A Rutura com o Senso Comumna Ciência da Motricidade Humana (CMH) (artigo de Manuel Sérgio, 270)

Espaço Universidade 16-12-2018 17:19
Por Manuel Sérgio

“Como a história comprova, cada disciplina só acede ao estatuto de ciência, quando constrói um o seu objeto próprio – quando, delimitando um conjunto de problemas solucionáveis, abandona as questões cuja abordagem se poderia fazer apenas no registo da filosofia, da religião ou da ideologia e se situa a um nível de abstração e generalidades, que lhe permite elucidar regularidades, formular leis, construir modelos interpretativos. Em consequência, ciência é também procurar soluções para problemas. Ela própria elabora e testa os meios necessários: conjuntos coerentes de conceitos e relações entre conceitos (as teorias), uma linguagem conceptual adequada e tanto quanto possível exclusiva, instrumentos técnicos de recolha e tratamento de informação, métodos de pesquisa” (Augusto Santos Silva e José Madureira Pinto, Metodologia das Ciências Sociais, Edições Afrontamento, Porto, 1989, p. 12). Neste Inverno, de árvores despidas, com o ar a esfriar-se, folheio o livro de A. Sedas Nunes, questões preliminares sobre as Ciências Sociais (Editorial Presença, 1993), onde colhi o seguinte: sendo o ser humano um facto total, uma totalidade complexa, tentar separar, como incompatíveis, o material do espiritual, o espírito da carne, o individual do social “só podem representar, no melhor dos casos, abstrações provisórias que implicam sempre grandes riscos para o conhecimento. É por isso que o investigador deve sempre esforçar-se por reencontrar a realidade total e concreta mesmo quando sabe que só lá pode chegar duma maneira parcial e limitada; para esse efeito, deve integrar no estudo dos factos sociais a história das teorias acerca desses factos e, por outro lado, ligar o estudo dos factos da consciência à sua localização histórica e à sua infraestrutura económica e social” (p. 39). Viver é unir, ligar, relacionar, fraternizar. Crer apenas na força é a fraqueza da força!

 

José María Quintana Cabanas, com uma portentosa obra, teórica e prática, no domínio da Ciência da Educação (ou Pedagogia), é com vibração, com entusiasmo, que se refere à epistemologia da Ciência da Educação. Diz ele: “conviene que la Pedagogia tenga una epistemologia bien elaborada. No solo para tener una Pedagogia bien construída y completa como ciência, sino también para que sea posible una buena formación de los pedagogos, ya que no puede haber un plan de estúdios pedagógicos adecuado y bien concebido si no se tiene, antes, un esquema equilibrado de lo que es y debe ser la Pedagogía (prólogo do livro de João Boavida e João Amado, Ciências da Educação: Epistemologia, Identidade e Perspectivas, Coimbra, 2006, p. 7). Mas são, hoje, muitos os obstáculos epistemológicos a vencer, principalmente os que decorrem do senso comum. O paradigma que julgo mais interessar à CMH resume-se a uma síntese de três paradigmas, o positivista, o fenomenológico-interpretativo e o crítico. O paradigma positivista, descritivo e factual, na CMH, lembra-nos que as intuições, as especulações, as emoções humanas deverão submeter-se aos métodos específicos das ciências da natureza, ao paradigma positivista descritivo e factual. A perspetiva fenomenológico-interpretativa (e portanto qualitativa) visa a compreensão da complexidade humana, onde nem tudo se expressa por números, nem tudo o laboratório explica. Portanto, o quantitativo e o qualitativo, como paradigmas e metodologias, deverão complementar-se mutuamente, tendo em vista uma expressão mais ajustada do humano e até a dimensão histórica do fenómeno humano. A perspetiva crítica diz-nos, com meridiana nitidez que, no humano, a explicação, a compreensão e os interesses emancipatórios e políticos constituem uma totalidade dialética. Portanto, a Ciência da Motricidade Humana (o Desporto, a Dança, a Ergonomia, a Reabilitação, a Gestão do Desporto e a Educação Motora, tradicionalmente conhecida por Educação Física) é uma ciência hermenêutico-humana que estuda o ser humano, no movimento intencional e em equipa (em grupo) da transcendência.

 

Ultrapassar o senso comum, no desporto, principalmente neste mundo intimidativo onde o terrorismo campeia, temos uma carga de anos e anos a alijar, em que a prática desportiva não se coíbe de sobrevalorizar os máximos princípios do economicismo, de uma saúde fisiologista e mecanicista e, ostensivamente, esquece que a cultura desportiva é uma preocupação do homem pelo homem, é uma pedagogia do humano e onde, por isso, viver não é só durar e, como tal, onde há necessidade de tomar partido, na singularidade de situações múltiplas, em defesa do ser humano. A cultura desportiva deverá surgir como um complemento e acabamento, de “um animal heurístico”, ou seja, de um ser humano que pretende conhecer e conhecer-se melhor, que procura o sentido e o significado do que faz. O Vaticano II apresentou “uma definição de cultura que é, a um tempo, das mais complexivas e completas de quantas, até hoje, nos foram dadas. Depois de aludir aio nexo, necessário, entre natureza e cultura e depois de afirmar o princípio de que o homem não atinge um nível verdadeira e plenamente humano senão por meio desta última, o Concílio continua assim: Pela palavra Cultura, em sentido geral, indica-se tudo aquilo com que o homem afina e desenvolve os seus múltiplos e diversos dotes espirituais e corporais” (Manuel Antunes, in Brotéria, Novembro de 2018, p. 655). Nuccio Ordine, num livro que frontalmente intitulou L’utilità dell’inutile (Bompiani, Milão, 2013) sublinha que a felicidade não passa unicamente pela procura desesperada do dinheiro e do poder. “Se o útil é o que produz lucro, então as humanidades podem encerrar. Elas não só não dão rendimento a uma economia, como exigem custos elevados, hoje considerados supérfluos. Estudar latim ou sânscrito, ler Aristóteles ou Shakespeare, conhecer os filósofos, fazer ballet ou cantar polifonia antiga não aumenta as receitas de um país endividado” (Margarida Miranda, “Humanidades, para quê?”, in Brotéria, Novembro de 2018, p. 566). De facto, “não aumenta as receitas de um país endividado”, mas pode ensinar-nos a sermos felizes! Um dia, na terra dos meus pais, uma aldeia de Trás-os-Montes, escutei a um idoso, com um rosto de ossos e de sombras, uma frase inesquecível: “Na vida, há quem se entristeça porque as rosas têm espinhos, mas há também quem se alegre, porque os espinhos têm rosas.”

 

Segundo a CMH, o desporto é uma das suas especialidades. E, se a CMH é uma ciência social e humana, o desporto só como ciência social e humana poderá estudar-se e praticar-se. “As disciplinas sociais são especialmente permeáveis às interpretações do senso comum. Ao passo que a física ou a astronomia romperam já há alguns séculos, por vezes em circunstâncias dramáticas, com o senso comum, construindo uma linguagem conceptual e processos de demonstração específicos que as imunizam, em grande parte, à influência daquele, as ciências sociais, mais recentes, não possuem ainda, em geral, códigos e instrumentos exclusivos” (Augusto Santos Silva, op. cit., p. 30). E é muito mais fácil ao senso comum fazer do desporto um biologismo, ou visioná-lo pelo paradigma positivista, ou sujeitá-lo às interpretações do dualismo Natureza-Cultura, do que percecioná-lo como motricidade humana, ou seja, como ações que, até há bem poucos anos, não se estudavam com o devido rigor, separando-as do tempo, espaço,  contexto e da filosofia que as informam. Por outro lado, vale a pena ver (e ouvir) a ligeireza como algumas pessoas comentam o futebol, sem as correspondentes pesquisas quantitativa e qualitativa, ficando o que dizem estritamente vinculado a mitos, a crenças e às mais variadas expressões apaixonadas dos adeptos, dos espectadores, diante de um jogo de futebol. Mas, para compreender a motricidade humana, como ciência, não bastam as “representações crentes” (Alexandre Palma). As ciências nascem com teorias, métodos, conceitos, emoções, desejos, interesses e reproduzem um velho conflito entre o novo e o velho, a tradição e a renovação, a ideologia e a ciência. Ora, há demasiada coisa velha, bem pouca renovação e uma ideologia gasta e trôpega, nalguns comentários ao desporto (e até nalguns estudos do desporto). Na unidade e multiplicidade do conhecimento, descobre-se sentimento e razão também e… a necessidade de interdisciplinaridade entre o sentimento e a razão!

 

Para mim, continua a ser senso comum a ciência de orientação positivista, que blasona de objetiva, friamente analítica, politica e eticamente neutral, esquecendo lamentavelmente, entre tíbios sorrisos profissionais, que não ter partido significa tomar partido pela indiferença, pelo desinteresse, pela não-posição. Na visão incontornável de Sócrates, quem sabe julga que nada sabe. Senso comum é também o argumento de autoridade que julga que tudo sabe. A realidade não é só complexa, é também imprecisa. As ciências, portanto, procuram tratar com precisão uma realidade imprecisa. Embora nos interesse sempre mais escutar o cientista do que a cartomante, pois que o método do cientista parece ser mais fiável. Quem estudou O fim das certezas, de Ilya Prigogine, de certo sublinhou que “o possível é mais rico do que o real”, ou seja, que é do caos que o novo esplende mais intensamente. Demais, num universo governado pela entropia, o caos aparece inevitavelmente, mais tarde ou mais cedo – o caos e, logicamente, a novidade. No entanto, o cientista mais constrói do que descobre. O trabalho, o estudo, teorizar a prática e praticar a teoria são absolutamente necessários, tendo em conta o desenvolvimento das ciências. Poderia lembrar, aqui, uma frase do célebre “Magic” Johnson: “O talento, o génio mesmo, nunca são o suficiente. Com algumas exceções, os grandes jogadores, os grandes atletas são os que mais trabalham, porque mais sentem a necessidade de trabalhar”. Na alta competição (desportiva ou não) não há vida fácil, não há estreia fácil, não há êxito fácil. Até uma certa dose de religiosidade é necessária! E de sabedoria? Aquela sabedoria que os jogadores experientes praticam com natural desenvoltura e que sabem fazer e não sabem explicar? Quem perceciona a realidade como um todo, sabe, com um saber de experiência feito, que a vida é bem mais do que ciência. É também senso comum. Afiança-o e reabilita-o o ditado popular: “Voz do povo é voz de Deus”…   

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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