O Padre Manuel Antunes: um especialista em humanidade! (artigo de Manuel Sérgio, 273)

Ética no Desporto 06-01-2019 15:29
Por Manuel Sérgio

Trabalhador-estudante que era, com muita dificuldade obtinha licença do meu chefe, nos Armazéns do Arsenal do Alfeite, para frequentar as aulas do meu currículo universitário, na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Mas ele, por fim, onde vicejava uma certa simpatia pela minha vontade de estudar, decidiu conceder-me dois dias, por mês, para escutar as lições dos meus professores.

 

Pouco tempo passado de pôr pé, nas aulas, pela primeira vez, e de ponderar as opiniões dos meus colegas de curso, sem descer a mais pormenores posso adiantar que, rapidamente, comecei a aplaudir o Padre Manuel Antunes, no pódio dos meus ídolos e a ler atentamente as obras zenitais que nos aconselhava. De Gaston Bachelard, de Emmanuel Mounier, de Pierre Teilhard de Chardin (três autores que, depois, citaria, com alguma frequência) foi nas aulas do Padre Manuel Antunes que principiei a folhear obras admiráveis que sobrepujam alguns “pós-modernos” e diante das quais não passo sem uma vénia e uma releitura. Mas é como “especialista em humanidade” (a expressão é de Manuel Antunes) que, hoje, o quero distinguir. José Eduardo Franco e Luís Machado de Abreu, em prefácio ao livro Compreender o Mundo E Atualizar A Igreja. Grandes Textos do Padre Manuel Antunes, SJ (Gradiva, Lisboa, 2018) chegam-nos com novas interpretações , novos alvitres: “Especialistas em humanidade são os que, por amor da justiça e da paz apontam, pelo exemplo e pela palavra, o caminho do bem comum, da solidariedade e da dignidade da pessoa. São os homens sábios que mobilizam os recursos do conhecimento e da experiência em projetos de humanização das  instituições e das comunidades, não em campanhas destinadas a conquistar poder económico, social e político. Especialistas em humanidade são os novos profetas, generosos intérpretes da voz da consciência universal, que habita no íntimo mais puro e genuíno das consciências individuais” (p. 26).

 

                Neste dealbar do ano de 2019, se me solicitassem quais os meus votos, para o desporto português, resumia-os a um só: que o nosso desporto se desentranhe em valores que dêem sentido à vida e não só em técnicas e táticas que ajudem as pessoas a movimentar-se nela! Um dos aspetos mais originais da análise que Viktor Frankl faz ao nosso tempo é a identificação da patologia que ele denomina “vazio existencial” e que assim define: “a experiência da falta total ou a perda daquele sentido último da própria existência, que lhe pode justificar o valor”. Numa conferência, que ficou célebre, intitulada A neurose coletiva do tempo presente, Frankl aponta os sintomas desta quase patologia: não há uma essência supra-histórica do Homem e da Vida; há, por isso, uma resignação fatalista diante das imposições dos determinismos biológicos e culturais; cega submissão aos caprichos da moda e da comunicação social; uma devoção religiosa a novos deuses, precisamente na altura em que “altas especulações filosóficas” continuam a repetir o nietzscheano: “Deus morreu”; e, por fim, procura insaciável do ter e absoluto desprezo do ser. Vale a pena voltarmos a Manuel Antunes: “Ter, sobra. Sobra ao santo como ao sábio, ao herói como ao filósofo. Quando o são de verdade. Sobra também àqueles que, pela atitude anímica ou pela conduta moral, de perto ou de longe, se lhes tornam comparáveis. Sobra, pelo menos, em certa medida. Medida difícil de determinar, uma vez garantido o mínimo necessário à subsistência e ao trabalho. Sim, mesmo no campo da criação cultural, a pobreza é necessária. A pobreza, ou melhor, um real espírito de pobreza. A riqueza, em vez de constituir um estímulo, um incentivo ou um autêntico valor de promoção, pode converter-se em obstáculo, por vezes intransponível. Historicamente, sabe-se que não poucas invenções e descobertas, não poucas ideias novas e realmente fecundas, não poucas formas de arte e de vida, que têm feito a admiração dos séculos, foram realizadas na pobreza, num certo clima de desnudez, de disponibilidade e de abertura” (in José Eduardo Franco e Luís Machado de Abreu, op. cit., pp. 122/123). 

  

                O especialista em humanidade, como eu digo que o devem ser os professores, os treinadores, os estudiosos das diversas áreas da motricidade humana – o especialista em humanidade, para observar, transmitir e praticar interdisciplinaridade; para situar a motricidade humana noutras formas do saber, tentando revitalizá-las e revitalizar-se, é como “pobre de espírito” que o pode fazer. O “rico de espírito” julga que o poder inelutável do destino o sentou, “per omnia saecula saeculorum”, longe da falta de rigor e de verdade das “fake news”; e do discurso político que manipula a informação, para consolidar o poder; e do processo avassalador das “redes” que potenciam os interesses de quem mais dinheiro tem. De facto, o “rico de espírito” não parece sofrer, nem de medo, nem de incertezas, nem de insegurança, porque ele, assim o diz, raramente tem dúvidas e raramente se engana. Não precisa do bergsoniano “suplemento de alma” porque da sua tranquilidade morna, que o adormece, ele esquece que as suas convicções provocam-lhe uma obnubilação, uma escuridão, uma sombra que o convertem num permanente iludido, num invisual incapaz de situar-se com radicalidade diante de todas as questões, diante de todos os valores, diante daquela intuição originária que se desenvolve na prática da solidariedade e do estudo e se robustece na heterodoxia e que afinal lhe confidencia a sua missão e o seu destino. O “pobre de espírito” compreende a complexidade humana, sabe que, na melhor das intenções, pode enganar e enganar-se; sabe que as ciências não podem excluir o convívio com as humanidades, como as humanidades não podem excluir o convívio com a tecnociência; sabe ainda que o religioso é constitutivo do humano. Embora viva em adeus e em viagem, como cantava o nosso José Régio, o ser humano, vivendo, hoje, num mundo dessacralizado, é um peregrino do Absoluto - um Absoluto que se impõe como postulado inalienável da existência humana. A minha fragilidade, a minha debilidade, a minha contingência deixam-me febrilmente agitado, inquieto, à procura da Verdade e da Paz e da Justiça e do Bem absolutos.

 

                Renan, com frémitos de emoção, lutou pela organização científica da humanidade, fundado na falsa certeza de que Razão e Fé não poderiam conviver. Mas o cientismo durou o tempo das rosas. E continuam actuais as palavras de Manuel Antunes: “Só aqueles que compreenderam e de algum modo experimentaram que nada de humano lhes é estranho, só aqueles que decidiram dizer sim, inserindo-se no movimento de um mundo que sobe, estarão como que conaturalmente em estado de testemunhar, com autenticidade, de outros valores que excedem esse mesmo mundo”. E são esses que “cultivando a ciência e a técnica, eles contribuirão para criar as condições em que a humanidade possa subsistir, apesar de muito mais numerosa, com mais justiça e mais liberdade” (in José Eduardo Franco e Luís Machado de Abreu, op. cit., p. 192). É verdade que a ciência nasceu e impôs-se à consideração e ao respeito de todos, manifestando declarada oposição às crenças religiosas e a  alguns mitos, de fundo comum com a metafísica; confundindo Religião com obscurantismo, com desrazão, com mentira organizada. Gilles Lipovetsky proclama, com ênfase, nos seus livros, que “o século XXI será ético, ou não será”. Ao longo dos séculos que precederam a “revolução industrial” a ética nascia da religião: “Roma locuta, causa finita”, traduzindo: “sempre que Roma fala, acabaram-se as dúvidas”. Depois, o apotegma passou a ser outro: “Scientia locuta, causa finita”, traduzindo: “Sempre que a Ciência fala, acabaram-se as dúvidas”. Mas há um princípio aristotélico que diz: “Tudo o que é recebido, é recebido segundo o modo de ser do recetor”. E o fundamento inconcusso da Ética, continuará a ser, para uns a ciência, para outros a religião. Sou em crer que é, com uma Ciência com Religião e uma Religião com Ciência, que o Homem poderá recomeçar, porque, na banalidade estandardizada da Sociedade do Espetáculo, o ser humano será Razão tão-só?  Ele é bem mais do que Razão – ele é também uma Razão antiga, ampliada e rejuvenescida que se chama Fé. E termino com o Padre Manuel Antunes que nasceu, há 100 anos, na Sertã e deixa nome indelével, na história da nossa cultura: “Neste mundo, que cada vez mais se exterioriza, tem de haver um contrapeso de interioridade para o equilibrar” (Do Espírito e do Tempo, p. 203). Eu chamo-lhe Fé, por razões familiares?... Para mim, “por imperativo de compreensão”.     

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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