Suspeito nº 12 – Acreditar que … e a Reação às … (artigo de João Oliveira)

Espaço Universidade 04-01-2019 22:07
Por João Oliveira

O Pai estava a pagar a portagem, quando o filho, no banco de trás, com o respetivo cinto de segurança colocado, diz - “Pai, olha o Presidente Mark Angie”. O Pai olha e o carro arranca. “Parecia chateado!” - acrescentou o filho. A mesma sensação tinha o motorista do Presidente, o Sr. Daniel Green, que acompanhava o Presidente há muitos anos. Era uma pessoa discreta, super responsável, preocupado com os outros e, enquanto passa os olhos pelo retrovisor, vê o Presidente com os dentes e punhos cerrados, um pouco rosado, inclinado para a frente e as sobrancelhas quase sobrepostas. Parecia que estava furioso, que lhe apetecia lutar com alguém. “O que é que está a incomodar o Presidente” – pensava o Sr. Daniel Green.

Enquanto isso, o Presidente pega no telemóvel e faz uma ligação. “Detetive Colombo, desculpe incomodá-lo, mas necessitava de falar com alguém” – começou por dizer o Presidente Angie, enquanto o Detetive Colombo pensou – “o que é que se passa?” – e o Presidente Angie continuava – “estou a regressar de uma reunião da Liga de Clubes e aquilo foi um “circo”.”

“O que se passou?” – perguntou o Detetive Colombo que estava sentado numa esplanada, a tomar um café e a ler um livro, agora pousado, com uma caneta a marcar a página.

“Estávamos a analisar os direitos televisivos, envolvendo 500.000.000 Euros, e surgiram duas posições diferentes, os Clubes “Grandes” queriam manter a posição de negociarem individual e diretamente os direitos televisivos, enquanto os outros preferiam que a Liga negociasse todo o campeonato, com os operadores” – partilhava o Presidente Angie, que confiava na descrição do Detetive, dadas as muitas provas de descrição.

Enquanto o Detetive Colombo pensava – “que esta deve ter sido das poucas situações em que os Clubes “Grandes” estavam de acordo com algo, se encontravam do mesmo lado” e disse - “o que aconteceu a seguir?”. “Os Clubes “Pequenos” começaram a acusar-nos de estarmos preocupados apenas com os nossos interesses, que para haver “Grandes” tinha que haver os outros, que ao olharmos apenas para os nossos interesses os estávamos a subvalorizar e de repente estávamos todos a falar ao mesmo tempo, cada vez mais alto, a discutir com um tom agressivo e a atacarmo-nos uns aos outros, com cada lado a defender a sua posição” – respondeu o Presidente Angie.

“Uns aos outros! Como assim?” – tentava perceber o Detetive Colombo. “Parece mentira” – começou por dizer o Presidente Angie – “mas, de um lado estavam os Clubes “Grandes”, do outro, os “Pequenos” e nenhuma das partes ouvia a outra, antes atacavam-se mutuamente”.

“Qual foi o resultado dessa reunião?” – perguntou o Detetive Colombo. “Chateámo-nos uns com os outros, houve inclusive uma proposta de corte de relações, entre alguns Clubes, as pessoas estavam e ficaram irritadas, e de concreto, não se analisou nada e ficámos pior do que estávamos no início da reunião” – disse o Presidente Angie.

 

“Por que razão começaram a discutir uns com os outros?” – perguntou o Detetive Colombo. O Presidente Angie fez uma pausa e disse - “por que havia diferenças entre nós” e o Detetive Angie perguntou – “por que razão é que as diferenças os levaram a discutir?”. Nesse momento, o Presidente Angie começou a pensar que o Detetive lhe estava a dar “baile”, mas ao mesmo tempo, pensou nas diversas vezes que as perguntas do Detetive, que lhe pareciam estúpidas, o tinham ajudado a perceber as coisas e respondeu – “porque as diferenças são um problema”.

“As diferenças serem um problema ajudou os Clubes e a Liga obterem um resultado construtivo, útil, razoável e aceitável, para todos, ao longo do tempo?” – perguntou o Detetive. “Não, de maneira nenhuma” – respondeu o Presidente.

“Que princípio alternativo poderia ter em vez de “as diferenças são um problema”?” – perguntou o Detetive. “Não estou a perceber!?!” – devolveu o Presidente Angie.

“Há uns anos atrás, quando estava a estudar o comportamento organizacional, para me tornar Detetive, fiz parte de um Centro de Investigação para o Treino e Trabalho das Equipas” – começou por dizer o Detetive Colombo, enquanto pensava nas centenas de reuniões e horas de aprendizagem, que tinha desfrutado com os outros investigadores e com a pessoa que designava de “Teacher”,  que o tinham marcado muito positivamente e,  do outro lado da linha, o Presidente Angie escutava-o e continuou – “quando surgia uma diferença eu era como que sequestrado pelos meus impulsos e reagia atacando o ponto de vista diferente do meu e com isso podia gerar uma discussão, mas não era isso que acontecia, bem pelo contrário”.

O Presidente Angie estava curioso por saber o que é que acontecia, que gerava um resultado diferente das discussões, quando surgiam as diferenças, mas, entretanto, o Sr. Daniel Green disse – “Presidente Angie, desculpe interromper, mas necessito de sair neste posto de gasolina para abastecer”. “OK, Daniel, força” – respondeu o Presidente, que de imediato disse ao Detetive – “estou super curioso por saber qual é a alternativa para lidar com as diferenças, mas vou ter de desligar, porque estou num posto a abastecer o carro, mas já lhe ligo de volta.”

“Grande parte das pessoas que passava e via o Presidente Angie no carro acenava, gritavam “Galácticos Olé” ou “Mark Angie Olé” e, entretanto, o Sr. Green regressa ao carro e arrancam, enquanto o presidente acenava para os adeptos do seu Clube, de imediato pega no telemóvel e volta a ligar ao Detetive Colombo.

“Sim, Presidente” – respondeu o Detetive Colombo e continuou – “naquele Centro as pessoas tinham uma ideia diferente das “diferenças”, isto é, AS DIFERENÇAS NÃO ERAM UM PROBLEMA, MAS ANTES UMA OPORTUNIDADE”. “Como assim?” – perguntava o Presidente.

“Presidente” – começou por dizer o Detetive Colombo – “complete a frase que vou começar: se as diferenças são uma oportunidade, então quando surgirem as diferenças …” e o Presidente continuou - “… vou conter o impulso de atacá-las, … vou escutá-las, … vou considerá-las, … vou aproveitá-las”.

“Qual será o resultado de acreditar-se que “as diferenças são uma oportunidade”?” – perguntou o Detetive. “Imaginando um cenário como esse, as pessoas não atacavam as pessoas que tinham uma posição diferente, uma “importância” diferente, nem levantavam a voz para as outras pessoas, com isso criavam um contexto seguro, abordavam realmente a situação e, ao fazê-lo, podiam começar a perceber que tinham pontos de convergência com os outros, fossem esses outros os “Grandes” ou os “Pequenos” e que tinham pontos de divergência com os que pensavam de forma semelhante. Ou seja, criava-se um contexto em que os grupos, “Grandes” e “Pequenos”, podiam considerar e integrar as diferenças e com isso poderem encontrar uma solução que não tinham considerado à partida e que até pudesse ser melhor do que a que defendiam” – respondeu o Presidente Angie.

“Como chamaria a essa nova solução?” – explorava o Detetive Colombo e de imediato o Presidente Angie respondeu – “solução criativa e inovadora”.

O Presidente Angie estava mais sereno, já estava encostado para trás, o olhar estava dirigido bem para a frente, como que a visualizar uma nova oportunidade e começava-lhe a fazer sentido ver as diferenças com novo olhar, como alguém que vê mal e coloca os óculos e de repente consegue enxergar o que estava à sua frente ou como quem vê bem mas está a olhar para tão distante, que nada vê, mas ao pegar nos binóculos consegue ver tudo na perfeição e pensou - “posso olhar para as diferenças como um problema ou como uma oportunidade”, quando o Detetive Colombo diz - “imagine que estava na mesma reunião da Liga de Clubes e que todos acreditavam que as diferenças são oportunidades, isso ajudaria os Clubes e a Liga a obterem um resultado construtivo, útil, razoável e aceitável, para todos, ao longo do tempo?”

“Sem dúvida” - pensava o Presidente Angie, enquanto tentava resumir e reter a ideia central: que do mesmo modo que o Sr. Daniel Green teve que meter gasolina para o carro avançar, também as pessoas, as equipas, as organizações necessitam das diferenças para melhorarem, progredirem e prosperarem e que o problema não está nas diferenças, mas nas nossas crenças sobre elas e na nossa capacidade para lidar com elas. Ou seja, as diferenças estão para as pessoas, equipas e organizações, como o combustível está para os automóveis. Necessitámos delas para avançarmos e ao reagir a elas comprometemos toda a evolução”.

O Presidente Angie tinha encontrado mais um dos “culpados” de estar a “matar” a mudança no seu Clube, no desporto e na sociedade em geral – “reagir às diferenças” e estava comprometido a passar a olhar e relacionar-se com as diferenças como oportunidades, quando estivesse com os filhos, com os colegas de Direção, com os Professores dos filhos, com os patrocinadores, com os Treinadores, com os jornalistas, com (…) e reconhecia o enorme valor do que tinha aprendido, pois na reunião da Liga estavam 500.000.000 Euros em jogo e questionava-se quanto vale “as diferenças são uma oportunidade”:

quando está em causa encontrar a melhor abordagem para um parto prematuro de gêmeos em situação de risco, numa equipa cirúrgica?

quando a direção de uma empresa e os seus trabalhadores têm pontos de vista diferentes sobre o sistema de remunerações, o tratamento dado às pessoas, a participação e contribuição das pessoas e o sentido das coisas e os veem como uma oportunidade?

quando um parlamento e os seus diferentes partidos procuram as melhores soluções para a vida das pessoas?

 

“Muito obrigado Detetive Colombo” – agradecia o Presidente Angie enquanto recordava que o Detetive o tinha alertado para duas coisas: a mudança da crença – que estava resolvida e que iria partilhar com o mundo– e as estratégias que potenciam a nossa capacidade para lidar com as diferenças. Que estratégias serão essas? – questionava-se o Presidente Angie.

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