«Desafios e Rumos Para Vencer»  (artigo de José Neto, 67)

Espaço Universidade 18-09-2018 15:39
Por José Neto

Estou a terminar um espaço de tempo mais disponível para “amolecer” o corpo e cultivar a mente na descoberta de novos horizontes e também colocar alguma leitura já com uns bons tempos numa lista de espera e a ser colocada na ordem do dia.

Li e reli e tenho ainda muito para refletir num livro escrito por uma pessoa muito especial na minha vida académica, já que está a concluir o seu mestrado em treino desportivo e que muito me honrou ao me convidar para ser seu orientador institucional. Mas o autor do livro “Desafios e Rumos para Vencer”, Dr Gerry Silva, conceituado jurista na advocacia e na pedagogia do desporto, é daquele tipo de alunos que tanto nos ajuda a aprender de forma necessariamente atenta e continuada.

 

Neste livro o autor levanta algumas questões muito pertinentes e que nos permite redefinir à priori o conceito as bases do conhecimento que, também no Futebol “nasce da dúvida e se alimenta da incerteza” como nos refere de forma repetida e tão eloquente o nosso querido Professor Manuel Sérgio.

 

Mas, e voltando à reflexão do autor citado, “em toda a teoria também pode haver erro e ilusão”, deixa-nos a abertura para uma reflexão continuadamente abrangente.

 

Sendo esta publicação objeto de estudo e investigação, apoiado no diálogo, na observação e na experiência, o autor remete-nos de imediato para uma grande questão: o treinador treina como joga? … Jogará como treina?... e de imediato nos apresenta outra reflexão: é possível controlar o acaso e a imprevisibilidade?...

 

Uma outra nota de particular interesse reflexivo, e que tem passado de forma muito discreta nos comentários, é a relação das tendências evolutivas do jogo de Futebol e a sua relação com o mercado de valores: no futebol em Portugal é inútil o que não é rentável, questionando se será possível dissociar a evolução das tendências do jogo dos modelos económico financeiros que presidem nas estratégias dos clubes?!...

 

Perfeitamente real esta visão economicista do jogo de Futebol, como espetáculo promotor do mercado publicitário e rentabilidade substituída à lei da eficácia financeira em que muitas vezes o ideal é a prática e o produto é o sujeito que o pratica. Uma nota que associa a este campo reflexivo é a alteração constante dos horários de competição em função dos interesses dos meios de comunicação, isto é, a submissão da regra desportiva perante a regra económica. Daí esta ameaça de assistirmos à consolidação de um verdadeiro império económico e mediático desportivo em que a definição dos modelos de calendário desportivo, o número de competições a realizar, etc, faz-nos remeter a ideia de que os critérios de rentabilidade desportiva estão sempre submetidos à qualificação duma eficácia financeira.

 

Tudo isto condiciona o treinador na tentativa de ver consolidadas as tendências evolutivas do jogo, subjacentes ao seu modelo de treino, ao seu projeto de jogo, à sua forma específica de planificar o treino, potenciando os recursos humanos e materiais para a obtenção do êxito.

 

No âmbito da formação de jogadores também nos remete para a importância na criação de talentos, sendo uma luta pela desigualdade de oportunidades conforme os recursos disponíveis, para além da demasiada tecnocracia do ensino do jogo. Para além disso (acrescento), assiste-se nos dias de hoje a uma tipificação de clonagem de jogadores com expetativas elevadas a curto prazo, excessivamente previsíveis a longo prazo, retirando-se ao génio o seu espaço para crescer.

Também ainda se assiste a uma demasiada tipificação do ensino do jogo e que pode entravar a evolução inteligente do jogador, orientando-o para práticas descontextualizadas que uma repetição constante aborrece e constrange.

 

De muito interesse reflexivo é ainda o estudo para um melhor enquadramento dos quadros competitivos, devendo a iniciação desportiva obedecer ao plano estratégico com a coincidência da iniciação escolar. Nessa perspetiva de aprendizagem global poderia resultar uma antecipada maturidade futebolística com o propósito de prolongar a longevidade profissional, jogando ao mais alto nível. Nesse ponto de vista pedagógico e situacional pela envolvente do enquadramento social e familiar do praticante, a aprendizagem do jogo poderá resultar um maior potencial criativo, estruturalmente solidificado.

 

Outra temática bem vincada na obra, o autor Dr Jerry Silva, remete-nos para  preparação e condução do jogo e à qualificação da observação e análise, conduzindo-nos para uma reflexão que também está gravada no tesouro da minha memória. Refere o Sr José Maria Pedroto e a frase célebre: “diz-me como jogas e te direi como deves treinar”, fazendo-me recordar Abril de 1981 e a uma questão por mim colocada no final dum colóquio, me convidou a visitar a sua sala de aulas Vitória de Guimarães e depois de alguns ensaios de observação e análise do jogo, tendo presente diversos parâmetros do jogo e sua descodificação e imediata descoberta guiada para a planificação do treino semanal. No final dum dia, abeirou-se de mim e lançou-me uma frase que me varreu a alma e eu jamais poderei esquecer: pr’ó ano vai comigo p’ro Porto!... o restante está também publicado e a história não mente!...

 

Por intermédio de um treinador sempre adiantado no tempo, a observação e análise do jogo tornou-se em Portugal um instrumento na avaliação e conhecimento do futebol, tendo-se constituído como um dos aspetos mais importantes na maximização do rendimento, na procura dum saber mais sustentado para uma intervenção técnico-pedagógica mais adequada por parte do treinador.

 

No concernente à elaboração do jogo coletivo, apela para o estudo e desenvolvimento dos seus momentos, com uma reformulação pedagógica de excelente recorte, anotando algumas qualificações evolutivas dos processos de treino, parecendo-me como notável referência e que deveria estar presente em todos os manuais de estudo do Futebol.

A concluir esta temática que seduz e cativa o leitor, anota uma reflexão para a aplicação do modelo de periodização tática, o qual, segundo o autor, possui uma metodologia diferente das demais periodizações porque o treino é estruturado conforme o modelo de jogo da equipa em presença e em que as qualidades físicas, técnicas, táticas e mentais, estão sempre dependentes do modelo de jogo adotado. Esta tendência evolutiva nos conceitos e metodologias do treino, ou forma de organização e estruturação do processo de treino, segundo o seu autor, está diretamente relacionado com o modelo de jogo do treinador.

 

Remete-nos esta questão para o processo da globalização ou o treino como um todo…como desde 1973 o Professor Manuel Sérgio no estudo do homem em movimento integral com o conceito de “periodização antropológica e tática”, referindo “não há jogos, há pessoas que jogam”, em que ao mesmo tempo que se trabalha a tática, se deve trabalhar o jogador que concretiza a tática em campo. Considero por isso a tese do doutoramento de Manuel Sérgio, “para uma epistomologia da motricidade humana” (1986), a primeira grande teorização dos novos princípios para a fundamentação do treino e da competição.

 

Aproveito a oportunidade para referir o que desde há uns tempos a esta parte tenho explorado “numa nova visão global do treino desportivo”, e porque o método da complexidade exige que tudo esteja em tudo e portanto os aspetos físicos, técnicos, táticos e psicológicos estejam presentes os objetivos últimos da competição. Tenho procurado evidenciar numa planificação de treino, para além do respeito integral dos princípios biológicos que o regem, assim como as verdadeiras fontes que condicionam a aplicação das cargas, as condições infraestruturais da prática e sua operacionalidade, dossiers individuais dos atletas (passado desportivo, histórias clínicas, rankings de sucesso, etc), uma avaliação geral de competências no sentido de poder equacionar metodologias, comparar evoluções e perspetivar rendimentos futuros.

A título de exemplo registe-se uma avaliação de competências psicológicas e mentais (motivação, atenção e concentração, autoconfiança, stress e ansiedade, locus de controle, coesão, formulação de objetivos de conquista, etc) que no decorrer do microciclo semanal deverão ser inseridos na dinâmica do treino por aplicação estruturada e de acordo com a individualidade do atleta.

 

Por último, uma abordagem pertinente para a necessidade de articular a política desportiva com a escola, no sentido de que o jovem se possa inserir nos clubes com uma base de conhecimentos fundamentais da prática desportiva. Para tanto, também é referida a necessidade da qualificação dos treinadores que deve ultrapassar a vertente unicamente técnica, já que os instrumentos de diagnóstico da prática desportiva não se limitam nem à técnica nem à tecnologia, mas o apelo para a formação integral do indivíduo num crescer harmonioso e devidamente sustentado.

 

No livro “Desafios e Rumos Para Vencer” o autor associa a qualidade literária à competência dum saber sustentado e por isso reflete um instrumento fundamental de consulta em especial nos dias que passam e em outros que estão para nascer.

 

José Neto: Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado      Ciências do Desporto; Formador de Treinadores F.P.F/U.E.F.A.; Docente Universitário.

 

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