Os mitos reinantes no desporto… (artigo 5 de Armando Neves dos Inocentes)

Espaço Universidade 12-11-2018 23:34
Por Armando Neves dos Inocentes

É atribuída a Joseph Goebbels a frase «uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade». Sendo um mito uma narrativa para explicar factos ou fenómenos que a ciência não explica de modo plausível ou inequívoco e que o cidadão comum não conhece na sua profundidade, vamos denominar “mito” essa “verdade” de que nos falava o Ministro da Propaganda da Alemanha nazi entre 1933 e 1945.

 

Ser o desporto um meio que fomenta a construção da personalidade ou do carácter do praticante tem sido um dos mitos sempre apresentado relevando-se a sua positividade. Mas a fraude, o utilizar todos e quaisquer meios para alcançar a vitória, a corrupção e o uso de substâncias dopantes mostram-nos que o desporto não constrói o carácter de um desportista, antes revela-o.

 

Qualidades como a persistência, a iniciativa e a autoconfiança não são somente específicas do desporto e não são só treinadas no e através do desporto. Que elas possam ser treinadas no desporto e depois automaticamente transferidas e aplicadas em outras esferas da vida carece de confirmação. Peter Arnold, no seu livro “Sport, Ethics and Education” (1998, London, Cassel.) dizia-nos que “esta última perspectiva é seguramente uma das ingénuas e infundadas no relacionamento entre o desporto e o desenvolvimento do carácter.”

 

Quando Kant nos deixou o seu imperativo categórico – age de tal modo que a tua vontade possa considerar-se a si mesma como constituindo uma lei universal por meio da sua máxima – estava longe de prever que esse “meio de formação” está para o desporto tal como o gato de Schrödinger está para a mecânica quântica: vivo e morto ao mesmo tempo.

 

O facto de inúmeros desportistas se profissionalizarem aos 12 ou aos 14 anos, exacerbando-se assim o espírito da competição porque sujeitos a enormes pressões e exigências demonstra estarmos na presença de algo camuflado: a exploração infantil no desporto. Poderá nestas idades e nestas condições o desporto contribuir para a formação do carácter destes desportistas?

 

Temos como um dado adquirido que o desporto promove valores – mais um mito. Não temos dúvidas que o desporto promove valores, mas também promove contra-valores. Tomarmos consciência da existência desses contra-valores, sabermos identifica-los e reconhecermos que estes são obstáculos que se opõem à promoção de verdadeiros valores é tarefa urgente e necessária.

 

O mito da saúde no desporto é outro daqueles que constantemente vem a lume. O desporto dá saúde, diz-se, mas… a morbilidade e o abandono de carreiras desportivas precocemente, a morte súbita em plena prática desportiva, as inúmeras mortes de desportistas não explicadas e um sem número de suicídios no desporto mostram-nos o contrário. Em “Contre le sport – à ne pas lire en survêtement” (2008, Paris, Anabet.), Gustav Caroll pergunta por que motivo teremos de aceitar a ilusão da associação entre o desporto e a saúde, a confusão voluntária entre jogo e rivalidade, exercício e competição? E interroga-nos ainda sobre o facto de se encorajar este masoquismo que enche os hospitais e faz prosperar as clínicas do desporto… O Professor Manuel Sérgio (2003, “Algumas Teses sobre o Desporto”, Lisboa, Compendium.) diz-nos que “ninguém faz este desporto para ter saúde; fá-lo porque tem saúde”. Posição essa corroborada pelo Professor Olímpio Bento (2004, “Desporto – Discurso e Substância”, Porto, Campo das Letras.) quando afirma que “o alto rendimento não se inspira na ideia de fomentar a saúde; mas isso não o autoriza a atentar deliberadamente contra ela.”

 

O mito da igualdade de oportunidades dos participantes no desporto também costuma estar sempre presente dado que o espaço onde este desenvolve as suas actividades assim como as normas que regem as mesmas são comuns. Mas este mito ignora as desigualdades de condições desses mesmos atletas – condições individuais diferentes (genéticas, anatómicas, fisiológicas ou psíquicas), diferentes condições de treino (metodologias de treino, infraestruturas desportivas, competências de treinadores e restante staff, apoios económicos) e até díspares condições de participação no momento (tempo) – esse sim – comum a todos os competidores (onde todos os antecedentes atrás assinalados emergem).

 

Sendo um mito algo que justifica uma crença comum, verificamos que o desporto está cheio deles e ele próprio deles necessita… porque os mitos resolvem as nossas próprias contradições: podemos justificar o «real» pelo «desejável». E podemos incorporá-los nas nossas vivências, tal como nos explicava Kafka numa das suas metáforas: “Os leopardos invadiram o templo e beberam o vinho dos vasos sagrados. Esse incidente repetiu-se com frequência. Por fim, chegou a calcular-se de antemão a hora exacta do aparecimento das feras. E a invasão dos leopardos foi incorporada no ritual.”

 

Armando Neves dos Inocentes é licenciado em Ensino de Educação Física, Mestre em Gestão da Formação Desportiva, cinto negro 5º dan de karate-do, treinador de Grau IV.

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