A gestão desportiva do futebol face aos acontecimentos atuais - Que futuro depois das eleições? (artigo de António Pereira, parte 4)

Espaço Universidade 10-09-2018 20:35
Por António Pereira

O que uma equipa desportiva ou organização desportiva representa para um fan, um comum adepto ou somente um curioso do fenómeno desportivo varia de pessoa para pessoa.

Quem deu a conhecer um determinado clube ou equipa pela primeira vez à pessoa, em que fase da sua vida, as memórias criadas na infância, as rivalidades históricas, o desafio mental de ser adepto dessa equipa, são fatores que trazem a lealdade pessoal e emocional a um clube ou equipa.  

Um dos momentos mais desafiantes que um fan pode ter é estar ou ver aquele jogo em que tudo parece perdido, mas algo aparentemente impossível aconteceu. Ganhámos!!! Como foi possível? Com que frequência uma equipa vence em determinadas circunstâncias? Em que modalidades? Qual a sensação que isso traz ao fan? Será que podemos captar novos fans por causa deste tipo de momento que proporcionamos? Estão os fans disponíveis para seguir este tipo de equipa e organização desportiva?

Ora, todos estes momentos criam grandes memórias, sensações e atitudes em nós como seres humanos despertando momentos únicos e que o departamento de marketing e comunicação deve aproveitar com objetivos claros de conseguir o comprometimento dos fans e adeptos.

O que é que isto tem a haver com as eleições do Sporting Clube de Portugal (SCP) e com a série de textos que escrevemos previamente?

Depois de ver, ouvir e ler, isto é, consumir horas intermináveis de informação sobre as eleições do SCP, dei por mim a pensar o porquê que desde o início os diversos candidatos não deram relevo à cultura organizacional do SCP?

Se no futebol podemos considerar o SCP uma organização perdedora (os dados estatísticos assim o dizem e os candidatos assim o referiram) devido ao número de títulos que conquistou nos últimos quarenta anos, já nas modalidades tal não acontece. As equipas do SCP das diversas modalidades foram campeãs nacionais.

Assim podemos questionar o porquê.

Será que o foram porque têm orçamentos maiores que os outros clubes? Será que têm melhores atletas? Será que têm melhores treinadores? Será que os dirigentes são melhores? Será que conseguiram construir um grupo mais forte e coeso que as outras equipas? Será que no contexto da modalidade a vitória é mais fácil? Terão melhor organização interna? Outras condicionantes?

Ao longo das entrevistas e debates, diversos foram os temas abordados, nomeadamente os financeiros, que desde o primeiro dia foram marcando o discurso ou debate dos diversos candidatos.

Quanto a mim, fiquei na expectativa de que os candidatos à presidência do SCP (o mesmo se aplica a qualquer que seja a organização desportiva) trouxessem para a discussão a ativação da marca Sporting e a aceitação de que o clube tem de ser gerido como uma marca, inserido na indústria da sua área de negócio (indústria desportiva). Como qualquer marca, possui sinais identitários, uma missão, visão e valores que a diferenciam das restantes organizações.

E é a forma como construímos a marca e os seus produtos que poderá determinar que seja uma organização ganhadora ou perdedora. Indo ao encontro das pessoas (fans, adeptos, simpatizantes), atraindo parceiros comerciais e investindo no futuro do jogo (recursos humanos-jogadores e treinadores, tecnológicos), no fundo construindo um relacionamento com os diversos stakeholders.

Para isso é fundamental a operacionalização de diversos departamentos, tais como o departamento de marketing e comunicação, que deverão implementar um plano estratégico quer de marketing quer de comunicação que vá ao encontro das necessidades do clube e das expetativas dos fans, adeptos e simpatizantes (de acordo com o seu grau de envolvimento), dos seus patrocinadores e um departamento de recursos humanos que deverá saber recrutar os melhores profissionais através de um processo de recrutamento que identifique os colaboradores que comunguem da mesma cultura, de forma a acrescentar valor e ter um impacto imediato, para depois saber retê-los. Trabalhar numa cultura de vitória é por certo um fator que encoraja as pessoas a trabalhar e permanecer em organizações de sucesso.

O ato de eleger uma nova direção seja de um clube, ou de um outro tipo de organização desportiva, não deve ser visto como um ato final em si, mas sim o princípio de uma gestão do desporto baseado numa estratégia que conduza ao sucesso e ao saber gerir as expectativas dos consumidores de um qualquer espetáculo desportivo, o que nem sempre é fácil, devido à paixão que o desporto causa em todos nós, mas tirar o fan ou o simples adepto do sofá e conseguir que ele vá ver o jogo ao vivo é hoje um dos maiores desafios que uma organização desportiva pode ter.

Só com uma grande paixão, visão e uma equipa de pessoas competentes e profissionais se poderá construir uma organização de sucesso assente numa cultura de vitória.

 

António Pereira, é licenciado em Comunicação Organizacional com as especialidades de Comunicação de Marketing e Comunicação de Relações Públicas, Mestre em Marketing e Comunicação e estudante de Doutoramento em Ciências do Desporto na vertente Gestão do Desporto na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra e escreve sobre Gestão do Desporto, Marketing e Comunicação do Desporto no blog https://apbasketball.blogspot.com/

 

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