Eu, professor me confesso - Parte 5 (artigo de José Neto, 73)

Espaço Universidade 07-11-2018 19:37
Por José Neto

Folheando os acontecimentos que mergulham no percurso do tempo, anoto o meu regresso ao meio prisional onde a prática desportiva adquirira entretanto um carácter institucional e regular, repartindo o meu horário entre a Escola e a Prisão.

Agora, perante um clima de maior normalidade, pude promover um conjunto de ações relativas à conquista de novas infraestruturas, como sejam a aquisição de novos equipamentos para a prática desportiva, bem como a instalação dum ginásio com aparelhos e máquinas de musculação e a construção no espaço degradado da Ala A, de um polivalente com piso sintético, onde ficaram limitados os campos de jogos (Andebol/Voleibol/ Basquetebol/Futsal), tendo sido circundado por 4 pistas de atletismo.

 

Enumerar todas as atividades realizadas seria fastidioso, dado que em média mensalmente foram tendo eco ações promotoras dum enriquecimento coletivo, tendo sempre presente o fenómeno do Desporto e do Exercício Físico consubstanciado no desejo de partilhar regras, saberes e competências que advinham do lúdico passando pelo competitivo, mas sempre altamente vocacionadas para a dignificação, não apenas do atleta recluso, como sobretudo do homem portador de valores, alguns deles esquecidos. Razão por que se considera redutor atender apenas à dimensão físico motora do próprio Desporto, em vez de o entender numa perspetiva integrativa, como ensina a ciência da motricidade humana.

Deixo, contudo, para a história as realizações de maior dimensão: Jogos populares de S. Martinho; Encontro com Pedro Abrunhosa; Convívios lúdico -desportivos entre vários Estabelecimentos prisionais; Jogos de Basquetebol  com a Seleção Portuguesa Sénior Masculina, com a equipa profissional do F. C. Porto, com alunos finalistas do I.S.M.A.I. e seleção de alunos da Escola Secundária; Jogos de Voleibol com a equipa feminina do J. Pacense e com alunos finalistas do I.S.M.A.I; Jogos de Futsal com a equipa profissional do Boavista F.C., com a equipa profissional do F.C. P. Ferreira, com uma seleção de deputados da Assembleia da República, com ex internacionais do Futebol, com a equipa feminina de Futsal da A. D. Penamaior, com a seleção de treinadores do Futebol profissional, com a seleção de professores da escola Secundária; Jogos da Liberdade – comemorando o centenário da morte de Eça de Queirós e por último a realização dos Jogos Olímpicos 2000 – numa réplica aos jogos olímpicos de Sidney com a presença de vários estabelecimentos prisionais, onde também conviveram as campeãs Rosa Mota e Fernanda Ribeiro, transportando o facho olímpico que irradiou a luz duma festa memorável.

 

Os objetivos fundamentais destas atividades enquadraram-se na promoção e desenvolvimento do espírito de iniciativa, da capacidade organizadora, autonomia e solidariedade. Em ordem à promoção e estreitamento de laços afetivos entre os intervenientes e numa tentativa para estimular a auto – estima, os resultados ficaram sempre para último lugar, muito embora a vontade de vitória e luta de conquista, nem por um segundo tenha sido abandonada.

 

As três últimas atividades, fundamentalmente viradas para o exterior e porque foram alvo de referência na comunicação social, tiveram como palco os estádios da Mata Real, do S. C. Freamunde e F. C. Penafiel – jogos de Futebol entre alunos reclusos e seleções compostas por autarcas, diretores dos clubes envolvidos, profissionais da comunicação social e árbitros de nível nacional e internacional. Eventos que, tendo culminado numa caminhada gratificante de humanização da população reclusa, constituiram um acontecimento único quer para os próprios reclusos, quer para familiares, professores, quer ainda para a população em geral e até para as autoridades oficiais que não quiseram deixar de marcar presença.

 

Permito-me, nesta torrente de emoções que me acodem e que, por razões óbvias, me dispenso de relatar, destacar o significativo episódio de os reclusos, enquanto ocupavam os lugares nos carros celulares, que os levavam de regresso às celas da prisão, entoarem cânticos com vibração e garbo, cânticos de júbilo e celebração – a sua alma reencontrava os caminhos da alegria e esperança. 

 

Foi um tempo que a minha memória hoje aviva e que me revejo na circunstância de justificar o facto de a prática desportiva ter ajudado sem dúvida a abrir a janela da esperança, atalho para o mundo por vezes esquecido da cidadania, o caminho expedito de humanização, acolhendo a situações de fragilidade humana, à situação de emergência – acabou por ser um S.O.S. providencial, funcionando como acicate fortemente intencional.

 

O Desporto na prisão, através da exercitação das suas exigências normativas, habilita (melhor, reabilita), ao encontro do sentido para a vida, ajudando a restaurar o caminho intencional de auto realização. E esta intencionalidade anima-se-lhes através da recuperação da consciência do próprio corpo, inventando espaços de liberdade e esperança, chamando à ordem um clima de ressocialização e dignificação pessoal, o reencontro com a vida.

 

Um dos aspetos que mais curiosidade me despertou, quando iniciei este projeto, era saber como se iriam sentir na realidade os reclusos através da dinâmica por mim introduzida (sempre em consonância com as diretrizes superiores), se constituísse como forma de despertar o sonho adormecido da liberdade, essa liberdade que se experimenta através do jogo, ajudando-os a viver em comunidade. Não apenas pela alegria de jogar mas pela aplicação das regras do seu comportamento, tendo como “prémio” as possibilidades de saída para o exterior num pleno exercício de socialização, que através do grito de liberdade, vissem aumentado os níveis de auto estima e confiança para reconquista do futuro.

 

Não gostaria de terminar esta reflexão duma das experiências mais ricas da minha vida profissional de docente, sem referir uma nota de gratidão do então Sr. Diretor Dr. Miranda Pereira que rompendo as barreiras da acomodação, ousou em (1978/79 a 1982), apostar em mim para arriscar levar mais vida e humanidade para lá das paredes frias e das grades da prisão. Mais tarde outros Diretores me levam a justificar a referência, como o Dr. Eugénio Coelho, Dr.ª Conceição e Dr. Paulo de Carvalho, pelo envolvimento pessoal e situacional, para que a força do projeto resultasse num efeito plenamente ganhador.

 

Jamais poderia deixar este elemento circunstancial de múltiplas vivências, como página esquecida. Em função do que sentia ser meu acervo experiencial, procurei inserir num caso de estudo, áreas tão díspares mas inegavelmente ricas de humanidade – o Futebol ao mais alto nível no F. C. Porto e a minha experiência pedagógica no Estabelecimento Prisional de Paços de Ferreira, acolhendo um corpo ativo de cidadãos, escolhidos aleatoriamente na prática do Desporto, para servir de base para a formulação duma tese que foi objeto do meu doutoramento e que está desenvolvida em obra editada pela “Prime Books” em Março de 2012 – Futebol de Corpo Inteiro – o Futebol à Luz da Ciência da Motricidade Humana no Reencontro com a Vida… com base de uma inexaurível fonte de inspiração, como foi e continua a ser o meu querido Professor Doutor Manuel Sérgio, profético arauto de um novo modo de olhar a Educação Física e o Desporto. Ele que se tem batido pela instauração de um novo paradigma que, em substituição do estafado modelo cartesiano em que um chocante dualismo reinava, se tenha imposto agora numa conceção integrativa e holística do movimento humano. Um paradigma inclusivo das várias dimensões do que o homem se constitui – o físico, o psíquico, o espiritual, o social, o cultural, o religioso e tudo o mais que, no registo de constitutiva totalidade, nos qualifica e determina.

 

Foi com base nesse paradigma, isto é à luz da Ciência da Motricidade Humana que me propus evidenciar a relevância humana, social, e pedagógica, destes momentos que de forma serena, sentimental, firme e realista, fui rubricando na marcha do tempo o eco da minha vida profissional.

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F./U.E.F.A.; Docente Universitário.

Ler Mais
Comentários (0)

Últimas Notícias