesia, literatura, pintura, é quase sempre fingimento; no Desporto e na Dança a arte é intensamente real na sua ficção. Ao contrário de outras formas de arte em que o fictício esconde o Eu real, no desporto e na dança a ficção é a realidade e o Eu real está presente, assumido plenamente na exaltação dos êxitos e mais ainda no malogro dos inêxitos. Estes, fazem-nos cair, mas comportam o élan transformador da autossuperação.

 

O desporto consubstancia, como nenhuma outra forma de arte, o mito nietzschiano do eterno retorno. Cada derrota é o regresso ao Eu primordial que se levanta da poeira genésica e tenta, mais uma vez, elevar-se em esforço ao convívio com os deuses. A vitória catapulta-nos, de imediato, ao sublime convívio com os deuses da arte.

 

Que expressão do Ser toca a arte que o desporto e a dança comportam? O desporto e a dança são as expressões mais efémeras de arte que os deuses e o homem construíram em conjunto. A arte, como movimento intencional e significativo, não é completamente inteligível. Como decifrar a expressão artística sintetizada em movimento?  Pelos sentidos? Pela razão? Pela emoção? Pela inteligência? Talvez, pela síntese de todos os atributos humanos. O homem, na sua dimensão plural, não pode ser reduzido a fraciúnculas qualquer que seja a forma como manifesta a sua interioridade.

 

Num movimento desportivo (mais fechado) ou na dança (mais aberto) é o homem todo que se expressa, é o homem total que sente. O desportista, o bailarino, escrevem no ar a expressam da sua arte. O vento dissolve num ápice aquilo que aconteceu de sortilégio. A grande fraqueza da arte em movimento é que se esvai com a flecha do tempo; a sua grande força é que não sofre a usura do tempo e é campo mais fértil para todas as projeções mitológicas. O desporto e a dança fazem jus à impossibilidade de existir uma arte certa, imperecível. A sua morte num momento é a condição do seu ressurgimento no momento seguinte. A dança e o desporto são a arte que melhor metaforizam a essência da vida.

 

José Augusto Santos é Professor da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

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