António-Pedro Vasconcelos: Um pensamento filosofante (artigo de Manuel Sérgio, 258)

Espaço Universidade 17-09-2018 23:43
Por Manuel Sérgio

Sentencioso e moralista, como pareço ser (é que não sou tanto como se pensa) o cineasta António-Pedro Vasconcelos é, hoje, para mim, uma das personagens verdadeiramente fulcrais do meu círculo de Amigos – o António-Pedro Vasconcelos que não esconde um apego muito especial à linguagem, às palavras, aos livros. E, embora o seu corajoso idealismo que o leva, como cineasta, a surpreender recessos vivos da alma humana, em filmes que ficarão para sempre na melhor antologia do cinema português – embora tudo isto, ainda são as obras dos grandes escritores  que ele mais frequenta e onde mais se refugia, para poder viver ressumando confiança, alegria e algumas certezas. É um conhecido benfiquista. Todos o sabem. Mas antes do Benfica, antes dos aspetos mais lúdicos da vida, ressalta nele um humanismo onde estão presentes os grandes pilares em que assenta a cultura europeia e ocidental: a filosofia grega, o espírito jurídico latino, a mensagem cristã e o racionalismo que a Revolução Francesa corporizou. Logo em rápida conversa com António-Pedro Vasconcelos, se nota que ele frequentou e frequenta os humanistas de todos os tempos, onde aprendeu e aprende a adornar e a educar a sua erudição e onde a sua cultura se renova. Terêncio fixou, em máxima famosa, o que os intelectuais , como o António-Pedro Vasconcelos, vêm repetindo sempre que podem: “Homo sum, humani nihil a me alienum puto” (traduzindo: “sou homem, nada do que é humano me é alheio”). Formado na leitura dos autores clássicos, António-Pedro Vasconcelos é um humanista, no que o humanismo  tem de superior disciplina literária e filosófica. E até daquela ideologia onde “o homem é para o homem o ser supremo”. Não admira por isso que, em diálogo permanente com tão boas companhias, revele, nas suas conversas, um acervo filosófico e literário verdadeiramente surpreendente.

 

No livro da sua autoria que teve a bondade de, há poucos dias, num dos nossos habituais almoços, oferecer-me um exemplar, A Companhia dos Livros (Sociedade Portuguesa de Autores, Lisboa, 2015 ) manifesta-se ele direto discípulo de Pascoaes, de Steinbeck, de Kafka, de Malraux, de José Cardoso Pires, de Agustina e… de muitíssimos mais: “Os livros de que aqui falo, muitos deles de jovens escritores portugueses, que me pediram para os apresentar, não esgotam por isso, nem resumem, os meus gostos, nem as minhas fidelidades literárias. Vários volumes não chegariam para descrever as descobertas que continuo a fazer todos os dias, as páginas com que vou aprendendo a reconhecer a imperfeição do mundo e a infinita duplicidade dos homens, mas também o sortilégio da escrita e a misteriosa beleza das palavras que, de Montaigne a Proust, de Shakespeare a Tolstoi, de Melville a Kafka, de Dickens a Borges, me fazem não desesperar da humanidade” (p. 13). A alturas tantas da nossa conversa pós-prandial, senti-o a vogar a todo o pano no azul de um sentimento que, sobremaneira, o seduzia: “Gosta do Cesário Verde?”. Respondi-lhe que sim, que muito o admirava, embora não fosse um dos poetas que mais consultava, que mais atentamente lia e relia: “A minha poesia preferida é a lírica de Camões e o Pessoa e o Torga e a Sophia e o Manuel Alegre”. E ele, como em êxtase, a olhar para o poema de Cesário Verde, transcrito num livro da Maria Filomena Mónica: “Veja a sublimidade da inspiração artística deste poema”. E começou a ler um poema de Cesário Verde, como se no António-Pedro lavrasse um fogo interno onde se adivinhava uma espécie de assombro, misto de espanto e de ternura:

 

“Naquele pic-nic de burguesas

Houve uma coisa simplesmente bela

E que sem ter história nem grandezas

Em todo o caso dava uma aguarela.

 

Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher sem imposturas tolas

A um granzoal azul de grão-de-bico

Um ramalhete rubro de papoilas.

 

Pouco depois, em cima duns penhascos,

Nós acampámos, ainda o sol se via,

E houve talhadas de melão, damascos

E pão-de-ló molhado em malvasia.  

 

Mas todo púrpura a sair das rendas

Dos teus dois seios, como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro de papoilas”.

 

O António-Pedro Vasconcelos ensejou ocasião de uma análise à obra de Cesário Verde, ao apresentar ao público ledor o livro da escritora (e sua amiga de estreita amizade) Maria Filomena Mónica, Cesário Verde: um génio ignorado. O texto, de verdadeira crítica literária, encontra-se no livro A Companhia dos livros, acima referido e que atualmente leio e estudo (com grande proveito meu, acrescente-se). Nele, colhi o seguinte, onde se vislumbra a “douta ignorância” do António-Pedro: “Mas que posso eu acrescentar a um livro cujo mérito maior é o de dizer abertamente que Cesário era um génio, um génio sem paternidade, nascido de geração espontânea, como convém aos génios – o único génio óbvio e ofuscante da nossa literatura, acrescento eu, que partilho com ela esta admiração beata, esta estupefacção permanente, esta admiração fiel, este prazer de cortar a respiração, que me assoma, a cada noiva leitura dos seus versos? (p. 48). E, também porque António-Pedro Vasconcelos acredita que “o desporto é o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo”, não se estranhe que, com ele, no horizonte intelectual de uma conversa, caibam, lado a lado, a literatura, o cinema e o futebol. Ele não esquece o Benfica, o seu Clube, sobre o qual se adensam algumas nuvens pressagas. E assim, ao lado de Shakespeare, ou de Tolstoi, ou de Proust, ou de Musil, também o vemos extasiado com um filme de Felinni, de Chaplin, de Eisenstein, de Antonioni, também relembra com saudade o José Augusto, o Eusébio, o Águas, o Torres, o Coluna e o Simões. E contempla embevecido a segurança defensiva do Jardel e do Rúben Dias  e uma fuga ziguezagueante do Salvio: “Um jogador de classe, não lhe parece?”, inquiriu o António-Pedro generoso e perscrutador. Concordei com ele, sem dificuldade: o Salvio é um futebolista de excelência.

 

Aliando a arte, a investigação e o estudo, o António-Pedro Vasconcelos ajuda a pôr de pé um perguntar pelo desporto donde se vislumbra uma sociedade inteira. E vê um desporto diferente. Ele e a Maria Filomena Mónica serão, sempre que o entenderem, dois excecionais críticos do desporto. Porque fariam do desporto um pretexto, para falar do que mais interessa…

 

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto

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