Eu, professor me confesso - parte 8 (artigo de José Neto, 76)

Espaço Universidade 03-12-2018 00:13
Por José Neto

Antes de entrar na reta final, que ao longo desta temática tem marcado a passada duma vida, apoiada pelo desejo de fazer de cada lanço de estrada um percurso tranquilo, que o tempo a realizar seduz e a graça em o fazer reluz, gostaria de refletir com os meus queridos leitores, duas ou três razões que motivaram a minha intervenção social e comunitária, desta gente que vai fazendo de mim dever e desejo de aproximação.

Para além dum acontecimento desportivo que marcou a história do Futebol de Formação no Distrito do Porto, quando para tal foi levado a efeito o I TORNEIO DE FUTEBOL INTANTIL/PRIMAVERA 76 (já evidenciado num dos temas publicados referentes ao “CRESCER PARA VENCER”), outra prova marcou de forma exemplar a dedicação a quem na mesma participou. Cognominada a VOLTA AO CONCELHO em termos de estafetas, mais tarde conhecida por ABRAÇO AUTÁRQUICO (nome atribuído pelo meu bom amigo feito pelos laços que o coração explica, Dr. José Bastos, no momento vereador da Câmara de Paços de Ferreira).

 

Levada a efeito de forma repetitiva na data de 6 de Novembro (data das comemorações do aniversário concelhio), reuni metade de meia dúzia de bons amigos, estudamos o percurso que perfazia no total 37 Km e congregamos numa atividade 16 equipas (tantas quantas as freguesias), fazendo constar em cada uma, 16 elementos, realizando a prova de 16 estafetas, transportando cada atleta na corrida um testemunho com as cores da nossa terra, fazendo a passagem em pontos estratégicos de cada freguesia. Acontecia nessa tarde uma verdadeira festa da nossa gente, que se juntava nos locais de passagem e bem alto soltavam o grito de exaltação a quem com a camisola da bandeira da sua freguesia, reunindo num sentimento coletivo, expressavam assim o aplauso pelo esforço prestado, convertido no suor que lhes iluminava a alma.

 

Outro facto histórico que mereceu referência numa verdadeira explosão popular foram as comemorações dos 400 anos da morte de Luís Vaz de Camões, congregando também numa dinâmica de entretenimento, jogo e competição uma parte mais evidenciada da obra de um dos maiores escritores de todos tempos. Também 16 elementos de cada freguesia se constituíam como grupo, trajando roupagem à época (as nossas costureiras se empenhavam no aprumo e rigor na sua apresentação) e na tarde de 10 de Junho o estádio da Mata Real virou palco da história.

 

Pelas 12 horas anunciadas pela R.R., 16 bombas rebentavam em cada centro de cada uma das 16 freguesias, anunciando uma saudação bem fraterna de união comunitária. Passado um tempo, ao toque de 16 clarins, seguiam em desfile para o estádio, quase a “rebentar pelas costuras” e aos cânticos de entrada, sobre o pelado já havia sido construído um castelo, uma piscina feita de insuflável e outros preparativos para através dos jogos, descritos por um jovem e também com a leitura correspondente da obra de Camões, se ficou a conhecer de forma mais entusiástica e operativa o “fogo de santelmo e a tromba marítima”, o “episódio de maria”, a “luta pela salvação dos lusíadas” , etc …etc …Antes de se conhecer a tipologia dos “jogos sem fronteiras”, já na minha terra acontecia o que pela dinâmica do jogo poderia evidenciar o entretenimento, adoçando-lhe o conhecimento da história e fortalecendo uma dinâmica de coesão comunitária feita com suor, paixão, alegria, cultura e festa.

 

Ainda outro facto marcou a ligação de afeto com a minha comunidade. Foi pelo facto de ter publicado em 2010 uma obra intitulada “Exercício e Atividade Física – prevenção, manutenção e recuperação: pa(ss)os para a saúde”. Contendo alguns temas, tais como por ordem alfabética foram descritos: Artrite, Asma, Bursite, Cancro, Doenças do Coração, Diabetes, Dores da Coluna, Esclerose Múltipla, Combate ao envelhecimento, Osteoporose, etc …obra que tão rápido se viu esgotada a 1ª edição, porventura pelo facto de o produto de sua venda ser integralmente ofertado a núcleos de gente mais carenciada, organismos Associativos, Lares, etc … o certo é que ficou um desejo de passar a explicar na prática a melhor e mais adequada a metodologia de processos para que através da prática se pudesse encontrar a melhor fórmula de aquisição duma boa saúde. Sabe-se que uma incorreta administração da função, pode provocar grave rutura no equilíbrio funcional, conduzindo a estados críticos onde a doença tem uma porta aberta e por vezes a morte também acontece!...

 

Sempre procuramos chamar a atenção para este fenómeno da prática do exercício para a promoção duma boa saúde. Sem dúvida que a sua essência prática e metodológica corporiza um tempo de alegria, de prazer e entusiasmo, de movimento. É como uma chamada à festa do corpo em que pela prática da atividade física poderemos aglutinar um nível superior de relação entre as pessoas, onde as noções do belo, do estético e do ético farão acordos de admirável existência. Contudo nunca deveremos esquecer que, em qualquer atividade a realizar, fazer aquilo que faz mal ou não fazer o que deve ser feito, são erros do mesmo tamanho.

 

Daí a necessidade de muitas vezes eu ter sido sujeito a estar próximo desta minha querida comunidade no sentido de observar e aconselhar a melhor prática (como também está em parte referido no artigo anterior). A título de curiosidade, num dos dias que me deslocava para o centro da cidade, um grupo de senhoras em passo acelerado seguia o seu percurso. Sentindo-me próximo da sua caminhada, logo me alertavam: “ está a ver … já estamos quase a fazer a caminhada de 5 Km /hora e quanto às pulsações temos andado com a média que também nos aconselha, nos 35 batimentos em 15 segundos e .. ah ..também trazemos a nossa garrafinha .. olhe que é água “!... ao que eu lhes respondi: “muito bem …parabéns …mas há aqui duas senhoras que usam os sapatos de tacão e outra que traz o cãozinho pela trela e já com língua de fora!”... Lá continuaram com a caminhada certa, mas agora interpeladas pelas colegas em sorriso maroto!...

 

Com base nesta dinâmica, procuramos enquadrar todos os lares do concelho numa “passeata”, usando o percurso da natureza que para o efeito foi preparado, num terreno plano e muito arborizado. Foi mesmo comovente ver a alegria a resplandecer naqueles rostos cravados duma vida vivida em “trânsito acelerado”, nalguns casos marcados pela dor dum isolamento, mas com vontade enorme e empenhado na realização efetiva das seis estações, com exercícios diversificados com base na coordenação motora, flexibilidade e respiração, convidando-os entre as mesmas para entoar as cantigas que por vezes ao final do dia no crepitar das trindades se ouviam por entre os amanhos da terra. Recordo bem uma dessas cantigas: “a senhora do Pilar tem fitinhas a voar … vermelhinhas e branquinhas … todas vão caír ao mar!”...

 

No final do encontro pujante de alegria e entusiasmo nos aguardava um bom petisco estendido por entre toalhas de linho bordado, e aos sons do cavaquinho, viola e concertina, a plenitude da vida encarava sorridente num jeito de consagração e amor para quem a noite cedo começa a aparecer misturada de recordações e saudade… e também com a pergunta sagrada de entusiasmo e expectativa: “quando é que vimos cá outra vez?!”... Mais se poderia acrescentar, nomeadamente a realização dos Torneios ou Jogos Tradicionais, sempre realizados aos sábados no tempo das colheitas. Sempre, mas sempre se procurou através desta forma de congregar o conhecimento das tradições através do que de melhor o jogo fazia transmitir, inserindo-o num traço de cultura e pelo respeito das mais legítimas formas de a exercer, quer com o concurso de quadras populares, quer pela fórmula pitoresca de os realizar, com apoio de musica popular, merendeiro a preceito, e todos e cada um se envolviam numa estreita e fidalga forma de estar. Em torno desse sentimento, lavradores, marceneiros, médicos, engenheiros, professores ou comerciantes… vestiam a pele da congruência e por entre o lançamento da malha, do pião, da bola de pau ou num simples jogo de cartas, sorria de encanto a doce quietude da ética vertida em respeito virtuoso e solidário.

 

Deixo em reflexão o que num dos jogos, uma das quadras populares se viu vencedora: “Malha moída moldada … com sangue e ferros desta gente … mãos por ti arrastada … raiz dum povo valente!”… Muito mais poderia referir neste contexto. Talvez noutra oportunidade o deva e possa fazer. Apenas faço constar a constituição dum grupo muito especial, que  também muito me honra, pelo facto de nele estar envolvido para a sua criação. Tem por título: “PELO DESPORTO …UMA AMIZADE MAIS FORTE” … Iniciamos uma dúzia de bons amigos os encontros temáticos de, pela prática duma simples atividade desportiva, encontrarmos o sentido do respeito pela vida. Hoje somos umas boas dezenas … iremos comemorar no próximo ano, 50 anos de existência – as nossas BODAS DE OURO!... Porque merece uma referência especial, no momento próprio será tido em conta. Prometo!...

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário.

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